pub-9363386660177184 Pensando as Escrituras: Reflexões
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Com esse título um pouco técnico, você pode estar se perguntando o que é esse tal de “mandato cultural” e o que significa “domínio cristão”. Antes de responder, preciso dizer que essas são, na verdade, ideias muito antigas na história da teologia. Tão antigas quanto as primeiras páginas da Bíblia. E, ao contrário do que pode parecer, essas expressões não têm nada a ver com autoritarismo ou com arrogância religiosa.

O ponto de partida é a nossa própria identidade. A Bíblia diz que Deus criou o ser humano à Sua imagem e semelhança (Gn 1.26-27). Isso não é um detalhe pequeno e insignificante. Ser imagem de Deus não é uma medalha que recebemos por termos um bom comportamento, mas é a nossa própria natureza. E parte dessa imagem é justamente refletir, no nível humano, a autoridade e o poder criativo de Deus. No mesmo versículo, o Senhor declara que o homem deve dominar sobre toda a Criação: peixes, aves, gado e toda a terra. Isso é o mandato cultural.

Muita gente acredita que, depois que Adão pecou, esse mandato teria sido cancelado. Mas as Escrituras mostram o contrário. Mesmo após a queda, o homem continua sendo tratado como imagem de Deus (Gn 9.6). O Salmo 8 reafirma isso, dizendo que Deus coroou o ser humano de glória e lhe deu domínio sobre as obras de Suas mãos. Percebe? O chamado permanece. Deus não desistiu do mundo físico nem da história humana. Tanto que, na plenitude dos tempos, Deus enviou o Seu próprio Filho em um corpo humano real para redimir a humanidade inteira e o próprio processo histórico.

É nesse ponto que a redenção entra em cena de forma poderosa. Logo depois da queda, em Gênesis 3.15, Deus já providencia a solução para o problema. Ele afirma que a descendência da mulher esmagaria a cabeça da serpente. Esse esmagamento de Satanás acontece dentro da história, produzindo consequências reais e concretas. Essa mesma promessa é ampliada na aliança com Abraão quando Deus garante que “todas as famílias da terra serão abençoadas” por meio dEle. O apóstolo Paulo explica que isso significa que Abraão — e, por extensão, todos os que pertencem a Cristo — seria o “herdeiro do mundo” (Rm 4.13). Isso quer dizer que o domínio cristão não é imposto à força. O domínio acontece por meio da conversão gradual das nações e pela disseminação do evangelho, transformando a cultura de dentro para fora.

O que tudo isso significa na prática? Significa que o seu trabalho, a sua arte, a sua influência no bairro, na escola ou no escritório não são atividades neutras. Elas são, na verdade, o cumprimento de um chamado que começou no Jardim do Éden. O mandato cultural nos ensina que o mundo pertence ao Senhor e que Ele quer ver a Sua glória enchendo toda a terra. Essa é uma visão profundamente otimista. A redenção de Cristo é mais poderosa do que a queda de Adão. E o cristão que entende isso para de ver a sua rotina como algo comum e passa a encará-la como parte de um plano soberano que, no final, triunfará na história.

 

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Quando falamos de vida cristã saudável, geralmente pensamos em três pilares: oração, leitura da Palavra e comunhão com a igreja. Porém, há uma disciplina espiritual bíblica, amplamente praticada pelo povo de Deus ao longo da história, que foi quase esquecida em muitos contextos: o jejum. O jejum não é algo opcional, reservado aos crentes “mais espirituais”. É, na verdade, uma prática normal da vida cristã, assim como orar e ler a Bíblia. Aliás, podemos dizer que um cristão que ora, lê a Palavra, mas nunca jejua, está negligenciando uma disciplina espiritual de imensa importância.

Nesse texto, eu gostaria de refletir sobre o jejum à luz das Escrituras. Pretendo responder algumas perguntas, como: O que é o jejum bíblico? Por que devemos jejuar regularmente? Quais são os tipos de jejum? Quais lutas espirituais enfrentamos ao jejuar e como vencê-las? O que devemos fazer espiritualmente no tempo em que estaríamos comendo? Quanto tempo jejuar? Quais são os propósitos certos e errados do jejum? O que Deus faz, em Sua graça, em resposta ao jejum?


1. O QUE É O JEJUM BÍBLICO?

O primeiro ponto importante é que jejum é abstenção de alimento, e não de entretenimento. Na Bíblia, o jejum é sempre relacionado a deixar de comer (total ou parcialmente) por um período, visando um propósito espiritual. Jesus falou sobre “jejuar” (Mt 6.16-18), Moisés jejuou (Êx 34.28), Daniel jejuou (Dn 10.2-3), a igreja de Atos jejuou (At 13.2-3; 14.23). Em todos esses casos, estamos falando de comida.

Hoje em dia, é comum ouvirmos as pessoas dizerem que estão fazendo jejum de rede social, jejum de celular, jejum de séries da Netflix, etc. Ora, privar-se dessas coisas pode até ser proveitoso e necessário em alguns casos, mas biblicamente isso não é jejum. Isso é, no máximo, disciplina e renúncia de algo agradável que pode roubar o nosso tempo. São atitudes boas, mas não são jejum no sentido bíblico. O jejum bíblico é abster-se de alimento por causa de Deus, para buscar mais intensamente a face do Senhor.

Em segundo lugar, o jejum é uma expressão de fome por Deus. Jejum não é simplesmente ficar sem comer. É trocar a fome física por uma busca mais intensa pela presença de Deus. É dizer com o corpo o que o salmista disse com palavras:

Como a corça anseia por águas correntes, assim minha alma anseia por Ti, ó Deus!” (Salmos 42.1). Além disso, o jejum também não é punição ou penitência. É amor. É fome de Deus.


