pub-9363386660177184 Pensando as Escrituras

Certamente, você conhece essa porção das Escrituras. Embora seja um texto frequentemente lido como parte do grande capítulo sobre a ressurreição dos mortos, ele contém uma das mais poderosas afirmações sobre a natureza do reinado atual de Cristo. Esse precioso texto nos revela o processo pelo qual Deus está, agora mesmo, conduzindo a história rumo a esse desfecho glorioso.

Enquanto muitos cristãos associam o capítulo 15 de 1 Coríntios exclusivamente à doutrina da ressurreição corporal, é justamente dentro desse contexto que Paulo ensina a grande verdade escatológica de que Jesus reina nesse exato momento. Além disso, o reinado do Senhor tem o propósito infalível de sujeitar progressivamente todos os inimigos de Deus, até o último deles, a morte.


A ressurreição como fundamento da esperança cristã


Por que Paulo escreveu esse capítulo? Ele escreveu porque alguns da igreja de Corinto duvidavam da ressurreição dos mortos (1Co 15.12). Toda a argumentação do apóstolo serve para mostrar que a ressurreição de Cristo é o fundamento da fé cristã e a garantia da nossa própria ressurreição futura. É dentro dessa lógica que Paulo introduz uma sequência de eventos escatológicos, revelando a ordem em que Deus está conduzindo a história até a consumação final.

Ele diz: “Mas cada um por sua ordem: Cristo as primícias, depois os que são de Cristo, na sua vinda. Então virá o fim, quando tiver entregado o reino a Deus, o Pai, e quando houver aniquilado todo o império, e toda a potestade e força” (1Co 15.23,24). Note a sequência: primeiro Cristo ressuscita, depois os que são dele ressuscitarão na Sua Vinda, e só então virá o fim. Entre a ressurreição de Cristo e o fim, existe um período intermediário, no qual algo precisa acontecer.


O que acontece no período intermediário


E o que acontece nesse tempo entre a ressurreição de Cristo e o fim de todas as coisas? Paulo responde: “Porque convém que Ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo de Seus pés” (1Co 15.25). Cristo não está ausente do trono, esperando o momento de assumir o governo apenas quando Ele retornar. Desde a Sua ressurreição e ascensão, o Senhor reina. O Seu reinado tem uma finalidade específica, isto é, sujeitar totalmente todos os Seus inimigos.

Essa afirmação de Paulo é, na verdade, uma citação direta do Salmo 110, um dos textos messiânicos mais importantes de todo o Antigo Testamento: “Disse o SENHOR ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés” (Sl 110.1). O próprio Jesus aplicou esse Salmo a Si mesmo (cf. Mt 22.44). E os apóstolos também o citaram repetidamente para demonstrar que a exaltação de Cristo à direita do Pai indica um reinado ativo e conquistador.


A sujeição progressiva de todo inimigo


É muito importante perceber que o texto não fala de um evento instantâneo e único, mas de um processo. A palavra “até” (1Co 15.25) indica continuidade, ou seja, um caminho sendo percorrido, um reinado em pleno exercício, avançando sobre todo poder que se opõe a Deus. Isso inclui, segundo o próprio Paulo, “todo império, e toda a potestade e força” (1Co 15.24), ou seja, todas as estruturas de poder, sejam elas espirituais, políticas ou culturais, que resistem à soberania de Cristo.

E qual é o último desses inimigos a ser vencido? Paulo diz: “Ora, o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte” (1Co 15.26). A morte, consequência do pecado desde o Éden, será o derradeiro poder a ser subjugado, e isso se dará plenamente na ressurreição final, quando todos os que são de Cristo forem revestidos da incorruptibilidade (1Co 15.53-54). Até lá, o reinado de Cristo continuará avançando, sujeitando gradualmente outros poderes, como toda forma de pecado, idolatria e opressão.


A entrega do Reino ao Pai


Paulo conclui essa sequência com uma imagem belíssima: “E, quando todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então também o mesmo Filho se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos” (1Co 15.28). Quando a obra de sujeição estiver completa, quando o último inimigo, a morte, for aniquilado, o Filho entregará o Reino ao Pai. Isso acontecerá para que a glória de Deus seja plena e definitivamente estabelecida, sem qualquer resquício de rebelião ou oposição em toda a Criação.

Esse é o alvo final da história: Deus sendo tudo em todos. E o caminho até esse alvo não é uma decadência progressiva do mundo, mas exatamente o oposto, um avanço contínuo do reinado de Cristo, sujeitando, passo a passo, tudo aquilo que ainda resiste à Sua imbatível soberania.


Por que esse texto sustenta a esperança pós-milenista?


A visão pós-milenista encontra em 1 Coríntios 15.24-28 uma de suas bases mais firmes, justamente porque o texto descreve o reinado de Cristo como algo presente e progressivamente vitorioso, e não como algo reservado para um futuro reinado milenar literal, após a Segunda Vinda. Se o reinado do Senhor Jesus avança, hoje, sujeitando inimigo após inimigo, então a história não caminha para um colapso generalizado antes do Seu glorioso Retorno, mas sim, para uma vitória cada vez mais evidente do Seu governo sobre as nações, até que, no fim, a morte seja definitivamente aniquilada na ressurreição.

