pub-9363386660177184 Pensando as Escrituras

 

Nenhum texto escatológico é tão debatido quanto Apocalipse 20. É dele que veio o termo técnico “Milênio”. É também sobre a interpretação dessa passagem que surgiram as principais divergências entre pré-milenistas, amilenistas e pós-milenistas. Algumas perguntas brotam em nossa mente a partir da leitura desse capítulo, como, por exemplo: “Os mil anos são literais ou simbólicos?”, “Esse reinado já começou ou ainda virá?”, “Quem está reinando e onde?”. Assim, esse artigo pretende caminhar com cuidado por esse texto, buscando responder a essas perguntas à luz do contexto do próprio livro do Apocalipse e da analogia da Escritura.


O gênero literário de Apocalipse

 

Antes de interpretar qualquer parte de Apocalipse 20, precisamos lembrar que o livro de Apocalipse pertence ao gênero literário apocalíptico, o que significa que se trata de uma obra repleta de símbolos, números e visões que raramente devem ser lidos de forma estritamente literal. O próprio livro se autodenomina “revelação” dada “por sinais” (cf. Ap 1.1. No grego, esēmanen [εσημανεν] carrega a ideia de comunicação simbólica). Isso não significa que o Apocalipse não fale de realidades concretas, mas que a linguagem usada para descrevê-las é, com frequência, figurada.

Basta observar o restante do livro para perceber isso: um cordeiro com sete chifres e sete olhos (Ap 5.6), uma mulher vestida do sol com a lua debaixo dos pés (Ap 12.1), uma besta com dez chifres e sete cabeças (Ap 13.1), etc. Ninguém interpreta esses elementos de forma literal. Por que, então, insistir em uma leitura estritamente literal apenas quando o texto menciona “mil anos” (Ap 20.2-7)? A coerência interpretativa exige que também esse número seja lido dentro do mesmo padrão simbólico que caracteriza todo o livro.


O contexto imediato: a visão da vitória sobre Satanás


Apocalipse 20 começa com a seguinte cena: “Vi descer do céu um anjo, que tinha a chave do abismo, e uma grande cadeia na sua mão. Ele prendeu o dragão, a antiga serpente, que é o Diabo e Satanás, e o amarrou por mil anos” (Ap 20.1-2). O propósito dessa prisão é explicado logo em seguida: “Para que não mais engane as nações, até que os mil anos se acabem” (Ap 20.3).

Note que o texto não fala de Satanás sendo totalmente destruído, mas de ter sua capacidade de “enganar as nações” restringida durante esse período. Essa limitação encontra eco em outra passagem do Novo Testamento, quando Jesus, respondendo aos que O acusavam de expulsar demônios pelo poder do próprio Satanás, explica: “Como pode alguém entrar na casa do valente, e roubar-lhe os bens, se primeiro não amarrar o valente?” (Mc 3.27). O próprio ministério de Jesus, especialmente os exorcismos, já demonstrava esse amarrar de Satanás, restringindo o seu poder de dominar as nações através da idolatria e da escravidão espiritual.


Quando começa o Milênio?


Se a prisão de Satanás está relacionada à obra de Cristo, a pergunta que surge é: “Quando ela ocorre?” A resposta mais coerente aponta para a Primeira Vinda de Cristo, especificamente para a Sua morte, ressurreição e ascensão. O próprio Jesus disse, ao ver os setenta discípulos retornando com relatos de vitória sobre os demônios: “Eu via Satanás, como raio, cair do céu” (Lc 10.18). E momentos antes da crucificação, Jesus afirmou: “Agora é o juízo deste mundo; agora será expulso o príncipe deste mundo” (Jo 12.31).

Esses textos indicam que a derrota decisiva de Satanás não é um evento futuro, mas algo já realizado através da obra redentora de Cristo na cruz e confirmado em Sua ressurreição. O Milênio de Apocalipse 20, portanto, descreve um período longo de tempo que se estende desde a Primeira Vinda de Cristo até a Segunda Vinda, durante o qual o poder de Satanás para impedir o avanço do Evangelho entre as nações está restringido.


Quem reina durante o Milênio?


Apocalipse 20.4 menciona as almas que reinaram com Cristo durante mil anos: “Vi tronos; e assentaram-se sobre eles, e foi-lhes dado o poder de julgar; e vi as almas daqueles que foram degolados pelo testemunho de Jesus e pela palavra de Deus, e que não adoraram a besta, nem a sua imagem, e não receberam o sinal em suas testas, nem em suas mãos; e viveram, e reinaram com Cristo durante mil anos”.

Observe que o texto fala de almas, e não de corpos ressuscitados vivendo sobre a terra. Isso sugere que essa cena descreve a condição presente dos crentes que já morreram, especialmente os mártires, reinando com Cristo no estado intermediário, no céu, enquanto aguardam a ressurreição final. Paulo confirma essa mesma ideia ao afirmar que os crentes já foram feitos assentar “nos lugares celestiais em Cristo Jesus” (Ef 2.6).