2. JEJUM COMO PRÁTICA REGULAR NA VIDA CRISTÃ

A Palavra de Deus pressupõe a prática do jejum. Jesus não disse “se jejuardes”, mas “quando jejuardes” (Mt 6.16). Isso mostra que Ele considerava o jejum algo normal na vida dos discípulos. Assim como orar e ler a Palavra são práticas regulares, o jejum também deveria ocupar um lugar regular em nossa vida. Não se trata de um legalismo (“se eu não jejuar, Deus vai me castigar”), mas de uma disciplina abençoadora (“eu quero mais de Deus, e o jejum é um meio de graça para buscá-lo”).

Uma sugestão saudável para muitos cristãos é separar pelo menos um dia na semana para jejuar, na medida de sua condição física e rotina. Por exemplo, você pode fazer jejum de uma refeição (o almoço de quarta-feira). Pode também jejuar até certa hora do dia (até às 15h). Ou ainda, pode jejuar por um período maior em ocasiões específicas, como decisões importantes, crises e consagração.

O ponto central é que, assim como ninguém diz que ora somente uma vez por ano, o jejum também não deveria ser algo esporádico, mas parte de um estilo de vida cristã que busca ao Senhor com todos os recursos espirituais disponíveis.


3. TIPOS DE JEJUM BÍBLICO

A Bíblia nos apresenta, basicamente, dois tipos de jejum de alimento.


(1) Jejum parcial: É quando a pessoa não se abstém de todo alimento, mas restringe o tipo ou a quantidade de alimento. Temos o exemplo clássico de Daniel:


“Naqueles dias eu, Daniel, pranteei durante três semanas. Não comi nada que fosse saboroso; carne e vinho não entraram na minha boca, nem me ungi com óleo algum, até que tenham se passado as três semanas.” (Daniel 10.2-3)


Daniel tinha uma alimentação simples, sem muitas delícias, como expressão de humilhação e busca diante de Deus. O jejum parcial pode ser reduzir a quantidade de alimento, comer de forma simples (sem “delícias”) para focar na oração, e retirar apenas um tipo de alimento por um período (por exemplo, doces, carnes, etc.), desde que o propósito seja espiritual.


(2) Jejum total: É a abstenção total de alimento por um determinado período. Por exemplo, a rainha Ester pediu que todo o povo jejuasse por três dias, sem comer nem beber nada (Et 4.16). Paulo, após o seu encontro com Cristo, ficou três dias sem comer nem beber (At 9.9).

Esse tipo de jejum exige sabedoria, especialmente quanto à saúde da pessoa. Nem sempre o jejum total inclui abstenção de água. Na prática cristã comum, é mais frequente fazer jejum de comida, mas não de água.


4. BATALHAS ESPIRITUAIS DURANTE O JEJUM E COMO VENCÊ-LAS

Quem jejua com seriedade logo percebe que o jejum não é apenas uma batalha contra o estômago, mas contra o coração, isto é, uma batalha contra a nossa carne (natureza pecaminosa). A nossa carne gosta muito de conforto e satisfação imediata. Ao jejuar, você está dizendo “não” à carne para dizer “sim” a Deus. É por isso que ela reage.

Algumas possíveis lutas envolvem irritação, mau humor, preguiça espiritual (vontade de dormir em vez de orar), fuga para distrações (celular, TV, conversas vazias), etc. Como vencer essa batalha? Primeiro, entenda que isso faz parte da luta da carne contra o espírito (Gl 5.17). Segundo, comece o jejum decidido a resistir, pedindo graça ao Senhor. E terceiro, lembre-se que o propósito não é o sofrimento, mas a comunhão com Deus.

Durante o jejum, também pode haver uma batalha contra a hipocrisia. Há uma tentação sutil de usar o jejum como vitrine espiritual. Jesus condenou isso: “Quando jejuarem, não façam como os hipócritas, que se esforçam para parecer tristes e desarrumados, a fim de que as pessoas percebam que estão jejuando” (Mateus 6.16). Como vencemos isso? Vencemos jejuando em secreto quando possível, não fazendo do jejum um assunto de autopromoção, e mantendo o nosso foco em Deus, e não na opinião dos outros.

Por fim, também pode haver uma batalha contra a incredulidade. Você pode ser tentado a pensar: “Isso não vai adiantar nada”. Saiba que o inimigo quer esvaziar a sua fé e gerar incredulidade quanto à eficácia desse meio de graça. Como você pode vencer isso? Primeiro, alimente a sua mente com textos bíblicos sobre jejum (Jl 2.12-13; Jn 3.5-10; At 13.2-3). E segundo, lembre-se de que o jejum não é poderoso em si. Quem é poderoso é o Senhor, que se agrada da nossa humilhação sincera.


5. O QUE FAZER NO TEMPO EM QUE EU ESTARIA COMENDO?

Se apenas ficarmos sem comer, mas não substituirmos esse tempo por práticas espirituais, teremos feito somente uma dieta irrelevante. No lugar de comer, devemos: 1) Orar. Separe tempo de oração mais focada. Apresente a sua própria santificação, a sua família, a sua igreja, a conversão de pessoas específicas, e a direção de Deus para decisões importantes. 2) Meditar na Palavra. Leia a Bíblia com calma, sem pressa nenhuma. Demore-se na Palavra e busque aplicar o texto à sua realidade. A Palavra é alimento (Mt 4.4), e o jejum é um tempo para experimentar isso de forma concreta. 3) Confessar pecados. O jejum frequentemente está ligado à humilhação pelos pecados (Ne 1.4-7; Dn 9.3-5). Use esse tempo para examinar o seu coração, confessar os seus pecados e clamar pela misericórdia de Jesus. 4) Interceder. Jejum é arma de intercessão. Ore pelos irmãos que estão fracos e caídos, pelos líderes da sua igreja, pelas missões locais e mundiais, e por situações críticas (enfermidades, crises, decisões da igreja).