Isso, é claro, não significa o fim da resistência ou do sofrimento ao longo do caminho. A Escritura não promete uma história isenta de dificuldades. Mas significa, sim, que a direção da história é a vitória, e não a derrota, e que cada avanço do Evangelho (em genuínas conversões e transformações), é parte visível desse reinado que já começou e que continuará avançando até a consumação final.


A prática do pós-milenista diante dessa verdade


Diante de uma verdade tão grandiosa quanto essa, alguns podem ser tomados por diversas reações, seja pelo entusiasmo, pela curiosidade teológica, ou até mesmo, por especulações sobre tempos e estratégias humanas. Mas a resposta a essa esperança se resume, na verdade, a apenas duas atitudes simples, porém, inegociáveis: orar e pregar.

Orar, porque é diante do trono de Deus, em intercessão fervorosa, que participamos dessa obra de sujeição dos inimigos, clamando pelo avanço do Reino sobre as famílias, cidades e nações. E pregar, porque é através da proclamação fiel do Evangelho que Cristo continua exercendo o Seu domínio sobre os corações, arrancando-os do poder das trevas e transferindo-os para o seu Reino de luz. Saiba que não há espaço para estratégias humanas de conquista. Existe, sim, um chamado para orar com fé e pregar com coragem, confiando que é o próprio Cristo, assentado à direita do Pai, quem está sujeitando os Seus próprios inimigos.


Adorando o Rei que já reina


Diante de tudo o que Paulo disse em 1 Coríntios 15.24-28, a melhor resposta que podemos dar não é somente entender isso intelectualmente, mas adorar o Senhor com todo o nosso ser. Precisamos contemplar o Cristo que está, nesse exato momento, assentado em glória, reinando soberanamente e conduzindo a história rumo à sujeição total de todo mal. Isso deve encher a nossa alma de sincera reverência e confiança.

Que essa verdade transborde em joelhos dobrados diante do Senhor e em lábios que anunciam o Evangelho de Jesus Cristo. Aquele que já venceu a morte na cruz e ressuscitou ao terceiro dia continua, hoje, reinando até que todo joelho se dobre e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai (Fp 2.10-11).

Se esse estudo abençoou a sua vida, convido você a aprofundar os seus estudos. Para isso, deixarei logo abaixo o link de um livro de escatologia. Além do livro, deixarei também o link do meu canal no YouTube, Pensando as Escrituras, onde você encontrará estudos bíblicos e escatológicos.


Link do livro:

https://amzn.to/4c1Zr17


Link do canal no Youtube:

https://www.youtube.com/@pensandoasescrituras

 

Nenhum texto escatológico é tão debatido quanto Apocalipse 20. É dele que veio o termo técnico “Milênio”. É também sobre a interpretação dessa passagem que surgiram as principais divergências entre pré-milenistas, amilenistas e pós-milenistas. Algumas perguntas brotam em nossa mente a partir da leitura desse capítulo, como, por exemplo: “Os mil anos são literais ou simbólicos?”, “Esse reinado já começou ou ainda virá?”, “Quem está reinando e onde?”. Assim, esse artigo pretende caminhar com cuidado por esse texto, buscando responder a essas perguntas à luz do contexto do próprio livro do Apocalipse e da analogia da Escritura.


O gênero literário de Apocalipse

 

Antes de interpretar qualquer parte de Apocalipse 20, precisamos lembrar que o livro de Apocalipse pertence ao gênero literário apocalíptico, o que significa que se trata de uma obra repleta de símbolos, números e visões que raramente devem ser lidos de forma estritamente literal. O próprio livro se autodenomina “revelação” dada “por sinais” (cf. Ap 1.1. No grego, esēmanen [εσημανεν] carrega a ideia de comunicação simbólica). Isso não significa que o Apocalipse não fale de realidades concretas, mas que a linguagem usada para descrevê-las é, com frequência, figurada.

Basta observar o restante do livro para perceber isso: um cordeiro com sete chifres e sete olhos (Ap 5.6), uma mulher vestida do sol com a lua debaixo dos pés (Ap 12.1), uma besta com dez chifres e sete cabeças (Ap 13.1), etc. Ninguém interpreta esses elementos de forma literal. Por que, então, insistir em uma leitura estritamente literal apenas quando o texto menciona “mil anos” (Ap 20.2-7)? A coerência interpretativa exige que também esse número seja lido dentro do mesmo padrão simbólico que caracteriza todo o livro.


O contexto imediato: a visão da vitória sobre Satanás


Apocalipse 20 começa com a seguinte cena: “Vi descer do céu um anjo, que tinha a chave do abismo, e uma grande cadeia na sua mão. Ele prendeu o dragão, a antiga serpente, que é o Diabo e Satanás, e o amarrou por mil anos” (Ap 20.1-2). O propósito dessa prisão é explicado logo em seguida: “Para que não mais engane as nações, até que os mil anos se acabem” (Ap 20.3).