Isso significa que o reinado descrito em Apocalipse 20 não é exclusivo de uma futura era terrena, mas abrange tanto o reinado espiritual de Cristo exercido na terra através da Igreja, quanto o reinado dos santos já falecidos junto a Cristo no céu, ambos ocorrendo simultaneamente durante esse mesmo período simbólico chamado de “mil anos”.


A primeira e a segunda ressurreição


O texto menciona também uma “primeira ressurreição” (Ap 20.5-6), afirmando que “bem-aventurado e santo é aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre estes não tem poder a segunda morte”. Muitos interpretam essa primeira ressurreição como corporal e futura, mas o próprio Evangelho de João já havia preparado o terreno para uma leitura diferente: “Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus e os que a ouvirem viverão” (Jo 5.25).

Essa ressurreição que já está acontecendo é a ressurreição espiritual, a passagem da morte para a vida através da fé em Cristo (Ef 2.1-5). A primeira ressurreição de Apocalipse 20 pode ser entendida como essa mesma realidade espiritual, a regeneração e a entrada na vida eterna concedida a todo aquele que crê, enquanto a segunda ressurreição seria a ressurreição corporal final, no último dia.


O que isso significa para a esperança pós-milenista


Compreender que o Milênio, como um longo período simbólico já em curso desde a primeira vinda de Cristo, marcado pela restrição do poder de Satanás sobre as nações e pelo reinado presente de Cristo tanto na terra quanto no céu, fortalece a nossa convicção de que Cristo não está esperando um momento futuro para começar a reinar. O Senhor está reinando e o “amarrar” de Satanás já permite que o Evangelho avance livremente entre as nações, como o próprio Jesus prometeu ao dizer que a casa do valente já pode ser saqueada (Mc 3.27).

Diante de um texto tão debatido, a atitude mais sábia não é o orgulho intelectual de quem julga ter resolvido todo o mistério, mas sim, a humildade de quem reconhece que já está reinando com Cristo, ainda que de forma parcial e velada, aguardando a plena manifestação dessa vitória.

Além disso, orar e pregar são práticas que resultam dessa esperança. Orar, pedindo que o Senhor continue restringindo o poder do inimigo sobre as nações ainda enganadas pela idolatria e pela incredulidade. E pregar, pois é através da proclamação fiel do Evangelho que a casa do valente continua sendo saqueada, e almas continuam sendo arrancadas do domínio das trevas para o Reino do Filho amado de Deus (Cl 1.13). Que essa verdade gere adoração. Bendito seja Aquele que já amarrou o valente e que continua, hoje, libertando os cativos através do Evangelho pregado com fé.

Se esse texto despertou em você o desejo de estudar um pouco mais, convido você a conhecer meu livro “Vivendo Como um Pós-Milenista”. E não deixe de se inscrever no canal Pensando as Escrituras, no YouTube, onde continuamos, juntos, contemplando a Palavra de Deus e exaltando o nome glorioso do nosso Senhor Jesus Cristo.


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Poucos textos da Bíblia geram tanta confusão e tanto medo entre os cristãos quanto Mateus 24. Lemos sobre guerras, fomes, terremotos, sinais no sol e na lua, tribulação como nunca houve, o abominável da desolação, etc. Quando lido de forma desatenta, muitos enxergam nesse capítulo uma descrição detalhada do fim do mundo, algo ainda por acontecer em nossos dias. Contudo, uma leitura mais cuidadosa do texto, atenta ao seu contexto histórico e às próprias palavras de Jesus, revela que essas profecias já se cumpriram na destruição de Jerusalém e do Templo, ocorrida no ano 70 DC.

Essa visão hermenêutica é conhecida como Preterismo Parcial, que sustenta que boa parte das profecias de Mateus 24 (ou todas elas, dependendo da linha preterista parcial defendida) se refere a eventos já cumpridos no primeiro século, sem negar, contudo, a futura e gloriosa volta de Cristo. Essa leitura do texto, unida à esperança pós-milenista, nos liberta do medo de um colapso iminente e, ao mesmo tempo, nos direciona para a certeza de que Cristo continuará reinando até que todos os Seus inimigos sejam subjugados.

 

O contexto da pergunta dos discípulos

 

Tudo começa com um diálogo aparentemente simples, porém, fundamental para a correta interpretação do capítulo. Jesus havia acabado de sair do Templo quando declarou aos discípulos algo impactante: “Não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada” (Mt 24.2). Diante dessa afirmação, os discípulos perguntaram: “Dize-nos, quando serão essas coisas, e que sinal haverá da tua vinda e do fim do mundo?” (Mt 24.3).

É importante perceber que essa pergunta foi motivada diretamente pela previsão da destruição do Templo. Os discípulos queriam saber quando aquilo aconteceria e qual seria o sinal desse evento específico. Portanto, o discurso de Jesus que se segue deve ser lido como resposta a essa pergunta sobre a destruição do Templo de Jerusalém, e não como uma descrição detalhada e distante do fim absoluto da história.