6. O TEMPO DE JEJUM

Por quanto tempo devemos jejuar? Não existe um modelo que seja obrigatório. A duração do jejum deve considerar a nossa saúde (problemas como diabetes, gastrite, anemia, etc.), a profissão e o esforço físico que exercemos, e a rotina familiar.

Algumas possibilidades de prática incluem jejuar apenas uma refeição (por exemplo, deixar de tomar o café da manhã ou de almoçar), jejuar até determinado horário (como da meia-noite até às 15h), jejuar por 24 horas (do jantar de um dia até o jantar do dia seguinte) ou realizar jejuns mais longos em períodos específicos, mas sempre com responsabilidade e cautela. O ponto principal não é conseguir ficar mais tempo sem comer, mas jejuar com fé e com o coração focado em Deus.


7. PROPÓSITOS CERTOS E ERRADOS DO JEJUM


Propósitos errados

a) Jejum como barganha com Deus. Pensar: “Vou jejuar para Deus ser obrigado a me dar aquilo”. Isso é transformar o jejum em moeda de troca. Isso é paganismo, e não cristianismo. Deus não pode ser manipulado, pois Ele é o Senhor.


b) Jejum como mérito espiritual. Imaginar: “Se eu jejuar bastante, serei mais aceito por Deus”. Isso é negar o Evangelho da graça, pois a nossa aceitação diante de Deus é somente pela obra de Cristo (Ef 2.8-9), e não pelo nosso jejum. O jejum é fruto de quem já foi aceito em Cristo, e não o caminho para conquistar essa aceitação.


c) Jejum como meio de se aparecer. Usar o jejum para construir uma imagem de “espiritualidade” diante dos outros é esvaziar o seu sentido. Jejum não é palco para o ego espiritual. É exatamente o oposto. É humilhação genuína diante do Senhor Soberano.


Propósitos certos

a) Humilhação e arrependimento. O jejum bíblico está ligado à volta sincera para Deus: “‘Ainda agora’, diz o Senhor, ‘convertei-vos a mim de todo o vosso coração; e isso com jejuns, e com choro, e com pranto’” (Jl 2.12). Jejuamos para nos humilhar, para reconhecer o nosso terrível pecado e buscar restauração.


b) Clamor por direção de Deus. Em Atos, vemos a igreja jejuando para discernir a vontade do Senhor: “Enquanto eles adoravam o Senhor e jejuavam, o Espírito Santo disse: ‘Separem Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado’” (At 13.2). Jejuamos porque queremos entender com mais clareza a direção do Senhor, obedecer com mais prontidão à Sua Palavra e alinhar a nossa agenda à agenda dEle.


c) Fortalecimento espiritual e consagração. O jejum é uma forma de dizer: “Senhor, quero estar mais sensível à Tua voz, mais entregue à Tua perfeita vontade”. Ao negar a comida por um tempo, treinamos o nosso coração para dizer “não” à carne e “sim” ao Senhor, oferecendo a Ele o nosso corpo e o nosso tempo como culto (Rm 12.1).


d) Intercessão em tempos de crise. Em momentos de deserto, crises profundas ou grandes decisões, o povo de Deus sempre recorreu ao jejum. Ester e os judeus jejuaram diante do decreto de morte (Et 4.16). O jejum, portanto, é uma expressão de clamor intenso por livramento, misericórdia e intervenção de Deus em situações humanamente impossíveis.


8. O JEJUM É UM MEIO DE GRAÇA

É muito importante entender que o jejum não tem o poder de comprar o favor de Deus. O Senhor não faz “comércio” com o nosso sacrifício. O Senhor é Deus gracioso, que age por amor soberano, e não por pressão humana. O jejum é o meio pelo qual nós nos colocamos na posição de depender mais profundamente dEle. Podemos dizer que o jejum não muda Deus, mas certamente ele muda quem jejua. O jejum não torna Deus mais favorável a nós, mas torna o nosso coração mais quebrantado e sensível à vontade do Senhor.


9. RESULTADOS GRANDIOSOS DO JEJUM NA BÍBLIA

Vejamos alguns exemplos de como Deus respondeu ao jejum do Seu povo nas Escrituras. Em todos os casos, o protagonista é sempre Deus, e não a prática do jejum em si.


1) Nínive: arrependimento e livramento do juízo. Quando Jonas anunciou o juízo divino, o povo, do maior ao menor, respondeu com jejum e quebrantamento: “Os ninivitas creram em Deus, proclamaram um jejum, e vestiram-se de pano de saco, desde o maior até o menor” (Jn 3.5). O resultado dessa humilhação diante de Deus foi extraordinário: “Quando Deus viu o que fizeram, como se converteram do seu mau caminho, Deus se arrependeu do mal que tinha dito lhes faria e não o fez” (Jn 3.10). O jejum, aqui, foi uma expressão visível de fé e arrependimento, e Deus respondeu com misericórdia.


2) Ester e o povo: livramento da morte. Diante de um decreto de extermínio, Ester conclama o povo ao jejum: “Vai, ajunta a todos os judeus que se acharem em Susã, e jejuai por mim; e não comais nem bebais por três dias, nem de noite nem de dia” (Ester 4.16). Enquanto o povo jejuava e clamava, Deus, em Sua soberania, dirigiu cada detalhe: a insônia do rei, a leitura dos registros, a exaltação de Mardoqueu, a queda de Hamã. O jejum foi parte desse mover gracioso em que Deus livrou o Seu povo da morte certa.