Note que o texto não fala de Satanás sendo totalmente destruído, mas de ter sua capacidade de “enganar as nações” restringida durante esse período. Essa limitação encontra eco em outra passagem do Novo Testamento, quando Jesus, respondendo aos que O acusavam de expulsar demônios pelo poder do próprio Satanás, explica: “Como pode alguém entrar na casa do valente, e roubar-lhe os bens, se primeiro não amarrar o valente?” (Mc 3.27). O próprio ministério de Jesus, especialmente os exorcismos, já demonstrava esse amarrar de Satanás, restringindo o seu poder de dominar as nações através da idolatria e da escravidão espiritual.


Quando começa o Milênio?


Se a prisão de Satanás está relacionada à obra de Cristo, a pergunta que surge é: “Quando ela ocorre?” A resposta mais coerente aponta para a Primeira Vinda de Cristo, especificamente para a Sua morte, ressurreição e ascensão. O próprio Jesus disse, ao ver os setenta discípulos retornando com relatos de vitória sobre os demônios: “Eu via Satanás, como raio, cair do céu” (Lc 10.18). E momentos antes da crucificação, Jesus afirmou: “Agora é o juízo deste mundo; agora será expulso o príncipe deste mundo” (Jo 12.31).

Esses textos indicam que a derrota decisiva de Satanás não é um evento futuro, mas algo já realizado através da obra redentora de Cristo na cruz e confirmado em Sua ressurreição. O Milênio de Apocalipse 20, portanto, descreve um período longo de tempo que se estende desde a Primeira Vinda de Cristo até a Segunda Vinda, durante o qual o poder de Satanás para impedir o avanço do Evangelho entre as nações está restringido.


Quem reina durante o Milênio?


Apocalipse 20.4 menciona as almas que reinaram com Cristo durante mil anos: “Vi tronos; e assentaram-se sobre eles, e foi-lhes dado o poder de julgar; e vi as almas daqueles que foram degolados pelo testemunho de Jesus e pela palavra de Deus, e que não adoraram a besta, nem a sua imagem, e não receberam o sinal em suas testas, nem em suas mãos; e viveram, e reinaram com Cristo durante mil anos”.

Observe que o texto fala de almas, e não de corpos ressuscitados vivendo sobre a terra. Isso sugere que essa cena descreve a condição presente dos crentes que já morreram, especialmente os mártires, reinando com Cristo no estado intermediário, no céu, enquanto aguardam a ressurreição final. Paulo confirma essa mesma ideia ao afirmar que os crentes já foram feitos assentar “nos lugares celestiais em Cristo Jesus” (Ef 2.6).

Isso significa que o reinado descrito em Apocalipse 20 não é exclusivo de uma futura era terrena, mas abrange tanto o reinado espiritual de Cristo exercido na terra através da Igreja, quanto o reinado dos santos já falecidos junto a Cristo no céu, ambos ocorrendo simultaneamente durante esse mesmo período simbólico chamado de “mil anos”.


A primeira e a segunda ressurreição


O texto menciona também uma “primeira ressurreição” (Ap 20.5-6), afirmando que “bem-aventurado e santo é aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre estes não tem poder a segunda morte”. Muitos interpretam essa primeira ressurreição como corporal e futura, mas o próprio Evangelho de João já havia preparado o terreno para uma leitura diferente: “Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus e os que a ouvirem viverão” (Jo 5.25).

Essa ressurreição que já está acontecendo é a ressurreição espiritual, a passagem da morte para a vida através da fé em Cristo (Ef 2.1-5). A primeira ressurreição de Apocalipse 20 pode ser entendida como essa mesma realidade espiritual, a regeneração e a entrada na vida eterna concedida a todo aquele que crê, enquanto a segunda ressurreição seria a ressurreição corporal final, no último dia.


O que isso significa para a esperança pós-milenista


Compreender que o Milênio, como um longo período simbólico já em curso desde a primeira vinda de Cristo, marcado pela restrição do poder de Satanás sobre as nações e pelo reinado presente de Cristo tanto na terra quanto no céu, fortalece a nossa convicção de que Cristo não está esperando um momento futuro para começar a reinar. O Senhor está reinando e o “amarrar” de Satanás já permite que o Evangelho avance livremente entre as nações, como o próprio Jesus prometeu ao dizer que a casa do valente já pode ser saqueada (Mc 3.27).

Diante de um texto tão debatido, a atitude mais sábia não é o orgulho intelectual de quem julga ter resolvido todo o mistério, mas sim, a humildade de quem reconhece que já está reinando com Cristo, ainda que de forma parcial e velada, aguardando a plena manifestação dessa vitória.

