pub-9363386660177184 Pensando as Escrituras

 

Jesus disse: “Ele [o Pai] lhes fará justiça e depressa. Contudo, quando o Filho do homem vier, encontrará fé na terra?” (Lc 18.8). Com essa afirmação, Jesus desperta de imediato a nossa atenção. Será que a fé vai desaparecer antes de Seu Retorno? Será que essa pergunta é uma profecia sombria sobre o futuro do Cristianismo? Antes de qualquer comentário, quero falar sobre a natureza do debate em torno desse texto. A passagem tem sido o epicentro de uma tensão entre dois campos interpretativos: o pessimismo fatalista, de um lado, e o otimismo contextual, do outro. O cerne do problema é determinar se a pergunta de Jesus é uma profecia de fracasso institucional ou um desafio à nossa fidelidade.

Posto isso, vamos falar do conteúdo do debate. Como você notou, o propósito principal desse texto não é apenas apresentar as posições divergentes, mas criticar a posição que está errada. E por que criticá-la? Porque a interpretação pessimista contém erros exegéticos sérios que não podemos aceitar sem questionamento.

Os teólogos dispensacionalistas H. Wayne House e Thomas D. Ice representam a ala pessimista. Para esses autores, a estrutura da pergunta de Jesus exige uma conclusão negativa sobre o estado futuro da Igreja. Nas palavras deles, trata-se de uma questão de inferência para a qual se espera uma resposta negativa. Assim, em Seu retorno, Jesus não encontraria, de forma literal, fé na Terra.

Infelizmente, o propósito dessa interpretação é invalidar o otimismo cristão, especialmente o pós-milenismo. Se a fé está profeticamente destinada a desaparecer, qualquer esforço de expansão do Reino seria inútil. Todavia, essa visão carrega uma inconsistência lógica que seus próprios proponentes não conseguem resolver. Nem mesmo os sistemas teológicos defendidos por House e Ice admitem que o Cristianismo estará totalmente morto na volta de Cristo, pois isso anularia a própria existência de um remanescente ou de santos tribulacionais. A posição deles se contradiz antes mesmo de chegarmos ao texto grego.

Para uma exegese rigorosa, é necessário confrontar essa premissa pessimista com quatro evidências que, juntas, a desmantelam completamente.

A primeira diz respeito ao foco da pergunta. Jesus não está falando da existência global do Cristianismo como religião. Ele está falando de oração fervorosa e persistência dos eleitos de Deus em tempos de profunda pressão. O uso do artigo definido no grego, tēn pistin, é o fator determinante para a correta interpretação. O artigo definido exerce uma função anafórica, isto é, remete o leitor diretamente ao contexto anterior, a parábola da viúva persistente. Jesus não está falando de fé em sentido soteriológico geral, mas daquela qualidade específica de fé que se recusa a desistir. Aliás, o próprio Lucas deixou o propósito explícito desde o versículo 1 do mesmo capítulo. Ele disse que Jesus ensinou a parábola para que os discípulos “orassem sempre e não desanimassem”. A pergunta do versículo 8 é, portanto, o fechamento lógico desse ensino.

A segunda evidência está na gramática grega. Ao contrário do que afirmam House e Ice, a gramática não sustenta uma resposta negativa obrigatória. Segundo os renomados gramáticos Funk, Blass e Debrunner, a construção de perguntas no grego segue regras claras. A partícula ou é empregada quando se espera uma resposta afirmativa. Já as partículas ou mēti são usadas para sugerir uma resposta negativa. Em Lucas 18.8, nenhuma dessas partículas ocorre. Ao invés disso, encontramos a expressão ara, que, conforme as autoridades citadas, indica um tom de suspense ou impaciência. Portanto, a resposta à pergunta de Jesus é gramaticalmente ambígua, deixada em aberto de propósito para provocar um autoexame no ouvinte. Sinceramente, não sei como House e Ice sustentam a afirmação de que a gramática exige um não, quando as próprias autoridades do grego que deveriam consultar dizem o contrário.