 

E não passará esta geração”: a chave interpretativa

 

O texto mais decisivo para a leitura preterista parcial está no versículo 34: “Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas essas coisas aconteçam” (Mt 24.34). Jesus não disse “aquela geração”, nem “uma geração futura e distante”. Ele afirmou que a geração à qual Ele estava falando, aquela mesma que O ouvia naquele momento, veria o cumprimento de tudo o que fora descrito anteriormente.

Ora, a geração de um homem, na linguagem bíblica e no uso comum da época, corresponde a cerca de 40 anos. E é exatamente esse o intervalo entre as palavras de Jesus, ditas por volta do ano 30 DC., e a destruição de Jerusalém pelas legiões romanas comandadas por Tito, no ano 70 DC. A história confirma, com precisão impressionante, a exatidão da profecia de Jesus, pois, de fato, o Templo foi completamente destruído, e não restou pedra sobre pedra, exatamente como Ele havia anunciado.

 

Os sinais cumpridos no primeiro século

 

Vários elementos descritos por Jesus em Mateus 24 encontram correspondência direta com os eventos documentados pela história do primeiro século, especialmente pelos registros do historiador judeu Flávio Josefo (37 DC—ca. 100 DC), que foi uma testemunha ocular do cerco de Jerusalém.

Jesus falou de guerras e rumores de guerras (Mt 24.6), e o período que antecedeu o ano 70 foi marcado por intensa instabilidade política no Império Romano e por revoltas judaicas. Ele mencionou fome e terremotos em diversos lugares (Mt 24.7) e, realmente, eventos dessa magnitude foram amplamente registrados por historiadores da época. Jesus também falou da Grande Tribulação “qual nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem tampouco há de haver” (Mt 24.21). Essa declaração do Senhor encontra um eco terrível nos relatos de Josefo sobre o cerco de Jerusalém, quando a fome implacável levou a cidade a cenas de horror indescritível.

O “abominável da desolação, predito pelo profeta Daniel” (Mt 24.15) é compreendido, por muitos estudiosos preteristas, como referência à profanação do Templo pelas tropas romanas ou pelos próprios zelotes judeus que ocuparam o santuário durante o cerco. Jesus instruiu dizendo que, ao verem esse sinal, os que estivessem na Judeia deveriam fugir para os montes (Mt 24.16). Há registros históricos de que a comunidade cristã de Jerusalém, lembrando-se dessas palavras, de fato fugiu para a cidade de Pella antes do início do cerco final, sendo, dessa forma, poupada da cruel destruição.

 

E os sinais no sol, na lua e nas estrelas?

 

Um dos pontos que mais geram dúvidas está na passagem que descreve o sol escurecendo, a lua não dando a sua claridade, e as estrelas caindo do céu (Mt 24.29). À primeira vista, esses versículos parecem indicar um evento cósmico literal, associado ao fim absoluto do Universo. É assim que muitos entendem. Contudo, essa mesma linguagem é utilizada no Antigo Testamento como figura de linguagem para descrever o julgamento do Senhor sobre nações e cidades, sem que isso implique, necessariamente, o fim literal do cosmos.

O profeta Isaías, ao anunciar o julgamento sobre a Babilônia, usou uma expressão semelhante: “As estrelas dos céus, e as suas constelações, não deixarão brilhar a sua luz; o sol se escurecerá ao nascer, e a lua não resplandecerá com a sua luz” (Is 13.10). Ninguém interpreta essa passagem como uma descrição literal do fim do Universo físico, mas sim, como linguagem apocalíptica para anunciar a queda de um poder político e religioso. Da mesma forma, Jesus usa essa linguagem simbólica, comum aos profetas do Antigo Testamento, para anunciar o fim do sistema religioso judaico centrado no templo de Jerusalém, que até então representava, aos olhos de Israel, a própria estrutura do mundo.

 

O que continua futuro? A Segunda Vinda de Cristo

 

É importante deixar claro que a leitura preterista parcial não nega a Segunda Vinda de Cristo, nem transforma toda a escatologia bíblica em eventos já cumpridos no passado, como faz a heresia hiperpreterista. No livro de Atos, os anjos declaram aos discípulos, logo após a ascensão do Senhor: “Este Jesus, que dentre vós foi recebido em cima no céu, há de vir assim como para o céu o vistes ir” (At 1.11). Aqui há uma promessa clara acerca do Retorno físico e visível.

Paulo, em sua primeira carta aos tessalonicenses, descreve com detalhes esse acontecimento: “Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor” (1Ts 4.16,17). Esse texto não trata de julgamento sobre uma cidade específica, mas da ressurreição geral dos mortos e do encontro definitivo da Igreja com Cristo.

Portanto, a certeza da volta gloriosa de Cristo não depende de uma leitura futurista de Mateus 24, mas está ancorada em outros textos do Novo Testamento. Isso permite ao cristão preterista parcial sustentar, com igual convicção, tanto o cumprimento integral das palavras de Jesus sobre a destruição de Jerusalém quanto a esperança viva e inabalável do Retorno pessoal, visível e glorioso do Senhor Jesus Cristo, quando toda a Criação será finalmente restaurada e “Deus será tudo em todos” (1Co 15.28).