3) A igreja em Atos: direção clara do Espírito. Na igreja de Antioquia, os líderes estavam adorando e jejuando quando o Espírito Santo falou claramente sobre o envio missionário: “Enquanto eles adoravam o Senhor e jejuavam, o Espírito Santo disse: ‘Separem Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado’.” (At 13.2). A partir desse momento, inicia-se uma grande obra missionária de Paulo e Barnabé entre as nações. O jejum, aqui, aparece em um contexto de adoração intensa e disposição de ouvir e obedecer à voz do Espírito.


4) Esdras: proteção na jornada. Ao conduzir um grupo de exilados de volta a Jerusalém, Esdras reconhece sua total dependência de Deus e proclama um jejum: “Proclamei ali um jejum junto ao rio Aava, para nos humilharmos perante o nosso Deus, para lhe pedirmos jornada feliz para nós, para nossos filhos e para todos os nossos bens” (Ed 8.21). A resposta é resumida de forma simples, porém, motivadora: “Assim jejuamos e pedimos isto ao nosso Deus, e Ele nos atendeu” (Ed 8.23). O Senhor guardou o povo no caminho. O jejum deles foi a forma de confessarem: “Senhor, nós não confiamos em escoltas humanas, mas no Senhor da aliança”.


Em todos esses casos apresentados, o jejum aparece como expressão visível de humilhação, fé e dependência do Senhor. De fato, o jejum não é o centro da história, mas ele acompanha o coração que se volta com sinceridade para Deus. O Senhor é quem vê, quem ouve e quem responde ao nosso jejum.

 

UM CHAMADO PRÁTICO

Portanto, o jejum bíblico é abstenção de comida por um tempo, visando propósitos espirituais; é uma disciplina que deveria ser parte regular da vida cristã; é um meio de graça para aprofundar a oração, a meditação na Palavra, o arrependimento e a consagração; é um ato de fé por meio do qual buscamos a Deus com mais intensidade; e é uma prática à qual Deus, em Sua graça, tem respondido ao longo da história.

Se você reconhece que precisa começar a praticar o jejum, deixo aqui algumas sugestões práticas e pastorais para você. Primeiro, escolha um dia da semana para jejuar. Você pode escolher sempre o mesmo dia da semana, durante o almoço, por exemplo. Segundo, defina, com sabedoria, se será um jejum parcial ou total. Somente você conhece os limites do seu corpo e o peso dos seus esforços diários com o trabalho. Terceiro, use o tempo da refeição para oração e leitura bíblica. Elimine as distrações da rotina e procure um lugar silencioso, longe das pessoas. Quarto, apresente alvos específicos diante de Deus (santidade pessoal, família, igreja, missões, decisões importantes). Você pode se concentrar somente em um alvo, fazendo um jejum para cada alvo. Mas pode também focar em todos esses alvos.

Por fim, faça tudo isso como um privilégio de buscar mais profundamente ao Senhor. Que o Espírito Santo acenda em nossos corações uma fome santa e sobrenatural por Deus, a ponto de dizermos como o salmista: 


A quem tenho eu no céu senão a Ti? E na terra nada mais desejo além de estar junto a Ti” (Salmos 73.25)

Há uma frase nas Escrituras que à primeira vista parece bem estranha. A afirmação se encontra em Eclesiastes 7.3: “Melhor é a tristeza do que o riso, porque com a tristeza do rosto se faz melhor o coração”. Você já notou que vivemos em uma cultura que tenta evitar a tristeza a qualquer custo. Procuramos distrações, entretenimento, produtividade, qualquer coisa que nos ajude a não sentir o peso das dores da vida. Por isso, quando a Bíblia afirma que a tristeza pode melhorar o coração, isso soa quase como um discurso depressivo.

Mas quem já viveu o suficiente sabe que existe uma verdade profunda nessas palavras. Há dores que deformam o nosso coração, é verdade. Mas há também dores que aperfeiçoam o nosso coração. Há tristezas que endurecem o nosso íntimo, mas outras podem nos tornar pessoas mais sábias, humildes e quebrantadas. De fato, nem toda tristeza produz crescimento. Na prática da vida, e à luz das Escrituras, podemos perceber pelo menos três tipos de tristeza. Mas apenas uma delas realmente transforma o nosso coração. Que tristeza é essa?

 

1. A Tristeza da Frustração

Esse é provavelmente o tipo de tristeza mais comum. Ela nasce quando a vida não corresponde às nossas expectativas. Por exemplo, esperávamos que o casamento fosse mais fácil. Esperávamos reconhecimento do nosso chefe no trabalho. Esperávamos que o Senhor respondesse certas orações com mais rapidez. Enfim, quando essas expectativas não se cumprem, surge então uma tristeza que muitas vezes se mistura com irritação e ressentimento.

Esse tipo de tristeza geralmente nos empurra para fora de nós mesmos. A mente começa a procurar culpados por todos os lados: as circunstâncias, as pessoas, o passado, a injustiça da vida. Dessa forma, o nosso coração se fecha e passa a repetir silenciosamente: “Se tudo fosse diferente, agora eu estaria bem”. O problema é que esse tipo de tristeza raramente produz transformação interior. A tendência é alimentar um espírito de queixa. Ao invés de examinar o nosso próprio coração, passamos a examinar os erros dos outros.

A mesma sabedoria de Eclesiastes nos adverte sobre essa postura quando diz: “Nunca digas: Por que foram os dias passados melhores do que estes? Pois não é sábio perguntar assim” (Ec 7.10). A tristeza da frustração coloca os olhos constantemente naquilo que falta. Quando fixamos o coração apenas no que não aconteceu, perdemos a capacidade de aprender com aquilo que está acontecendo.

 

2. A Tristeza do Ferimento

Esse tipo de tristeza é um pouco mais profunda. Essa tristeza nasce a partir de experiências reais de dor. É quando alguém fere a nossa confiança.
É quando uma relação se desgasta ao longo do tempo por pequenas atitudes acumuladas. Pode ser também uma palavra dita no momento errado que abriu uma ferida que agora está difícil de curar. Em todos esses casos, a tristeza não é simplesmente algo emocional, pois ela toca o profundo do coração. Ela expõe a nossa vulnerabilidade e revela o quanto precisamos de cura.