A terceira evidência é o contexto histórico de iminência. Jesus afirma categoricamente que Deus fará justiça “depressa”. Essa linguagem de prontidão, em grego en tachei, aparece em passagens como Apocalipse 1.1, onde João diz que as coisas devem acontecer “em breve”. A promessa de que Deus responderia depressa não se sustenta se o seu cumprimento estivesse a milênios de distância. O contexto precedente, em Lucas 17.22-37, aponta para a destruição de Jerusalém. Jesus estava preparando os discípulos para a Grande Tribulação daquela geração. A “vinda” em questão é a visitação de Deus em juízo contra Israel que culminou no ano 70 DC.

A quarta evidência é de pura lógica. Nenhuma tradição cristã coerente defende a extinção completa da fé antes do retorno de Cristo. Trata-se de uma reductio ad absurdum que os próprios pessimistas não conseguem sustentar dentro de seus próprios sistemas teológicos.

Quase toda interpretação pessimista que se faz desse versículo é feita fora do contexto literário e histórico imediato, lançando mão de uma leitura tendenciosa, para dizer o mínimo. A falha central reside no isolamento do versículo de seu arcabouço literário e histórico, o que os hermeneutas chamam de negligência da vizinhança hermenêutica.

Assim, considero a interpretação pessimista de Lucas 18.8 um equívoco exegético grave e um grande perigo, especialmente para os novos na fé. Nada é mais prejudicial do que transformar um chamado à perseverança em uma profecia de derrota. A convicção que fica é que interpretar Lucas 18.8 como o fim do Cristianismo é ignorar tanto a gramática de Blass e Debrunner quanto o próprio propósito consolador de Cristo. O texto não é um obituário da fé. É um tônico para a perseverança.

 

Leia o meu e-book “Escatologia Descomplicada”:

https://pay.hotmart.com/A84170301F


Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que a interpretação que vou expor aqui não é nova, pelo menos dentro do universo dos estudos teológicos. Ela pode ser nova, é claro, para aqueles que estão lendo sobre isso pela primeira vez. Apesar disso, saiba que esse entendimento está enraizado no próprio vocabulário grego do Novo Testamento e na lógica interna das Escrituras. E, ao contrário do que pode parecer, não tem nada a ver com sensacionalismo profético.

O ponto de partida é uma inversão de expectativa. Quando a maioria das pessoas ouve a palavra Apocalipse, o instinto automático é montar um roteiro catastrófico na cabeça. As pessoas imaginam bestas saindo do mar, asteroides, oceanos em fúria e um caos cinematográfico de proporções bíblicas. Essa atitude é até compreensível. Todavia, a cena mais icônica do livro, aquela do anjo descendo do céu com uma grande corrente para prender o dragão por mil anos (Ap 20.1-3), não é uma profecia aterrorizante sobre o que acontecerá no futuro. Na verdade, temos aqui o relato simbólico de uma virada jurídica que já aconteceu.

Para entender isso, é preciso voltar ao Evangelho de Mateus capítulo 12. Ali, os fariseus acusam Jesus de expulsar demônios usando o poder de Belzebu. Jesus aponta a falha lógica dessa acusação de imediato. Ele diz que um reino dividido contra si mesmo não pode subsistir. E então, no meio dessa resposta, Ele introduz uma parábola que funciona como a pedra de roseta para decodificar o Apocalipse. Ele pergunta: “Como pode alguém entrar na casa do valente e roubar os seus bens sem primeiro amarrá-lo?” (Mt 12.29). A palavra grega usada ali para “amarrar” é deô. Tempos depois, em Apocalipse 20, João usa a mesma palavra para descrever o anjo que prende o dragão. Você acha que isso é uma coincidência de vocabulário? Claro que não. Isso é uma ponte intencionalmente construída. Jesus, em Mateus 12, estava antecipando em linguagem parabólica o que João descreveria de forma visionária profética. O ponto é que a prisão de Satanás é uma condição prévia para o saque da casa, ou seja, para o resgate da humanidade mantida em cativeiro espiritual.