 

Por que essa leitura sustenta a esperança pós-milenista?

 

Compreender corretamente Mateus 24 traz uma liberdade espiritual muito grande. Ao entender que a Grande Tribulação já ocorreu no primeiro século, deixamos de projetar sobre o futuro um cenário inevitável de colapso e perseguição generalizada, como se isso fosse um sinal necessário e iminente do fim do mundo. O cumprimento da Grande Tribulação abre espaço para a esperança pós-milenista, pois, depois daquele evento marcante (a destruição do antigo sistema judaico), a história passa a ser vista como um longo período de avanço do Reino de Deus sobre as nações.

A destruição do Templo marcou justamente a transição definitiva entre a Antiga Aliança e a plena era do Evangelho, livre das amarras do sistema levítico. Com o véu do Templo já rasgado (Mt 27.51) e agora com o próprio Templo destruído, nada mais impede que o Evangelho avance livremente sobre toda a Terra, cumprindo, assim, a Grande Comissão e discipulando as nações, exatamente como Cristo ordenou.

 

Vivendo com discernimento e esperança

 

Mateus 24 não deveria ser uma fonte de ansiedade para o nosso coração, nem de especulações sensacionalistas sobre datas e sinais do fim do mundo. Uma leitura cuidadosa e fiel revela um cumprimento preciso e impressionante das palavras do Senhor na destruição de Jerusalém no ano 70 DC, confirmando a absoluta confiabilidade da profecia bíblica.

Essa compreensão liberta o nosso coração do medo constante e nos direciona para uma vida de oração fervorosa e pregação fiel do Evangelho, na certeza de que Cristo reina soberanamente sobre a história e que o Seu Reino continuará avançando até a plena manifestação da Sua glória sobre todas as nações. Que essa verdade fortaleça a sua fé. Que você seja motivado a interceder com mais intensidade e a anunciar, com coragem, as boas-novas de Jesus Cristo àqueles que ainda não O conhecem.

Se você gostou desse artigo e deseja aprofundar a sua compreensão sobre a escatologia bíblica e a interpretação preterista parcial de Mateus 24, recomendo a leitura do livro “Os Últimos Dias Segundo Jesus”, de R. C. Sproul. E não deixe de se inscrever em meu canal Pensando as Escrituras, no YouTube, onde você vai encontrar muitos outros vídeos sobre escatologia pós-milenista e preterista parcial.

 

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Quando o assunto é escatologia, muitos cristãos sentem um misto de curiosidade e insegurança. Afinal, o que a Bíblia realmente ensina sobre o futuro do mundo, o reinado de Cristo e o destino da Igreja na história? Entre as diversas respostas que a tradição cristã oferece a essas perguntas, existe uma visão que, embora antiga, tem sido redescoberta por muitos crentes sedentos por uma esperança mais robusta. Essa visão se chama Pós-Milenismo.

Diferente das outras perspectivas que, lamentavelmente, enxergam um mundo cada vez pior até a volta de Cristo, o pós-milenismo apresenta uma visão de vitória. O Evangelho, pregado fielmente e acompanhado por vidas dedicadas à oração, transformará progressivamente as nações, até que a Terra seja repleta do conhecimento do Senhor “como as águas cobrem o mar” (Hc 2.14; cf. Is 11.9). Esse artigo tem como objetivo apresentar, de forma simples e acessível, o que é o pós-milenismo, quais são seus fundamentos bíblicos e por que essa visão desperta fervor espiritual e confiança na intervenção sobrenatural de Deus na história.

 

O significado do termo “Pós-Milenismo”

A palavra “pós-milenismo” vem da combinação entre o prefixo “pós”, que significa “depois”, e “milênio”, termo derivado de Apocalipse 20, que descreve um período simbólico de mil anos de reinado de Cristo. De acordo com essa visão, a Segunda Vinda de Jesus ocorrerá depois (pós) desse período de expansão e triunfo do Reino de Deus sobre a Terra. Isso não significa, necessariamente, que o período equivale a mil anos literais no calendário, mas sim, a um longo período histórico em que o Evangelho avançará, as nações serão discipuladas e a justiça de Deus se manifestará cada vez mais profundamente nas estruturas humanas. E isso até que Cristo retorne para consumar definitivamente o Seu Reino e entregá-lo ao Pai.

É importante deixar claro que o pós-milenismo não é uma invenção moderna, nem uma ideologia otimista desconectada das Escrituras. Ele está enraizado em textos bíblicos e foi defendido por teólogos e pregadores de grande fervor espiritual ao longo da história, como Jonathan Edwards (1703-1758), que via nos avivamentos de sua época sinais do avanço progressivo do Reino de Deus sobre as nações.

 

O fundamento bíblico da esperança pós-milenista

O coração do pós-milenismo está na convicção de que Cristo já reina agora, e que esse reinado não é passivo, mas ativo e conquistador. O apóstolo Paulo declara que “convém que Ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo de Seus pés” (1 Co 15.25). Note que o texto não fala de um reinado futuro que começará quando Jesus voltar, mas de um reinado presente, que continuará avançando até a sujeição total de todo poder contrário a Deus, incluindo a própria morte.