Esse tipo de tristeza é muito perigoso porque pode seguir dois caminhos muito antagônicos. O primeiro caminho é o da amargura. Quando a dor não é processada diante de Deus, ela começa a se transformar em ressentimento. Passamos a reviver a ferida repetidamente e, aos poucos, nos tornamos pessoas duras, desconfiadas e mais distantes emocionalmente. Cria-se, infelizmente, uma barreira relacional com o próximo e também com Deus.

O segundo caminho é o da cura. Quando a nossa dor é levada para o Senhor com absoluta honestidade e dependência, ela pode se tornar um lugar de profundo amadurecimento. Começamos a compreender melhor a nós mesmos, aprendemos a colocar limites em nossa vida, desenvolvemos uma profunda empatia com as pessoas e crescemos em sabedoria relacional.

A Palavra de Deus está repleta de pessoas que passaram por esse tipo de dor. Pense, por exemplo, na história de José, filho de Jacó. José foi traído pelos próprios irmãos (sangue do seu sangue) e ainda vendido como escravo. Aquela experiência poderia ter produzido apenas amargura no coração dele, concorda? No entanto, ao longo dos anos, Deus usou aquela dor para formar em José um coração capaz de perdoar e buscar a reconciliação. Infelizmente, nem toda ferida produz sabedoria. Mas saiba que essa não é a vontade de Deus. Quando colocamos a nossa dor nas mãos do Senhor e nos submetemos ao Seu cuidado, a dor pode se tornar num poderoso instrumento de transformação.

 

3. A Tristeza da Reflexão

Esse é o tipo de tristeza que Eclesiastes 7 descreve quando afirma que a tristeza pode melhorar o coração. Trata-se de uma tristeza que nos obriga a parar. Parar para pensar e refletir sobre a vida. Há períodos em nossa vida que a dor interrompe o ritmo normal das coisas. Algo não está funcionando bem. Uma relação entra em crise. Um projeto perde totalmente o sentido. O coração começa a sentir o peso angustiante de perguntas que antes eram ignoradas. E, de repente, começamos a refletir.

Começamos a perguntar: “O que tudo isso está revelando sobre mim? Por que estou me sentindo desse jeito? O que está acontecendo com a minha vida?”. O nosso interior entra em profunda reflexão. Essa tristeza tem um poder singular, pois ela desmonta as ilusões que sustentavam a nossa vida até então. Coisas que antes pareciam importantes, agora perdem o brilho e a luz. O orgulho, muitas vezes velado, começa a ceder espaço para a humildade se estabelecer. Que bênção! O coração se torna mais sensível à voz de Deus.

É por essa razão que Salomão escreve: “O coração dos sábios está na casa do luto” (Ec 7.4). A casa do luto não é somente um lugar da perda. É também o lugar onde a vida deixa de ser superficial e indiferente. Ali aprendemos a valorizar as pessoas com mais profundidade. Ali percebemos a fragilidade da nossa existência. Ali compreendemos que a vida é um sopro, uma neblina (Tg 4.14). É na casa do luto que temos a oportunidade de alcançar um pouco mais de sabedoria.

 

Quando a tristeza melhora o coração

A grande lição de Eclesiastes 7 não é que a tristeza seja boa em si mesma. Sabemos que a vida não é assim. O sofrimento nunca é apresentado na Bíblia como algo que devemos buscar. Mas existe uma diferença entre atravessar a tristeza e permitir que a tristeza nos transforme. Algumas pessoas passam pela dor e saem dela mais endurecidas e rancorosas. Outras passam pela mesma dor e saem dela mais sensíveis e quebrantadas.

A diferença, muitas vezes, está no tipo de tristeza que cultivamos. A tristeza da frustração alimenta a queixa. A tristeza do ferimento pode gerar amargura ou cura. Mas a tristeza da reflexão abre espaço para a sabedoria de Deus nos amadurecer e nos tornar mais parecidos com Jesus. É nesse tipo de tristeza que o Senhor começa a trabalhar profundamente em nosso coração.

Talvez seja por isso que muitos dos homens e mulheres mais maduros das Escrituras passaram por longos desertos antes de experimentarem os momentos mais importantes de suas vidas. Deus frequentemente usa os vales da vida para formar aquilo que os tempos de facilidade raramente produzem. Quando isso acontece, a tristeza não é o ponto final da história. Ela se torna parte do processo pelo qual Deus melhora o nosso coração.

 

Eu gostaria de iniciar apresentando, brevemente, o autor do livro. Alexander Whyte (1836-1921) foi um pastor e teólogo escocês que marcou a sua geração com sua grande capacidade de ensinar a Bíblia de forma clara. Ele nasceu em uma família simples. Trabalhou como sapateiro e professor, mas sentiu o chamado para o ministério e se formou em Teologia. Serviu por mais de 40 anos como pastor na cidade de Edimburgo, e depois se tornou diretor e professor de Novo Testamento em um importante seminário, onde ajudou a formar novos líderes cristãos.


Alexander Whyte também foi moderador da Assembleia Geral da Igreja Livre da Escócia em 1898. Esse é um cargo de grande honra e responsabilidade. Ser moderador é como ser o presidente da maior reunião da denominação, liderando os debates, orientando as decisões importantes e representando a igreja em assuntos públicos. É uma função que reconhece não só a sabedoria teológica do líder, mas também o seu exemplo de vida cristã. Isso mostra o quanto Whyte era respeitado entre os irmãos, tanto como pastor quanto como homem de Deus.