Além disso, orar e pregar são práticas que resultam dessa esperança. Orar, pedindo que o Senhor continue restringindo o poder do inimigo sobre as nações ainda enganadas pela idolatria e pela incredulidade. E pregar, pois é através da proclamação fiel do Evangelho que a casa do valente continua sendo saqueada, e almas continuam sendo arrancadas do domínio das trevas para o Reino do Filho amado de Deus (Cl 1.13). Que essa verdade gere adoração. Bendito seja Aquele que já amarrou o valente e que continua, hoje, libertando os cativos através do Evangelho pregado com fé.

Se esse texto despertou em você o desejo de estudar um pouco mais, convido você a conhecer meu livro “Vivendo Como um Pós-Milenista”. E não deixe de se inscrever no canal Pensando as Escrituras, no YouTube, onde continuamos, juntos, contemplando a Palavra de Deus e exaltando o nome glorioso do nosso Senhor Jesus Cristo.


Link do livro:

https://hotmart.com/pt-br/marketplace/produtos/vivendo-como-um-pos-milenista-transformando-a-escatologia-em-acoes-que-impactam-o-mundo/X100819374T

 

Link do canal no Youtube:

https://www.youtube.com/@pensandoasescrituras

Poucos textos da Bíblia geram tanta confusão e tanto medo entre os cristãos quanto Mateus 24. Lemos sobre guerras, fomes, terremotos, sinais no sol e na lua, tribulação como nunca houve, o abominável da desolação, etc. Quando lido de forma desatenta, muitos enxergam nesse capítulo uma descrição detalhada do fim do mundo, algo ainda por acontecer em nossos dias. Contudo, uma leitura mais cuidadosa do texto, atenta ao seu contexto histórico e às próprias palavras de Jesus, revela que essas profecias já se cumpriram na destruição de Jerusalém e do Templo, ocorrida no ano 70 DC.

Essa visão hermenêutica é conhecida como Preterismo Parcial, que sustenta que boa parte das profecias de Mateus 24 (ou todas elas, dependendo da linha preterista parcial defendida) se refere a eventos já cumpridos no primeiro século, sem negar, contudo, a futura e gloriosa volta de Cristo. Essa leitura do texto, unida à esperança pós-milenista, nos liberta do medo de um colapso iminente e, ao mesmo tempo, nos direciona para a certeza de que Cristo continuará reinando até que todos os Seus inimigos sejam subjugados.

 

O contexto da pergunta dos discípulos

 

Tudo começa com um diálogo aparentemente simples, porém, fundamental para a correta interpretação do capítulo. Jesus havia acabado de sair do Templo quando declarou aos discípulos algo impactante: “Não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada” (Mt 24.2). Diante dessa afirmação, os discípulos perguntaram: “Dize-nos, quando serão essas coisas, e que sinal haverá da tua vinda e do fim do mundo?” (Mt 24.3).

É importante perceber que essa pergunta foi motivada diretamente pela previsão da destruição do Templo. Os discípulos queriam saber quando aquilo aconteceria e qual seria o sinal desse evento específico. Portanto, o discurso de Jesus que se segue deve ser lido como resposta a essa pergunta sobre a destruição do Templo de Jerusalém, e não como uma descrição detalhada e distante do fim absoluto da história.

 

E não passará esta geração”: a chave interpretativa

 

O texto mais decisivo para a leitura preterista parcial está no versículo 34: “Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas essas coisas aconteçam” (Mt 24.34). Jesus não disse “aquela geração”, nem “uma geração futura e distante”. Ele afirmou que a geração à qual Ele estava falando, aquela mesma que O ouvia naquele momento, veria o cumprimento de tudo o que fora descrito anteriormente.

Ora, a geração de um homem, na linguagem bíblica e no uso comum da época, corresponde a cerca de 40 anos. E é exatamente esse o intervalo entre as palavras de Jesus, ditas por volta do ano 30 DC., e a destruição de Jerusalém pelas legiões romanas comandadas por Tito, no ano 70 DC. A história confirma, com precisão impressionante, a exatidão da profecia de Jesus, pois, de fato, o Templo foi completamente destruído, e não restou pedra sobre pedra, exatamente como Ele havia anunciado.

 

Os sinais cumpridos no primeiro século

 

Vários elementos descritos por Jesus em Mateus 24 encontram correspondência direta com os eventos documentados pela história do primeiro século, especialmente pelos registros do historiador judeu Flávio Josefo (37 DC—ca. 100 DC), que foi uma testemunha ocular do cerco de Jerusalém.

Jesus falou de guerras e rumores de guerras (Mt 24.6), e o período que antecedeu o ano 70 foi marcado por intensa instabilidade política no Império Romano e por revoltas judaicas. Ele mencionou fome e terremotos em diversos lugares (Mt 24.7) e, realmente, eventos dessa magnitude foram amplamente registrados por historiadores da época. Jesus também falou da Grande Tribulação “qual nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem tampouco há de haver” (Mt 24.21). Essa declaração do Senhor encontra um eco terrível nos relatos de Josefo sobre o cerco de Jerusalém, quando a fome implacável levou a cidade a cenas de horror indescritível.