Essa mesma ideia aparece no Salmo 110, um dos textos messiânicos mais citados no Novo Testamento: “Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os Teus inimigos por escabelo dos Teus pés” (Sl 110.1). O Senhor Jesus está assentado, reinando, e a história caminha na direção da sujeição de todos os Seus inimigos. Não se trata de um evento instantâneo, mas de um processo histórico conduzido pela providência e pelo poder de Deus.

A Grande Comissão reforça essa mesma esperança. Jesus não pediu aos discípulos que apenas anunciassem uma mensagem de sobrevivência espiritual em meio a um mundo caótico. Ele afirmou: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Portanto, ide, fazei discípulos de todas as nações” (Mt 28.18-19). A ordem de discipular as nações pressupõe que essa missão será, de fato, bem-sucedida. Um Rei que possui toda autoridade não enviaria o Seu povo a uma missão fadada ao fracasso.

 

O crescimento do Reino como uma semente

Jesus utilizou parábolas para descrever a natureza do Reino de Deus, e muitas delas apontam para um crescimento gradual, quase imperceptível no início, mas com um resultado grandioso no final. A parábola do grão de mostarda ilustra bem esse princípio, ao afirmar que “o Reino dos céus é como um grão de mostarda que um homem, tomando-o, semeou no seu campo; o qual é, na verdade, a menor de todas as sementes, mas, crescendo, é a maior das hortaliças” (Mt 13.31-32). O Reino de Deus começou bem pequeno, muitas vezes, inclusive, desprezado, porém, ele está crescendo até se tornar algo grandioso, capaz de abrigar todas as nações.

Da mesma forma, a parábola do fermento (Mt 13.33) descreve como o Reino de Deus penetra silenciosamente em toda a massa até que a massa seja completamente transformada. Essas imagens não combinam com uma escatologia pessimista, mas com um processo de expansão progressiva, exatamente aquilo que o pós-milenismo defende. O Evangelho, como um fermento espiritual, vai penetrando as famílias, as culturas, as estruturas sociais e as nações, transformando-as pelo poder do Espírito Santo.

 

A prática concreta do cristão pós-milenista

Diante dessa esperança, é natural que nos perguntemos: “Mas como o cristão que abraça essa visão deve viver na prática?” A resposta é simples e profundamente espiritual. A vida espiritual e prática do pós-milenista se concentra, essencialmente, em dois pilares inegociáveis: (1) a oração fervorosa e (2) a pregação fiel do Evangelho.

O pós-milenista ora porque crê que somente Deus responde e intervém sobrenaturalmente na história, trazendo avivamentos, despertando igrejas adormecidas e mudando os corações endurecidos. E ele prega porque confia que a Palavra de Deus não retorna vazia, mas ela cumpre os desígnios do Senhor (cf. Is 55.11). Não há espaço, nessa visão, para um ativismo político carnal, nem para uma fé passiva que apenas espera o fim do mundo acontecer. Existe, sim, um chamado urgente e alegre para interceder diante do trono de Deus e para anunciar as boas-novas de Jesus Cristo a toda criatura, na certeza de que essas duas práticas (oração e pregação) são os meios pelos quais o Senhor está edificando o Seu Reino sobre a Terra.

 

Uma esperança diferente das demais visões escatológicas

É importante esclarecer que o pós-milenismo não é a única perspectiva escatológica dentro do Cristianismo evangélico. De fato, cristãos sinceros e piedosos discordam entre si sobre esse tema. Enquanto o Pré-Milenismo geralmente enxerga um cenário de crescente apostasia e tribulação antes da volta de Cristo, e o Amilenismo entende o Milênio como algo simbólico já presente entre a Primeira e a Segunda Vinda, sem necessariamente esperar um triunfo visível do Evangelho na história, o pós-milenismo se distingue justamente por sua ênfase na vitória progressiva e histórica do Reino antes do Retorno glorioso de Cristo.

Essas diferenças não devem gerar hostilidade entre os irmãos, mas sim, um diálogo respeitoso, fundamentado nas Escrituras e movido pelo amor fraternal. Ainda assim, é legítimo e saudável que cada cristão busque compreender profundamente aquilo que a Bíblia ensina, formando suas convicções com humildade e temor ao Senhor.

 

Vivendo hoje a esperança do amanhã

Assim, compreender o pós-milenismo é uma oportunidade para viver uma fé cristã corajosa e cheia de expectativa diante das promessas de Deus. Se Cristo já reina, e se esse reinado está avançando até a sujeição de todos os Seus inimigos, então cada crente deve participar dessa obra através da oração perseverante e da pregação fiel do Evangelho, confiando que o Senhor está, sim, intervindo sobrenaturalmente na história e transformando nações inteiras pelo poder do Seu Espírito.