Posto isso, surge uma objeção bastante comum. Se Satanás já foi amarrado, por que o apóstolo Pedro nos alerta dizendo que o diabo anda como leão rugindo em busca de alguém para devorar (1Pe 5.8)? Por que Paulo gasta capítulos inteiros descrevendo as ciladas do inimigo e falando de armaduras espirituais (Ef 6.10-17)? Aqui está o erro que faz muita gente tropeçar. As pessoas tentam aplicar uma lógica física e espacial a uma realidade que é, acima de tudo, jurídica. Ora, a prisão relatada em Apocalipse 20 nunca teve intenção de ser compreendida como uma paralisação motora absoluta, como se o inimigo virasse uma estátua de sal. O que foi destruído foi a base legal de sua autoridade.

O texto de Colossenses 2.14-15 explica a mecânica disso com precisão cirúrgica. Paulo fala sobre o cancelamento do “escrito de dívida” que existia contra nós, o documento que foi encravado na cruz. Ao pagar essa dívida, Cristo despojou os principados e as potestades, expondo-os publicamente ao desprezo. Sem a nota promissória da culpa humana nas mãos, o acusador foi destituído no tribunal cósmico. Isso significa que a influência satânica continua operando. O pai da mentira continua mentindo. O leão continua rugindo. No entanto, ele faz tudo isso sem a jurisdição oficial. A assinatura dele não vale mais nada.

Mas há ainda uma dimensão geopolítica nessa prisão que passa completamente despercebida numa leitura individualista das Escrituras. Apocalipse 20.3 é bem específico ao dizer que o dragão foi preso para não mais enganar as nações. A corrente não o impede de lançar tentações cotidianas sobre nós. A prisão ocorreu para quebrar um monopólio que durava milênios. No Antigo Testamento, o modelo de atuação de Deus era geograficamente concentrado em Israel. Por exemplo, o Salmo 147.20 diz: “Não fez assim a nenhuma outra nação”. O restante do globo estava entregue às entidades espirituais do mal, aos deuses nacionais do mundo antigo, que a cosmovisão bíblica trata como principados que mantinham civilizações inteiras na cegueira espiritual. É o que Lucas 4 deixa claro quando o diabo oferece a Jesus todos os reinos do mundo, alegando que a autoridade sobre eles “me foi entregue”. E Jesus não contesta a premissa. A omissão de um contra-argumento legal ali é ensurdecedora.

No entanto, a cruz de Cristo mudou tudo isso. Quando Jesus, após a ressurreição, declara que “toda autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28.18), Ele está descartando juridicamente o argumento que o diabo havia usado no deserto. O monopólio sobre as nações acabou. E é por isso que a ordem seguinte, “vão e façam discípulos de todas as nações” (Mt 28.19), não é uma campanha de conscientização. É uma operação de retomada de território. Os apóstolos não estavam abrindo mais um templo num mercado religioso saturado. Eles estavam entregando as notificações de despejo aos antigos ocupantes. Paulo resume isso ao detalhar sua tarefa missionária: “Para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres à luz, e do poder de Satanás a Deus [...]” (Atos 26.18).

Finalmente, considero que a maior evidência histórica de que essa prisão de Satanás já aconteceu somos nós mesmos. Qualquer pessoa que hoje, vivendo fora de Israel, tendo origem gentílica, compreende e debate livremente sobre o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, é a prova viva de que aquela muralha espiritual geopolítica foi demolida. O mundo ocidental parou de oferecer sacrifícios humanos para apaziguar deuses de rios e tempestades. Isso é o resultado de uma sentença proferida há dois mil anos num tribunal que a maioria das pessoas sequer sabe que existe.

Assim, considero que ler Apocalipse 20 como sendo uma profecia futurista é perder completamente o ponto central da história. O texto nos chama a reconhecer que o martelo do Juiz já bateu, que as algemas já foram colocadas no inimigo e que a missão da Igreja consiste em anunciar, nas filiais mais remotas do planeta, que o antigo contrato foi rasgado em praça pública.