O “abominável da desolação, predito pelo profeta Daniel” (Mt 24.15) é compreendido, por muitos estudiosos preteristas, como referência à profanação do Templo pelas tropas romanas ou pelos próprios zelotes judeus que ocuparam o santuário durante o cerco. Jesus instruiu dizendo que, ao verem esse sinal, os que estivessem na Judeia deveriam fugir para os montes (Mt 24.16). Há registros históricos de que a comunidade cristã de Jerusalém, lembrando-se dessas palavras, de fato fugiu para a cidade de Pella antes do início do cerco final, sendo, dessa forma, poupada da cruel destruição.

 

E os sinais no sol, na lua e nas estrelas?

 

Um dos pontos que mais geram dúvidas está na passagem que descreve o sol escurecendo, a lua não dando a sua claridade, e as estrelas caindo do céu (Mt 24.29). À primeira vista, esses versículos parecem indicar um evento cósmico literal, associado ao fim absoluto do Universo. É assim que muitos entendem. Contudo, essa mesma linguagem é utilizada no Antigo Testamento como figura de linguagem para descrever o julgamento do Senhor sobre nações e cidades, sem que isso implique, necessariamente, o fim literal do cosmos.

O profeta Isaías, ao anunciar o julgamento sobre a Babilônia, usou uma expressão semelhante: “As estrelas dos céus, e as suas constelações, não deixarão brilhar a sua luz; o sol se escurecerá ao nascer, e a lua não resplandecerá com a sua luz” (Is 13.10). Ninguém interpreta essa passagem como uma descrição literal do fim do Universo físico, mas sim, como linguagem apocalíptica para anunciar a queda de um poder político e religioso. Da mesma forma, Jesus usa essa linguagem simbólica, comum aos profetas do Antigo Testamento, para anunciar o fim do sistema religioso judaico centrado no templo de Jerusalém, que até então representava, aos olhos de Israel, a própria estrutura do mundo.

 

O que continua futuro? A Segunda Vinda de Cristo

 

É importante deixar claro que a leitura preterista parcial não nega a Segunda Vinda de Cristo, nem transforma toda a escatologia bíblica em eventos já cumpridos no passado, como faz a heresia hiperpreterista. No livro de Atos, os anjos declaram aos discípulos, logo após a ascensão do Senhor: “Este Jesus, que dentre vós foi recebido em cima no céu, há de vir assim como para o céu o vistes ir” (At 1.11). Aqui há uma promessa clara acerca do Retorno físico e visível.

Paulo, em sua primeira carta aos tessalonicenses, descreve com detalhes esse acontecimento: “Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor” (1Ts 4.16,17). Esse texto não trata de julgamento sobre uma cidade específica, mas da ressurreição geral dos mortos e do encontro definitivo da Igreja com Cristo.

Portanto, a certeza da volta gloriosa de Cristo não depende de uma leitura futurista de Mateus 24, mas está ancorada em outros textos do Novo Testamento. Isso permite ao cristão preterista parcial sustentar, com igual convicção, tanto o cumprimento integral das palavras de Jesus sobre a destruição de Jerusalém quanto a esperança viva e inabalável do Retorno pessoal, visível e glorioso do Senhor Jesus Cristo, quando toda a Criação será finalmente restaurada e “Deus será tudo em todos” (1Co 15.28).

 

Por que essa leitura sustenta a esperança pós-milenista?

 

Compreender corretamente Mateus 24 traz uma liberdade espiritual muito grande. Ao entender que a Grande Tribulação já ocorreu no primeiro século, deixamos de projetar sobre o futuro um cenário inevitável de colapso e perseguição generalizada, como se isso fosse um sinal necessário e iminente do fim do mundo. O cumprimento da Grande Tribulação abre espaço para a esperança pós-milenista, pois, depois daquele evento marcante (a destruição do antigo sistema judaico), a história passa a ser vista como um longo período de avanço do Reino de Deus sobre as nações.

A destruição do Templo marcou justamente a transição definitiva entre a Antiga Aliança e a plena era do Evangelho, livre das amarras do sistema levítico. Com o véu do Templo já rasgado (Mt 27.51) e agora com o próprio Templo destruído, nada mais impede que o Evangelho avance livremente sobre toda a Terra, cumprindo, assim, a Grande Comissão e discipulando as nações, exatamente como Cristo ordenou.

 

Vivendo com discernimento e esperança

 

Mateus 24 não deveria ser uma fonte de ansiedade para o nosso coração, nem de especulações sensacionalistas sobre datas e sinais do fim do mundo. Uma leitura cuidadosa e fiel revela um cumprimento preciso e impressionante das palavras do Senhor na destruição de Jerusalém no ano 70 DC, confirmando a absoluta confiabilidade da profecia bíblica.

Essa compreensão liberta o nosso coração do medo constante e nos direciona para uma vida de oração fervorosa e pregação fiel do Evangelho, na certeza de que Cristo reina soberanamente sobre a história e que o Seu Reino continuará avançando até a plena manifestação da Sua glória sobre todas as nações. Que essa verdade fortaleça a sua fé. Que você seja motivado a interceder com mais intensidade e a anunciar, com coragem, as boas-novas de Jesus Cristo àqueles que ainda não O conhecem.