O livro de Alexander Whyte é uma obra pastoral sobre os quatro temperamentos: sanguíneo, colérico, fleumático e melancólico. Não é um manual técnico, mas uma reflexão que mostra como cada temperamento pode ser uma bênção ou uma armadilha, dependendo se está sob domínio de Deus ou não. Whyte mostra cada temperamento em sua forma “extrema” para nos revelar o que somos sem a graça de Deus. A mensagem central é: os nossos temperamentos foram dados por Deus e devem ser cultivados para a Sua glória. Todos, mesmo os mais difíceis, são campos que precisam ser lavrados com disciplina, graça e fé.


Começando pelo temperamento sanguíneo, o autor mostra que o sanguíneo é o temperamento do entusiasmo, da empolgação e da esperança. Pessoas sanguíneas são calorosas, cheias de vida, espontâneas e geralmente animadas. Elas têm facilidade para se alegrar, fazer amigos, começar novos projetos e motivar os outros. São abertos ao que é novo e otimistas por natureza. Quando bem dirigidos, os sanguíneos são líderes naturais, comunicadores eficazes e cheios de fé e coragem para empreender grandes coisas no reino de Deus. São como o fogo da juventude. Eles aquecem o ambiente ao seu redor.


Por outro lado, o sanguíneo é conhecido pela sua inconstância. O entusiasmo costuma durar pouco. O sanguíneo troca rapidinho de direção e se deixa levar pelas emoções. É impulsivo, fala demais e pensa depois. Ele pode abraçar ideias boas com paixão, mas também pode abandonar tudo na primeira dificuldade. No campo espiritual, pode parecer fervoroso, mas com pouca profundidade. Falta-lhe perseverança, firmeza e raiz. O coração do sanguíneo comanda a sua cabeça. E isso o torna vulnerável às distrações e modismos.


O próximo temperamento abordado é o colérico. O colérico é o mais enérgico dos temperamentos. É o homem de ação, de visão e de conquista. Ele tem uma mente focada, uma vontade firme e coragem de sobra. É decidido, estratégico e trabalhador incansável. Quando convertido e dominado pelo Espírito, o colérico se torna um guerreiro do bem, assim como o apóstolo Paulo, que era consumido pelo zelo da casa de Deus. O colérico enxerga longe. Ele começa o que outros têm medo de começar e permanece firme mesmo quando ninguém mais aguenta. Quando o fogo da ira é controlado, o colérico se torna uma força propulsora para o reino de Deus.


Em contrapartida, o colérico sem domínio próprio é um perigo. Ele é orgulhoso, autoritário, impaciente e, muitas vezes, cruel com os mais fracos. O seu temperamento tende à ira, ao ressentimento e até mesmo à violência, seja física, verbal ou emocional. Ele não precisa de muito para explodir. O colérico pode destruir lares, igrejas e ministérios com seu temperamento inflamado. Além disso, a pior forma da cólera é a religiosa. O autor chama isso de “ódio teológico” que usa Deus como desculpa para atacar os outros. Por isso, o colérico precisa cultivar humildade, mansidão e controle espiritual diário.


O terceiro temperamento comentado é o fleumático. O fleumático é o homem calmo, sereno e constante que raramente se abala. Ele é observador, prudente, equilibrado. É uma pessoa excelente em tempos de crise. Ele não se precipita, pensa antes de agir e transmite segurança às pessoas. Essa “frieza” emocional é, muitas vezes, a sua maior virtude. O fleumático é o tipo de pessoa que pode ser âncora em um ambiente caótico, um bom conselheiro e um excelente administrador. A fleuma o protege das paixões e das decisões tolas. Dessa forma, ele é como uma rocha firme em meio às tempestades emocionais dos outros.


Apesar disso, o fleumático também tem os seus perigos. A frieza do fleumático pode virar apatia e sua calma pode virar preguiça profunda. Ele é muito tentado ao comodismo, à procrastinação e à passividade. Ao invés de prudente, o fleumático pode se tornar indiferente. Ele sabe o que tem que fazer, mas empurra com a barriga. No ministério, por exemplo, o fleumático pode se tornar um pastor relaxado. No lar, ele pode se tornar um pai ausente. E na vida cristã, ele pode se tornar um servo “morno”. A sua maior luta é contra o ócio. Portanto, o desafio do fleumático é sair da zona de conforto e fazer o que precisa ser feito, mesmo sem nenhuma vontade.


Por fim, o último temperamento é o melancólico. O melancólico é profundo, sensível e reflexivo. Ele tende à introspecção, ao pensamento sério e à busca por sentido. É o temperamento dos pensadores, dos poetas e dos teólogos profundos. As pessoas melancólicas sentem as coisas com intensidade e vivem com profundidade. Elas são idealistas, éticas e leais. Quando santificados, os melancólicos se tornam intercessores poderosos, conselheiros empáticos e verdadeiros homens e mulheres de Deus. O melancólico carrega o peso da alma do mundo e transforma a dor em oração.


Entretanto, visto que todo temperamento tem o seu lado negativo, o melancólico também tem. O melancólico pode mergulhar profundamente na tristeza, no pessimismo e no isolamento. A sua visão crítica o faz enxergar mais os problemas do que as soluções. Além disso, o melancólico tende mais à culpa exagerada, à baixa autoestima e às crises existenciais. Ele é tentado à inércia por causa do desânimo. Quando mal conduzido, o melancólico pode viver em constante reclamação, tristeza e autopiedade. De fato, a maior batalha do melancólico é interna. Por isso, ele precisa aprender a se alegrar no Senhor e manter a mente fixada na esperança.