 

* Para aprender mais sobre escatologia, adquira meu e-book Entendendo o fim dos tempos: https://pay.hotmart.com/X100838872J

Com esse título um pouco técnico, você pode estar se perguntando o que é esse tal de “mandato cultural” e o que significa “domínio cristão”. Antes de responder, preciso dizer que essas são, na verdade, ideias muito antigas na história da teologia. Tão antigas quanto as primeiras páginas da Bíblia. E, ao contrário do que pode parecer, essas expressões não têm nada a ver com autoritarismo ou com arrogância religiosa.

O ponto de partida é a nossa própria identidade. A Bíblia diz que Deus criou o ser humano à Sua imagem e semelhança (Gn 1.26-27). Isso não é um detalhe pequeno e insignificante. Ser imagem de Deus não é uma medalha que recebemos por termos um bom comportamento, mas é a nossa própria natureza. E parte dessa imagem é justamente refletir, no nível humano, a autoridade e o poder criativo de Deus. No mesmo versículo, o Senhor declara que o homem deve dominar sobre toda a Criação: peixes, aves, gado e toda a terra. Isso é o mandato cultural.

Muita gente acredita que, depois que Adão pecou, esse mandato teria sido cancelado. Mas as Escrituras mostram o contrário. Mesmo após a queda, o homem continua sendo tratado como imagem de Deus (Gn 9.6). O Salmo 8 reafirma isso, dizendo que Deus coroou o ser humano de glória e lhe deu domínio sobre as obras de Suas mãos. Percebe? O chamado permanece. Deus não desistiu do mundo físico nem da história humana. Tanto que, na plenitude dos tempos, Deus enviou o Seu próprio Filho em um corpo humano real para redimir a humanidade inteira e o próprio processo histórico.

É nesse ponto que a redenção entra em cena de forma poderosa. Logo depois da queda, em Gênesis 3.15, Deus já providencia a solução para o problema. Ele afirma que a descendência da mulher esmagaria a cabeça da serpente. Esse esmagamento de Satanás acontece dentro da história, produzindo consequências reais e concretas. Essa mesma promessa é ampliada na aliança com Abraão quando Deus garante que “todas as famílias da terra serão abençoadas” por meio dEle. O apóstolo Paulo explica que isso significa que Abraão — e, por extensão, todos os que pertencem a Cristo — seria o “herdeiro do mundo” (Rm 4.13). Isso quer dizer que o domínio cristão não é imposto à força. O domínio acontece por meio da conversão gradual das nações e pela disseminação do evangelho, transformando a cultura de dentro para fora.

O que tudo isso significa na prática? Significa que o seu trabalho, a sua arte, a sua influência no bairro, na escola ou no escritório não são atividades neutras. Elas são, na verdade, o cumprimento de um chamado que começou no Jardim do Éden. O mandato cultural nos ensina que o mundo pertence ao Senhor e que Ele quer ver a Sua glória enchendo toda a terra. Essa é uma visão profundamente otimista. A redenção de Cristo é mais poderosa do que a queda de Adão. E o cristão que entende isso para de ver a sua rotina como algo comum e passa a encará-la como parte de um plano soberano que, no final, triunfará na história.

 

* Para um estudo sério sobre a esperança pós-milenista, recomendo a leitura do livro Teu é o Reino: https://amzn.to/4c1Zr17


 

Durante séculos, o livro de Apocalipse foi lido como um mapa do futuro. A imaginação popular sempre projetou suas imagens perturbadoras para algum ponto distante no horizonte da história humana. Mas e se essa leitura estiver errada? E se os eventos descritos por João não fossem uma previsão, mas um registro simbólico de algo que já ocorreu há quase dois mil anos?

Essa é a proposta do preterismo parcial, uma abordagem confiável que interpreta a maior parte das profecias do Novo Testamento como cumpridas no século I, especificamente durante o cerco e a destruição de Jerusalém pelo exército romano em 70 d.C. É uma perspectiva intelectualmente séria e merece ser compreendida com atenção.