Que essa verdade não fique no campo teórico, mas mova o nosso coração à oração fervorosa pela nossa família, pela nossa igreja e pelas nações do mundo. E também nos impulsione a pregar com mais coragem o nome de Jesus, na certeza de que o Reino de Deus, como o grão de mostarda, continuará crescendo até encher toda a Terra.

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Jesus disse: “Ele [o Pai] lhes fará justiça e depressa. Contudo, quando o Filho do homem vier, encontrará fé na terra?” (Lc 18.8). Com essa afirmação, Jesus desperta de imediato a nossa atenção. Será que a fé vai desaparecer antes de Seu Retorno? Será que essa pergunta é uma profecia sombria sobre o futuro do Cristianismo? Antes de qualquer comentário, quero falar sobre a natureza do debate em torno desse texto. A passagem tem sido o epicentro de uma tensão entre dois campos interpretativos: o pessimismo fatalista, de um lado, e o otimismo contextual, do outro. O cerne do problema é determinar se a pergunta de Jesus é uma profecia de fracasso institucional ou um desafio à nossa fidelidade.

Posto isso, vamos falar do conteúdo do debate. Como você notou, o propósito principal desse texto não é apenas apresentar as posições divergentes, mas criticar a posição que está errada. E por que criticá-la? Porque a interpretação pessimista contém erros exegéticos sérios que não podemos aceitar sem questionamento.

Os teólogos dispensacionalistas H. Wayne House e Thomas D. Ice representam a ala pessimista. Para esses autores, a estrutura da pergunta de Jesus exige uma conclusão negativa sobre o estado futuro da Igreja. Nas palavras deles, trata-se de uma questão de inferência para a qual se espera uma resposta negativa. Assim, em Seu retorno, Jesus não encontraria, de forma literal, fé na Terra.

Infelizmente, o propósito dessa interpretação é invalidar o otimismo cristão, especialmente o pós-milenismo. Se a fé está profeticamente destinada a desaparecer, qualquer esforço de expansão do Reino seria inútil. Todavia, essa visão carrega uma inconsistência lógica que seus próprios proponentes não conseguem resolver. Nem mesmo os sistemas teológicos defendidos por House e Ice admitem que o Cristianismo estará totalmente morto na volta de Cristo, pois isso anularia a própria existência de um remanescente ou de santos tribulacionais. A posição deles se contradiz antes mesmo de chegarmos ao texto grego.

Para uma exegese rigorosa, é necessário confrontar essa premissa pessimista com quatro evidências que, juntas, a desmantelam completamente.

A primeira diz respeito ao foco da pergunta. Jesus não está falando da existência global do Cristianismo como religião. Ele está falando de oração fervorosa e persistência dos eleitos de Deus em tempos de profunda pressão. O uso do artigo definido no grego, tēn pistin, é o fator determinante para a correta interpretação. O artigo definido exerce uma função anafórica, isto é, remete o leitor diretamente ao contexto anterior, a parábola da viúva persistente. Jesus não está falando de fé em sentido soteriológico geral, mas daquela qualidade específica de fé que se recusa a desistir. Aliás, o próprio Lucas deixou o propósito explícito desde o versículo 1 do mesmo capítulo. Ele disse que Jesus ensinou a parábola para que os discípulos “orassem sempre e não desanimassem”. A pergunta do versículo 8 é, portanto, o fechamento lógico desse ensino.

A segunda evidência está na gramática grega. Ao contrário do que afirmam House e Ice, a gramática não sustenta uma resposta negativa obrigatória. Segundo os renomados gramáticos Funk, Blass e Debrunner, a construção de perguntas no grego segue regras claras. A partícula ou é empregada quando se espera uma resposta afirmativa. Já as partículas ou mēti são usadas para sugerir uma resposta negativa. Em Lucas 18.8, nenhuma dessas partículas ocorre. Ao invés disso, encontramos a expressão ara, que, conforme as autoridades citadas, indica um tom de suspense ou impaciência. Portanto, a resposta à pergunta de Jesus é gramaticalmente ambígua, deixada em aberto de propósito para provocar um autoexame no ouvinte. Sinceramente, não sei como House e Ice sustentam a afirmação de que a gramática exige um não, quando as próprias autoridades do grego que deveriam consultar dizem o contrário.

A terceira evidência é o contexto histórico de iminência. Jesus afirma categoricamente que Deus fará justiça “depressa”. Essa linguagem de prontidão, em grego en tachei, aparece em passagens como Apocalipse 1.1, onde João diz que as coisas devem acontecer “em breve”. A promessa de que Deus responderia depressa não se sustenta se o seu cumprimento estivesse a milênios de distância. O contexto precedente, em Lucas 17.22-37, aponta para a destruição de Jerusalém. Jesus estava preparando os discípulos para a Grande Tribulação daquela geração. A “vinda” em questão é a visitação de Deus em juízo contra Israel que culminou no ano 70 DC.

A quarta evidência é de pura lógica. Nenhuma tradição cristã coerente defende a extinção completa da fé antes do retorno de Cristo. Trata-se de uma reductio ad absurdum que os próprios pessimistas não conseguem sustentar dentro de seus próprios sistemas teológicos.