Alexander Whyte nos lembra que não existe temperamento ruim. Todos os temperamentos são dons de Deus, mas, mesmo assim, todos precisam ser redimidos. O segredo está em conhecer a si mesmo, identificar as próprias tendências e lutar espiritualmente para glorificar a Deus com o que somos. Nas palavras do autor, Deus nos colocou numa “hospedaria”. Os temperamentos são “a pele da alma, a hospedaria em que nossa alma habita no presente”. Portanto, cabe a nós cultivá-la como terreno fértil. Com a ajuda do Espírito Santo, podemos transformar a fraqueza em força, as paixões em frutos e os temperamentos em instrumentos úteis para o reino de Cristo.

 

Vou compartilhar com vocês uma história engraçada e perigosa que aconteceu comigo há alguns poucos anos. Até hoje essa história me faz rir quando penso nela, mas no final das contas, até rendeu uma liçãozinha valiosa.

Tudo aconteceu num posto de gasolina. Era uma bela manhã de domingo, próximo ao horário do almoço. Eu tinha acabado de sair do culto e decidi que era hora de abastecer o carro. Cheguei ao posto de gasolina e, para minha surpresa, me deparei com uma fila interminável de carros esperando para encher o tanque. Pensei comigo mesmo: "Poxa vida, isso vai levar uma eternidade!".

Mas aí percebi que todos os carros estavam muito próximos da calçada, quase encostando nela, e pensei: "Ué, será que eles estão estacionados?". Pois bem, sem muita reflexão, passei pelo lado dos carros, furei a fila como se fosse um ninja automobilístico e parei diretamente na bomba de combustível.

Mas, como nem tudo são flores, aí veio o problema. Assim que desliguei o carro, comecei a ouvir um cara me xingando: "Folgado!", "Sem vergonha!"... Eita, o bicho pegou! Levei alguns segundos para perceber que ele estava se referindo a mim. Fiquei meio sem graça, mas decidi investigar a situação.

Então, desci do carro, caminhei em direção ao sujeito exaltado e perguntei com a maior naturalidade: “Você está falando comigo?". O cara continuou resmungando, parecendo pronto para explodir. Daí eu expliquei a minha confusão, que tinha achado que os carros estavam estacionados e não percebi que era uma fila. Pedi desculpas sinceras a ele.

Em seguida, eu disse que ele não deveria sair por aí xingando desconhecidos e, numa tentativa de colocar panos quentes, eu soltei uma frase: "Afinal, você não sabe o que eu tenho aqui". O cara ficou pálido, amarelo e branco ao mesmo tempo. Começou a gaguejar e olhar fixamente para o chão, como se esperasse o pior.

Com isso, eu queria dizer que ele não conhece as pessoas e que deveria tomar cuidado com o que diz para os outros. Mas o maluco interpretou de forma completamente diferente! O cara achou que eu estava com uma arma na cintura! Foi um mal entendido daqueles! Ele deve ter pensando que eu era um louco perigoso.

Eu poderia ter esclarecido a situação e ter deixado claro que eu não estava armado, mas, confesso, foi tão engraçado ver a expressão de medo no rosto do cara “nervosinho” que decidi deixá-lo com suas suposições. Então, voltei calmamente para o carro e fui embora do posto. O sujeito continuava lá, sem nem mesmo erguer os olhos para me encarar. Eu devo ter parecido um verdadeiro vilão de filme. Confesso que dei uma risadinha abafada por dentro enquanto me afastava, imaginando a cara de confusão e o alívio misturado com constrangimento do pobre coitado.

E sabe de uma coisa? Essa história toda me fez pensar numa lição bem simples, mas importante. Às vezes, a gente se depara com situações confusas e acaba agindo de forma impulsiva, sem pensar nas consequências. É nessas horas que podemos criar problemas e mal entendidos.

Antes de agir, respire fundo e pense um pouquinho. Não se deixe levar pelo calor do momento. A ira é traiçoeira. É sempre melhor dar um passo atrás, avaliar a situação com clareza e, se for o caso, pedir desculpas e corrigir os próprios erros.

Ah, e claro, nunca se esqueça de que as aparências podem enganar. Uma frase mal interpretada pode criar histórias imaginárias na cabeça das pessoas. Então, seja cuidadoso com o que você diz e como você se expressa. Às vezes, uma simples palavra pode gerar um mal-entendido gigantesco. Enfim, essa foi a história engraçada que passei no posto de gasolina. Às vezes, as confusões mais bobas podem nos ensinar coisas valiosas.

 


Fabrício A. de Marque


Muitos cristãos já leram a Bíblia inteira mais de uma vez. Outros, ainda carregam esse “sonho” no coração. Eles adotam o “plano de leitura anual” para o novo ano, mas, muitas vezes, fracassam no meio do caminho e acabam abandonando a leitura, transferindo a meta para o ano seguinte. Apesar do fracasso, eles compreendem a importância da leitura diária das Escrituras. Eles têm razão. Ler diariamente a Palavra de Deus deveria ser uma prática normal do povo de Deus.

Agora, se você conseguir ler a Bíblia inteira uma vez, isso quer dizer que você cumpriu com o seu dever e, portanto, não deve lê-la de capa a capa novamente? Certa vez uma pessoa disse algo mais ou menos nesse sentido para mim: “Se você já leu a Bíblia inteira, por que vai ler de novo?” Não podemos ler a Bíblia como se a sua leitura completa fosse a linha de chegada da vida cristã.

Devemos ler a Bíblia hoje, amanhã e sempre por inúmeras razões. Destaco apenas três para refletirmos. Em primeiro lugar, somos inclinados ao esquecimento das verdades eternas. Quantos versículos você é capaz de recitar de memória? Posso afirmar que 90% dos versículos que memorizei foram fixados em minha mente através da leitura constante das Escrituras.

O salmista, por exemplo, não se esqueceu de Deus, porque ele havia guardado os mandamentos do Senhor no coração: “Lembrei-me do teu nome, ó Senhor, de noite, e observei a tua lei. Isto fiz eu, porque guardei os teus mandamentos” (Salmos 119.55-56). Não é sem razão que Deus ordena que meditemos frequentemente em Sua Lei, seja em público ou em privado (cf. Js 1.8; Ed 7.10; Sl 1.2; At 17.11; Rm 15.4).