 

O que o próprio texto diz

O ponto de partida mais honesto é o próprio Apocalipse. Logo no primeiro capítulo, João afirma que as visões que recebeu dizem respeito a “coisas que em breve devem acontecer” e reforça que “o tempo está próximo”. Para o leitor moderno, essas expressões parecem detalhes menores. Mas para qualquer pessoa do século I que tivesse recebido esse texto, elas seriam urgentes e imediatas. Não havia qualquer referência a eventos dois ou três milênios no futuro.

Esse argumento é levado a sério por teólogos de diferentes tradições. Se João escrevia para comunidades cristãs que sofriam perseguição e precisavam de esperança, faz sentido que ele estivesse anunciando algo que elas veriam acontecer em sua própria geração, não em uma geração que nem sequer poderia imaginar.


Dois textos, uma história?

A análise preterista parcial se apoia na comparação entre dois documentos do século I: o Apocalipse de João e A Guerra dos Judeus, do historiador Flávio Josefo. Josefo foi um general judeu que se rendeu aos romanos e se tornou cronista da guerra. Ele estava presente na guerra, viu os eventos com os próprios olhos e registrou tudo com riqueza de detalhes. A pergunta que o preterismo coloca é provocadora: e se esses dois textos estiverem descrevendo o mesmo acontecimento, um em linguagem profética e simbólica, e o outro em linguagem histórica e factual? As correspondências são, no mínimo, dignas de reflexão.


Montanhas movidas e pessoas nas cavernas

O Apocalipse descreve um cataclisma cósmico em que “todos os montes e ilhas foram removidos dos seus lugares” (Ap 6.14) e as pessoas correm apavoradas para se esconder em cavernas (v. 15). Lido de forma literal, isso parece impossível. Mas Josefo relata que as legiões romanas, para avançar com seu imenso equipamento de guerra, empregavam equipes de engenharia que literalmente nivelavam o terreno, demolindo rochedos, aplainando estradas e reorganizando a paisagem para abrir caminho ao exército.

Em relação à tentativa de esconder-se em cavernas, Josefo confirma que essa era uma estratégia desesperada dos judeus durante o cerco. Eles fugiram para as grutas e para os túneis subterrâneos na esperança de escapar da violência romana. O historiador ainda registra, em uma frase que ecoa quase palavra por palavra o clamor descrito em Apocalipse, que essa esperança foi vã: “[Eles] não puderam ficar escondidos nem de Deus nem dos romanos” (War 6.7.3).


Uma cidade dividida em três

O Apocalipse profetiza que “a grande cidade fendeu-se em três partes” (Ap 16.19). Para quem interpreta a Grande Cidade como Jerusalém, a pergunta natural é se isso realmente aconteceu historicamente. Josefo responde que sim, com uma precisão desconcertante. Ele descreve como Jerusalém, em vez de se unir contra o inimigo externo, foi destruída por dentro por uma feroz guerra civil entre três facções rivais que disputavam o controle da cidade. Três grupos. Três partes. A cidade que deveria se defender do exército mais poderoso do mundo estava ocupada se destruindo por conta própria.


A chuva de pedras de trinta quilos

Uma das correspondências mais específicas envolve uma imagem do Apocalipse que costuma ser lida como fantástica demais. Trata-se de uma chuva de granizo com pedras pesando cerca de um talento cada, ou seja, aproximadamente 30 quilos. O detalhe do peso parece quase técnico demais para ser puramente simbólico. Mas Josefo, ao descrever o bombardeio das catapultas romanas sobre Jerusalém, informa que as pedras lançadas por essas máquinas pesavam exatamente um talento. E, em uma coincidência linguística impressionante, ele usa a mesma raiz grega que João emprega em Apocalipse [gr., talantiaia]. O granizo profético e as pedras das catapultas romanas convergem não apenas em significado, mas também em vocabulário.


Rios de sangue

A imagem final e mais visceral é a do sangue fluindo como vinho de uma grande prensa, atingindo a altura dos freios dos cavalos e se espalhando por uma vasta extensão. Literalmente, isso é impossível, pois o sangue coagula. Mas como hipérbole poética para um massacre de proporções inimagináveis, a imagem ganha outra dimensão quando lida ao lado do registro de Josefo.