Quase toda interpretação pessimista que se faz desse versículo é feita fora do contexto literário e histórico imediato, lançando mão de uma leitura tendenciosa, para dizer o mínimo. A falha central reside no isolamento do versículo de seu arcabouço literário e histórico, o que os hermeneutas chamam de negligência da vizinhança hermenêutica.

Assim, considero a interpretação pessimista de Lucas 18.8 um equívoco exegético grave e um grande perigo, especialmente para os novos na fé. Nada é mais prejudicial do que transformar um chamado à perseverança em uma profecia de derrota. A convicção que fica é que interpretar Lucas 18.8 como o fim do Cristianismo é ignorar tanto a gramática de Blass e Debrunner quanto o próprio propósito consolador de Cristo. O texto não é um obituário da fé. É um tônico para a perseverança.

 

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Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que a interpretação que vou expor aqui não é nova, pelo menos dentro do universo dos estudos teológicos. Ela pode ser nova, é claro, para aqueles que estão lendo sobre isso pela primeira vez. Apesar disso, saiba que esse entendimento está enraizado no próprio vocabulário grego do Novo Testamento e na lógica interna das Escrituras. E, ao contrário do que pode parecer, não tem nada a ver com sensacionalismo profético.

O ponto de partida é uma inversão de expectativa. Quando a maioria das pessoas ouve a palavra Apocalipse, o instinto automático é montar um roteiro catastrófico na cabeça. As pessoas imaginam bestas saindo do mar, asteroides, oceanos em fúria e um caos cinematográfico de proporções bíblicas. Essa atitude é até compreensível. Todavia, a cena mais icônica do livro, aquela do anjo descendo do céu com uma grande corrente para prender o dragão por mil anos (Ap 20.1-3), não é uma profecia aterrorizante sobre o que acontecerá no futuro. Na verdade, temos aqui o relato simbólico de uma virada jurídica que já aconteceu.

Para entender isso, é preciso voltar ao Evangelho de Mateus capítulo 12. Ali, os fariseus acusam Jesus de expulsar demônios usando o poder de Belzebu. Jesus aponta a falha lógica dessa acusação de imediato. Ele diz que um reino dividido contra si mesmo não pode subsistir. E então, no meio dessa resposta, Ele introduz uma parábola que funciona como a pedra de roseta para decodificar o Apocalipse. Ele pergunta: “Como pode alguém entrar na casa do valente e roubar os seus bens sem primeiro amarrá-lo?” (Mt 12.29). A palavra grega usada ali para “amarrar” é deô. Tempos depois, em Apocalipse 20, João usa a mesma palavra para descrever o anjo que prende o dragão. Você acha que isso é uma coincidência de vocabulário? Claro que não. Isso é uma ponte intencionalmente construída. Jesus, em Mateus 12, estava antecipando em linguagem parabólica o que João descreveria de forma visionária profética. O ponto é que a prisão de Satanás é uma condição prévia para o saque da casa, ou seja, para o resgate da humanidade mantida em cativeiro espiritual.

Posto isso, surge uma objeção bastante comum. Se Satanás já foi amarrado, por que o apóstolo Pedro nos alerta dizendo que o diabo anda como leão rugindo em busca de alguém para devorar (1Pe 5.8)? Por que Paulo gasta capítulos inteiros descrevendo as ciladas do inimigo e falando de armaduras espirituais (Ef 6.10-17)? Aqui está o erro que faz muita gente tropeçar. As pessoas tentam aplicar uma lógica física e espacial a uma realidade que é, acima de tudo, jurídica. Ora, a prisão relatada em Apocalipse 20 nunca teve intenção de ser compreendida como uma paralisação motora absoluta, como se o inimigo virasse uma estátua de sal. O que foi destruído foi a base legal de sua autoridade.

O texto de Colossenses 2.14-15 explica a mecânica disso com precisão cirúrgica. Paulo fala sobre o cancelamento do “escrito de dívida” que existia contra nós, o documento que foi encravado na cruz. Ao pagar essa dívida, Cristo despojou os principados e as potestades, expondo-os publicamente ao desprezo. Sem a nota promissória da culpa humana nas mãos, o acusador foi destituído no tribunal cósmico. Isso significa que a influência satânica continua operando. O pai da mentira continua mentindo. O leão continua rugindo. No entanto, ele faz tudo isso sem a jurisdição oficial. A assinatura dele não vale mais nada.

Mas há ainda uma dimensão geopolítica nessa prisão que passa completamente despercebida numa leitura individualista das Escrituras. Apocalipse 20.3 é bem específico ao dizer que o dragão foi preso para não mais enganar as nações. A corrente não o impede de lançar tentações cotidianas sobre nós. A prisão ocorreu para quebrar um monopólio que durava milênios. No Antigo Testamento, o modelo de atuação de Deus era geograficamente concentrado em Israel. Por exemplo, o Salmo 147.20 diz: “Não fez assim a nenhuma outra nação”. O restante do globo estava entregue às entidades espirituais do mal, aos deuses nacionais do mundo antigo, que a cosmovisão bíblica trata como principados que mantinham civilizações inteiras na cegueira espiritual. É o que Lucas 4 deixa claro quando o diabo oferece a Jesus todos os reinos do mundo, alegando que a autoridade sobre eles “me foi entregue”. E Jesus não contesta a premissa. A omissão de um contra-argumento legal ali é ensurdecedora.