Se você gostou desse artigo e deseja aprofundar a sua compreensão sobre a escatologia bíblica e a interpretação preterista parcial de Mateus 24, recomendo a leitura do livro “Os Últimos Dias Segundo Jesus”, de R. C. Sproul. E não deixe de se inscrever em meu canal Pensando as Escrituras, no YouTube, onde você vai encontrar muitos outros vídeos sobre escatologia pós-milenista e preterista parcial.

 

Link do livro:

https://amzn.to/3A7PmzV

 

Link do canal no Youtube:

https://www.youtube.com/@pensandoasescrituras


Quando o assunto é escatologia, muitos cristãos sentem um misto de curiosidade e insegurança. Afinal, o que a Bíblia realmente ensina sobre o futuro do mundo, o reinado de Cristo e o destino da Igreja na história? Entre as diversas respostas que a tradição cristã oferece a essas perguntas, existe uma visão que, embora antiga, tem sido redescoberta por muitos crentes sedentos por uma esperança mais robusta. Essa visão se chama Pós-Milenismo.

Diferente das outras perspectivas que, lamentavelmente, enxergam um mundo cada vez pior até a volta de Cristo, o pós-milenismo apresenta uma visão de vitória. O Evangelho, pregado fielmente e acompanhado por vidas dedicadas à oração, transformará progressivamente as nações, até que a Terra seja repleta do conhecimento do Senhor “como as águas cobrem o mar” (Hc 2.14; cf. Is 11.9). Esse artigo tem como objetivo apresentar, de forma simples e acessível, o que é o pós-milenismo, quais são seus fundamentos bíblicos e por que essa visão desperta fervor espiritual e confiança na intervenção sobrenatural de Deus na história.

 

O significado do termo “Pós-Milenismo”

A palavra “pós-milenismo” vem da combinação entre o prefixo “pós”, que significa “depois”, e “milênio”, termo derivado de Apocalipse 20, que descreve um período simbólico de mil anos de reinado de Cristo. De acordo com essa visão, a Segunda Vinda de Jesus ocorrerá depois (pós) desse período de expansão e triunfo do Reino de Deus sobre a Terra. Isso não significa, necessariamente, que o período equivale a mil anos literais no calendário, mas sim, a um longo período histórico em que o Evangelho avançará, as nações serão discipuladas e a justiça de Deus se manifestará cada vez mais profundamente nas estruturas humanas. E isso até que Cristo retorne para consumar definitivamente o Seu Reino e entregá-lo ao Pai.

É importante deixar claro que o pós-milenismo não é uma invenção moderna, nem uma ideologia otimista desconectada das Escrituras. Ele está enraizado em textos bíblicos e foi defendido por teólogos e pregadores de grande fervor espiritual ao longo da história, como Jonathan Edwards (1703-1758), que via nos avivamentos de sua época sinais do avanço progressivo do Reino de Deus sobre as nações.

 

O fundamento bíblico da esperança pós-milenista

O coração do pós-milenismo está na convicção de que Cristo já reina agora, e que esse reinado não é passivo, mas ativo e conquistador. O apóstolo Paulo declara que “convém que Ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo de Seus pés” (1 Co 15.25). Note que o texto não fala de um reinado futuro que começará quando Jesus voltar, mas de um reinado presente, que continuará avançando até a sujeição total de todo poder contrário a Deus, incluindo a própria morte.

Essa mesma ideia aparece no Salmo 110, um dos textos messiânicos mais citados no Novo Testamento: “Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os Teus inimigos por escabelo dos Teus pés” (Sl 110.1). O Senhor Jesus está assentado, reinando, e a história caminha na direção da sujeição de todos os Seus inimigos. Não se trata de um evento instantâneo, mas de um processo histórico conduzido pela providência e pelo poder de Deus.

A Grande Comissão reforça essa mesma esperança. Jesus não pediu aos discípulos que apenas anunciassem uma mensagem de sobrevivência espiritual em meio a um mundo caótico. Ele afirmou: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Portanto, ide, fazei discípulos de todas as nações” (Mt 28.18-19). A ordem de discipular as nações pressupõe que essa missão será, de fato, bem-sucedida. Um Rei que possui toda autoridade não enviaria o Seu povo a uma missão fadada ao fracasso.

 

O crescimento do Reino como uma semente

Jesus utilizou parábolas para descrever a natureza do Reino de Deus, e muitas delas apontam para um crescimento gradual, quase imperceptível no início, mas com um resultado grandioso no final. A parábola do grão de mostarda ilustra bem esse princípio, ao afirmar que “o Reino dos céus é como um grão de mostarda que um homem, tomando-o, semeou no seu campo; o qual é, na verdade, a menor de todas as sementes, mas, crescendo, é a maior das hortaliças” (Mt 13.31-32). O Reino de Deus começou bem pequeno, muitas vezes, inclusive, desprezado, porém, ele está crescendo até se tornar algo grandioso, capaz de abrigar todas as nações.