O historiador descreve o Rio Jordão bloqueado por corpos, o mar avermelhado de sangue, e até mesmo o fogo sendo apagado pelo volume de sangue que escorria pelas ruas de Jerusalém: “Vertia sangue de toda a cidade em tal nível que o incêndio de muitas casas foi apagado com o sangue desses homens” (War 6.8.5). São imagens de horror extremo, registradas por uma testemunha ocular. Podemos acreditar que João e Josefo estão descrevendo, cada um em sua linguagem, a mesma catástrofe histórica.


A lógica teológica

Assim, para além das correspondências históricas, o preterismo parcial propõe uma narrativa teológica coerente. A destruição de Jerusalém em 70 d.C. não seria apenas um evento político ou militar, mas o encerramento formal de uma era. Com a rejeição do Messias e a crucificação de Jesus, a Antiga Aliança entre Deus e Israel teria chegado ao seu limite. O Templo de Jerusalém, símbolo central desse sistema religioso, seria então destruído, encerrando definitivamente o sistema de sacrifícios e sinalizando que a presença de Deus não mais habitava em um edifício ou em uma cidade específica.

O exército romano teria agido como instrumento involuntário de um julgamento divino, da mesma forma que o Antigo Testamento apresenta impérios pagãos como a Babilônia e a Assíria como instrumentos da ira de Deus contra Israel. O resultado histórico confirma essa interpretação. Após o ano 70 d.C., o Judaísmo nunca mais voltou a ter um Templo. E o Cristianismo se expandiu rapidamente como uma fé universal, desvinculada de um território ou de uma liturgia sacrificial específica.


Uma pergunta que fica

O preterismo parcial não é uma interpretação nova. Também não é, infelizmente, unanimidade entre os teólogos. Muitos lançam objeções do tipo: o que fazer com as passagens proféticas que parecem descrever eventos ainda futuros? Como devemos interpretar a ressurreição e o Juízo Final dentro dessa abordagem? Essas são questões legítimas que o preterismo parcial também responde biblicamente.

O valor da abordagem preterista está em nos fazer repensar aqueles textos que sempre foram bem “familiares” a nós. Se o Apocalipse era, antes de tudo, uma mensagem de esperança para os cristãos perseguidos do século I, então a sua leitura muda radicalmente. A nossa compreensão deixa de ser um roteiro de filme de terror profético, e passa a ser uma declaração do poder e da graça do nosso Deus.

Quantas outras profecias bíblicas que consideramos puramente futuristas têm raízes em eventos históricos que já aconteceram? Se você nunca parou para pensar nisso, reflita com seriedade e honestidade. A resposta está bem perto de você e ela pode te surpreender.



PS: Se você deseja aprender mais sobre as últimas coisas, sugiro que leia o meu e-book “Entendendo o fim dos tempos”. Acesse o link: pay.hotmart.com/X100838872J

 

Existe uma pergunta que todos nós, cristãos, precisamos responder com honestidade: de que forma você olha para esse mundo? Para muitos crentes, esse mundo é como um navio afundando e a escatologia funciona como um bote salva-vidas. Nessa visão, o que mais importa é sobreviver ao naufrágio. Trata-se de uma escatologia de retirada e fuga. O mundo está indo para o buraco e, por isso, a melhor coisa que podemos fazer é não afundar junto com ele.

Mas existe outra forma de enxergar esse mundo; uma forma que acredito ser muito mais fiel à Palavra de Deus. Nessa outra visão, esse mundo é governado e controlado por Cristo, o Rei dos reis. E se esse mundo é governado por Cristo, então os inimigos dEle estão sendo destruídos gradualmente à medida em que os anos se passam.

A forma como olhamos o mundo faz toda a diferença na prática. Isso porque a escatologia não é apenas sobre como as coisas vão terminar, mas sobre o que nós fazemos enquanto a história não termina.


(1) A Redenção no Tempo e no Espaço

Quero mostrar que a vontade de Deus é redimir esse mundo antes da Segunda Vinda de Cristo. Para mostrar isso, precisamos voltar ao início da história; exatamente no ponto em que o pecado entrou na existência humana.