Em segundo lugar, não existe santificação sem o conhecimento das Escrituras. É muito equivocado pensar que o crescimento espiritual pode ocorrer sem a leitura, meditação e obediência às Escrituras. O corpo físico não recebe os nutrientes necessários se apenas olharmos e cheirarmos o alimento. Precisamos consumi-los.

Semelhantemente, ninguém cresce em santificação por ter uma Bíblia em casa ou por carregá-la debaixo do braço. Precisamos ler a Bíblia e aplicá-la em nossa vida. A Bíblia aberta e lida é a boca de Deus aberta trazendo conselhos, orientações e repreensões para nós. Embora o conhecimento bíblico sem a obediência seja algo terrível, não podemos ignorar o fato de que a obediência sem o conhecimento da Bíblia é algo impossível de existir.

Por fim, em terceiro lugar, Deus quer ser amado com o nosso pensamento: Jesus deixou isso claro: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento” (Mateus 22.37). Não temos a liberdade de pensar sobre Deus por nós mesmos, ou seja, não podemos pensar o que achamos ser o correto (“Deus deveria ser assim”, “Esse preceito aqui não faz muito sentido”, etc.).

Deus revelou o que deve ocupar o nosso pensamento. Ele determinou o que devemos pensar e, quando pensamos de acordo com a Sua vontade revelada, estamos O amando. Sendo assim, quando você terminar a leitura da Bíblia, recomece. Leia em uma versão, depois em outra e mais outra. Você não ficará de “saco cheio”, a menos que leia com a motivação errada. Precisamos entender que a Bíblia não é um livro como qualquer outro. A Bíblia é diferente e fascinante!

 

Fabrício A. de Marque

 

Hoje pela manhã, bem cedinho, eu lia as Escrituras, como faço diariamente no mesmo horário. O dia estava bem agradável: sábado nublado, silêncio ao redor, temperatura agradável e café quentinho ao lado. Estava lendo o livro de Números, o quarto livro da Bíblia, escrito por Moisés. Um dos capítulos que li nessa manhã foi o famoso episódio que ocorreu em Baal-Peor (cf. Números 25). 

Você se lembra do que aconteceu? Vou resumir a história: os homens de Israel se envolveram sexualmente com as mulheres moabitas, o que era algo abominável ao Senhor. Como resultado desse envolvimento, os homens de Israel, à convite dessas mulheres, participaram das festas idólatras e adoraram os deuses de Moabe. Eles prestaram culto ao deus Baal. Isso aconteceu no lugar chamado Peor. Daí a expressão Baal-Peor.

Irado com a atitude dos homens de Israel, Deus enviou uma severa praga sobre a comunidade, resultando na morte de 24 mil pessoas. A praga cessou somente depois que Fineias (neto de Arão) cravou uma lança no estômago de um israelita e de uma midianita, pois esse israelita havia levado uma mulher midianita para dentro de sua tenda. A atitude de Fineias expiou o pecado da comunidade e demonstrou, ao mesmo tempo, zelo pela santidade de Deus.

Enquanto lia essa narrativa, um detalhe aparentemente irrelevante me chamou a atenção. O texto diz que 24 mil pessoas morreram como resultado da praga. No entanto, o apóstolo Paulo, ao fazer menção de uma história do AT, disse que 23 mil pessoas morreram. Veja: “E não devemos praticar a imoralidade sexual, como alguns deles praticaram, e morreram 23 mil pessoas num só dia.” (1 Coríntios 10.8). Diante disso, fica a pergunta: morreram 24 ou 23 mil pessoas no episódio de Baal-Peor?

Quem registrou a quantidade de mortos corretamente: Moisés ou Paulo? Se um acertou, então quer dizer que o outro errou? Se um deles errou, então a Bíblia possui um registro equivocado e contraditório? Se sim, como a Bíblia pode ser a Palavra de Deus? Eu quero estimular a sua reflexão, porque alguns céticos tentam refutar a Bíblia usando esse tipo de “pegadinha”. Eles pegam detalhes do texto e montam um cenário de aparente contradição nas Escrituras.

Vamos resolver esse problema? É simples. Quantas pessoas morreram no episódio de Baal-Peor: 24 ou 23 mil? Essa pergunta pressupõe que Paulo estava se referindo ao mesmo episódio de Números 25. Isso não é verdade. Paulo estava se referindo ao episódio do bezerro de ouro de Êxodo 32. Deus puniu o povo de Israel por causa da idolatria. Você pode abrir a sua Bíblia e comparar 1Coríntios 10.7 com Êxodo 32.6. Paulo cita literalmente o texto de Moisés.

Moisés não apresenta o número de mortos no episódio do bezerro de ouro, mas Paulo traz esse dado como informação extra pra nós. Sendo assim, em Baal-Peor 24 mil pessoas morreram, e na ocasião do bezerro de ouro 23 mil pessoas morreram. Paulo cita o segundo acontecimento, e não o primeiro. Simples, não acha? Infelizmente, porém, às vezes os céticos conseguem silenciar alguns cristãos com esse tipo de “armadilha”. Não permita que isso aconteça!

Quando você estiver lendo a Bíblia e encontrar algo aparentemente contraditório, anote, pesquise e procure a solução para o problema. Não é errado ter dúvidas. Errado é ficar indiferente à dúvida, pois isso pode abrir a porta para a incredulidade. Lembre-se de que a Palavra de Deus é perfeita em cada afirmação. Não há contradição entre os escritores bíblicos. Afinal, eles foram inspirados por Deus e Deus não é contraditório.

 

Fabrício A. de Marque