Da mesma forma, a parábola do fermento (Mt 13.33) descreve como o Reino de Deus penetra silenciosamente em toda a massa até que a massa seja completamente transformada. Essas imagens não combinam com uma escatologia pessimista, mas com um processo de expansão progressiva, exatamente aquilo que o pós-milenismo defende. O Evangelho, como um fermento espiritual, vai penetrando as famílias, as culturas, as estruturas sociais e as nações, transformando-as pelo poder do Espírito Santo.

 

A prática concreta do cristão pós-milenista

Diante dessa esperança, é natural que nos perguntemos: “Mas como o cristão que abraça essa visão deve viver na prática?” A resposta é simples e profundamente espiritual. A vida espiritual e prática do pós-milenista se concentra, essencialmente, em dois pilares inegociáveis: (1) a oração fervorosa e (2) a pregação fiel do Evangelho.

O pós-milenista ora porque crê que somente Deus responde e intervém sobrenaturalmente na história, trazendo avivamentos, despertando igrejas adormecidas e mudando os corações endurecidos. E ele prega porque confia que a Palavra de Deus não retorna vazia, mas ela cumpre os desígnios do Senhor (cf. Is 55.11). Não há espaço, nessa visão, para um ativismo político carnal, nem para uma fé passiva que apenas espera o fim do mundo acontecer. Existe, sim, um chamado urgente e alegre para interceder diante do trono de Deus e para anunciar as boas-novas de Jesus Cristo a toda criatura, na certeza de que essas duas práticas (oração e pregação) são os meios pelos quais o Senhor está edificando o Seu Reino sobre a Terra.

 

Uma esperança diferente das demais visões escatológicas

É importante esclarecer que o pós-milenismo não é a única perspectiva escatológica dentro do Cristianismo evangélico. De fato, cristãos sinceros e piedosos discordam entre si sobre esse tema. Enquanto o Pré-Milenismo geralmente enxerga um cenário de crescente apostasia e tribulação antes da volta de Cristo, e o Amilenismo entende o Milênio como algo simbólico já presente entre a Primeira e a Segunda Vinda, sem necessariamente esperar um triunfo visível do Evangelho na história, o pós-milenismo se distingue justamente por sua ênfase na vitória progressiva e histórica do Reino antes do Retorno glorioso de Cristo.

Essas diferenças não devem gerar hostilidade entre os irmãos, mas sim, um diálogo respeitoso, fundamentado nas Escrituras e movido pelo amor fraternal. Ainda assim, é legítimo e saudável que cada cristão busque compreender profundamente aquilo que a Bíblia ensina, formando suas convicções com humildade e temor ao Senhor.

 

Vivendo hoje a esperança do amanhã

Assim, compreender o pós-milenismo é uma oportunidade para viver uma fé cristã corajosa e cheia de expectativa diante das promessas de Deus. Se Cristo já reina, e se esse reinado está avançando até a sujeição de todos os Seus inimigos, então cada crente deve participar dessa obra através da oração perseverante e da pregação fiel do Evangelho, confiando que o Senhor está, sim, intervindo sobrenaturalmente na história e transformando nações inteiras pelo poder do Seu Espírito.

Que essa verdade não fique no campo teórico, mas mova o nosso coração à oração fervorosa pela nossa família, pela nossa igreja e pelas nações do mundo. E também nos impulsione a pregar com mais coragem o nome de Jesus, na certeza de que o Reino de Deus, como o grão de mostarda, continuará crescendo até encher toda a Terra.

Se esse artigo despertou em você o desejo de aprofundar os seus estudos sobre escatologia bíblica, convido você a conhecer o meu livro: “Vivendo como um pós-milenista: Transformando a escatologia em ações que impactam o mundo”. Neste livro, eu apresento como praticar a escatologia pós-milenista nas diversas áreas da vida (Link logo abaixo). Além disso, inscreva-se em meu canal “Pensando as Escrituras”, no YouTube, onde você encontrará dezenas de vídeos sobre escatologia e outras temáticas teológicas (Link logo abaixo).

 

Link do livro:

https://go.hotmart.com/X100819374T?dp=1

 

Link do canal no Youtube:

https://www.youtube.com/@pensandoasescrituras


 

Jesus disse: “Ele [o Pai] lhes fará justiça e depressa. Contudo, quando o Filho do homem vier, encontrará fé na terra?” (Lc 18.8). Com essa afirmação, Jesus desperta de imediato a nossa atenção. Será que a fé vai desaparecer antes de Seu Retorno? Será que essa pergunta é uma profecia sombria sobre o futuro do Cristianismo? Antes de qualquer comentário, quero falar sobre a natureza do debate em torno desse texto. A passagem tem sido o epicentro de uma tensão entre dois campos interpretativos: o pessimismo fatalista, de um lado, e o otimismo contextual, do outro. O cerne do problema é determinar se a pergunta de Jesus é uma profecia de fracasso institucional ou um desafio à nossa fidelidade.