No entanto, a cruz de Cristo mudou tudo isso. Quando Jesus, após a ressurreição, declara que “toda autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28.18), Ele está descartando juridicamente o argumento que o diabo havia usado no deserto. O monopólio sobre as nações acabou. E é por isso que a ordem seguinte, “vão e façam discípulos de todas as nações” (Mt 28.19), não é uma campanha de conscientização. É uma operação de retomada de território. Os apóstolos não estavam abrindo mais um templo num mercado religioso saturado. Eles estavam entregando as notificações de despejo aos antigos ocupantes. Paulo resume isso ao detalhar sua tarefa missionária: “Para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres à luz, e do poder de Satanás a Deus [...]” (Atos 26.18).

Finalmente, considero que a maior evidência histórica de que essa prisão de Satanás já aconteceu somos nós mesmos. Qualquer pessoa que hoje, vivendo fora de Israel, tendo origem gentílica, compreende e debate livremente sobre o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, é a prova viva de que aquela muralha espiritual geopolítica foi demolida. O mundo ocidental parou de oferecer sacrifícios humanos para apaziguar deuses de rios e tempestades. Isso é o resultado de uma sentença proferida há dois mil anos num tribunal que a maioria das pessoas sequer sabe que existe.

Assim, considero que ler Apocalipse 20 como sendo uma profecia futurista é perder completamente o ponto central da história. O texto nos chama a reconhecer que o martelo do Juiz já bateu, que as algemas já foram colocadas no inimigo e que a missão da Igreja consiste em anunciar, nas filiais mais remotas do planeta, que o antigo contrato foi rasgado em praça pública.

 

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Com esse título um pouco técnico, você pode estar se perguntando o que é esse tal de “mandato cultural” e o que significa “domínio cristão”. Antes de responder, preciso dizer que essas são, na verdade, ideias muito antigas na história da teologia. Tão antigas quanto as primeiras páginas da Bíblia. E, ao contrário do que pode parecer, essas expressões não têm nada a ver com autoritarismo ou com arrogância religiosa.

O ponto de partida é a nossa própria identidade. A Bíblia diz que Deus criou o ser humano à Sua imagem e semelhança (Gn 1.26-27). Isso não é um detalhe pequeno e insignificante. Ser imagem de Deus não é uma medalha que recebemos por termos um bom comportamento, mas é a nossa própria natureza. E parte dessa imagem é justamente refletir, no nível humano, a autoridade e o poder criativo de Deus. No mesmo versículo, o Senhor declara que o homem deve dominar sobre toda a Criação: peixes, aves, gado e toda a terra. Isso é o mandato cultural.

Muita gente acredita que, depois que Adão pecou, esse mandato teria sido cancelado. Mas as Escrituras mostram o contrário. Mesmo após a queda, o homem continua sendo tratado como imagem de Deus (Gn 9.6). O Salmo 8 reafirma isso, dizendo que Deus coroou o ser humano de glória e lhe deu domínio sobre as obras de Suas mãos. Percebe? O chamado permanece. Deus não desistiu do mundo físico nem da história humana. Tanto que, na plenitude dos tempos, Deus enviou o Seu próprio Filho em um corpo humano real para redimir a humanidade inteira e o próprio processo histórico.

É nesse ponto que a redenção entra em cena de forma poderosa. Logo depois da queda, em Gênesis 3.15, Deus já providencia a solução para o problema. Ele afirma que a descendência da mulher esmagaria a cabeça da serpente. Esse esmagamento de Satanás acontece dentro da história, produzindo consequências reais e concretas. Essa mesma promessa é ampliada na aliança com Abraão quando Deus garante que “todas as famílias da terra serão abençoadas” por meio dEle. O apóstolo Paulo explica que isso significa que Abraão — e, por extensão, todos os que pertencem a Cristo — seria o “herdeiro do mundo” (Rm 4.13). Isso quer dizer que o domínio cristão não é imposto à força. O domínio acontece por meio da conversão gradual das nações e pela disseminação do evangelho, transformando a cultura de dentro para fora.

O que tudo isso significa na prática? Significa que o seu trabalho, a sua arte, a sua influência no bairro, na escola ou no escritório não são atividades neutras. Elas são, na verdade, o cumprimento de um chamado que começou no Jardim do Éden. O mandato cultural nos ensina que o mundo pertence ao Senhor e que Ele quer ver a Sua glória enchendo toda a terra. Essa é uma visão profundamente otimista. A redenção de Cristo é mais poderosa do que a queda de Adão. E o cristão que entende isso para de ver a sua rotina como algo comum e passa a encará-la como parte de um plano soberano que, no final, triunfará na história.

 

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