Posto isso, vamos falar do conteúdo do debate. Como você notou, o propósito principal desse texto não é apenas apresentar as posições divergentes, mas criticar a posição que está errada. E por que criticá-la? Porque a interpretação pessimista contém erros exegéticos sérios que não podemos aceitar sem questionamento.

Os teólogos dispensacionalistas H. Wayne House e Thomas D. Ice representam a ala pessimista. Para esses autores, a estrutura da pergunta de Jesus exige uma conclusão negativa sobre o estado futuro da Igreja. Nas palavras deles, trata-se de uma questão de inferência para a qual se espera uma resposta negativa. Assim, em Seu retorno, Jesus não encontraria, de forma literal, fé na Terra.

Infelizmente, o propósito dessa interpretação é invalidar o otimismo cristão, especialmente o pós-milenismo. Se a fé está profeticamente destinada a desaparecer, qualquer esforço de expansão do Reino seria inútil. Todavia, essa visão carrega uma inconsistência lógica que seus próprios proponentes não conseguem resolver. Nem mesmo os sistemas teológicos defendidos por House e Ice admitem que o Cristianismo estará totalmente morto na volta de Cristo, pois isso anularia a própria existência de um remanescente ou de santos tribulacionais. A posição deles se contradiz antes mesmo de chegarmos ao texto grego.

Para uma exegese rigorosa, é necessário confrontar essa premissa pessimista com quatro evidências que, juntas, a desmantelam completamente.

A primeira diz respeito ao foco da pergunta. Jesus não está falando da existência global do Cristianismo como religião. Ele está falando de oração fervorosa e persistência dos eleitos de Deus em tempos de profunda pressão. O uso do artigo definido no grego, tēn pistin, é o fator determinante para a correta interpretação. O artigo definido exerce uma função anafórica, isto é, remete o leitor diretamente ao contexto anterior, a parábola da viúva persistente. Jesus não está falando de fé em sentido soteriológico geral, mas daquela qualidade específica de fé que se recusa a desistir. Aliás, o próprio Lucas deixou o propósito explícito desde o versículo 1 do mesmo capítulo. Ele disse que Jesus ensinou a parábola para que os discípulos “orassem sempre e não desanimassem”. A pergunta do versículo 8 é, portanto, o fechamento lógico desse ensino.

A segunda evidência está na gramática grega. Ao contrário do que afirmam House e Ice, a gramática não sustenta uma resposta negativa obrigatória. Segundo os renomados gramáticos Funk, Blass e Debrunner, a construção de perguntas no grego segue regras claras. A partícula ou é empregada quando se espera uma resposta afirmativa. Já as partículas ou mēti são usadas para sugerir uma resposta negativa. Em Lucas 18.8, nenhuma dessas partículas ocorre. Ao invés disso, encontramos a expressão ara, que, conforme as autoridades citadas, indica um tom de suspense ou impaciência. Portanto, a resposta à pergunta de Jesus é gramaticalmente ambígua, deixada em aberto de propósito para provocar um autoexame no ouvinte. Sinceramente, não sei como House e Ice sustentam a afirmação de que a gramática exige um não, quando as próprias autoridades do grego que deveriam consultar dizem o contrário.

A terceira evidência é o contexto histórico de iminência. Jesus afirma categoricamente que Deus fará justiça “depressa”. Essa linguagem de prontidão, em grego en tachei, aparece em passagens como Apocalipse 1.1, onde João diz que as coisas devem acontecer “em breve”. A promessa de que Deus responderia depressa não se sustenta se o seu cumprimento estivesse a milênios de distância. O contexto precedente, em Lucas 17.22-37, aponta para a destruição de Jerusalém. Jesus estava preparando os discípulos para a Grande Tribulação daquela geração. A “vinda” em questão é a visitação de Deus em juízo contra Israel que culminou no ano 70 DC.

A quarta evidência é de pura lógica. Nenhuma tradição cristã coerente defende a extinção completa da fé antes do retorno de Cristo. Trata-se de uma reductio ad absurdum que os próprios pessimistas não conseguem sustentar dentro de seus próprios sistemas teológicos.

Quase toda interpretação pessimista que se faz desse versículo é feita fora do contexto literário e histórico imediato, lançando mão de uma leitura tendenciosa, para dizer o mínimo. A falha central reside no isolamento do versículo de seu arcabouço literário e histórico, o que os hermeneutas chamam de negligência da vizinhança hermenêutica.

Assim, considero a interpretação pessimista de Lucas 18.8 um equívoco exegético grave e um grande perigo, especialmente para os novos na fé. Nada é mais prejudicial do que transformar um chamado à perseverança em uma profecia de derrota. A convicção que fica é que interpretar Lucas 18.8 como o fim do Cristianismo é ignorar tanto a gramática de Blass e Debrunner quanto o próprio propósito consolador de Cristo. O texto não é um obituário da fé. É um tônico para a perseverança.

 

Leia o meu e-book “Escatologia Descomplicada”:

https://pay.hotmart.com/A84170301F