O pecado começou em Gênesis 3, com a queda de Adão. A queda foi um acontecimento histórico. Ela ocorreu dentro do tempo e do espaço. Como consequência disso, toda a terra foi amaldiçoada por Deus. E quando dizemos “toda a terra”, isso inclui todas as esferas da existência: o trabalho, a família, a cultura, a economia, as artes, a política, etc. O pecado quebrou o mundo dentro da história. Mas a boa notícia é que Deus providenciou a solução para esse problema. Deus providenciou o Cristo. E aqui está um raciocínio que não podemos ignorar: tendo em vista que o maior problema aconteceu dentro da história, a solução para esse problema também deveria acontecer dentro da história. Foi exatamente isso que o Senhor fez:


“E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós […]” (Jo 1.14, ACF)


Jesus entrou na história humana para resolver o problema do pecado. Ele encarnou literalmente. Foi literalmente crucificado em uma cruz de madeira real com pregos reais. O Salvador morreu literalmente (todos os Seus órgãos pararam de funcionar). No entanto, Ele ressuscitou do túmulo no terceiro dia. Tudo isso aconteceu dentro da história. E isso nos leva a uma conclusão lógica que é, aliás, o próprio coração do pós-milenismo. Se o Primeiro Adão, que era somente um homem feito do pó, teve o poder de arruinar o mundo inteiro, o Último Adão — Jesus, o Deus encarnado, o Rei dos reis — não seria poderoso o suficiente para restaurar o mundo inteiro?

Seria um pecado grave afirmar que a queda de Adão afetou a terra com mais profundidade do que a obra de Cristo na cruz. Mas a Palavra nos mostra a grandeza da graça de Deus:


"[…] mas onde abundou o pecado, superabundou a graça." (Rm 5.20, ARA)


A conclusão é que, desde a Sua ressurreição e ascensão, Jesus está revertendo os efeitos do pecado de Adão dentro da história. Isso está sendo feito através da ação soberana do Espírito Santo no coração dos homens, através da Igreja pregando o Evangelho, discipulando os convertidos e trabalhando arduamente na transformação da sociedade.

Quando Cristo vier pela segunda vez, Ele vai vir para consumar um mundo quase que totalmente cristianizado. Ele não vai voltar para resgatar um mundo à beira do colapso. O pecado aconteceu dentro da história. A obra redentora de Jesus aconteceu dentro da história. E a vitória do Reino de Deus também deve acontecer dentro da história.


(2) Como Deus Reverte o Mal Através de Nós

Se a vontade de Deus fosse apenas a nossa salvação individual, Ele já teria nos levado no dia da nossa conversão. Mas, se Ele não fez isso, é porque temos uma missão a executar nesse mundo. E essa missão é trabalhar, em parceria com o Senhor, contra os efeitos do mal. Vamos ver como isso acontece em quatro áreas fundamentais.


2.1. A Reversão do Indivíduo


“Quem era ladrão pare de roubar. Em vez disso, use as mãos para trabalhar com empenho e honestidade e, assim, ajudar generosamente os necessitados.” (Ef 4.28, NVT)


A primeira obra que Deus faz antes de transformar o mundo é transformar a pessoa. A razão é simples. Só é possível transformar as coisas ao seu redor se você for uma pessoa transformada.

Note que Paulo não diz: “Irmão, pare de roubar e vá para a igreja”. Ele diz: “Pare de roubar, trabalhe com dedicação e ajude as pessoas”. Três palavras-chave estão presentes nesse versículo: honestidade, trabalho e generosidade. Um ladrão, quando é alcançado pela graça, pode se tornar um instrumento para reverter os efeitos do pecado na economia de uma sociedade inteira. Ele para de roubar, começa a trabalhar, e com parte daquilo que produziu, ajuda os necessitados.


2.2. A Reversão nos Relacionamentos

O mundo enxerga o perdão como fraqueza. Esse mundo opera de acordo com a lógica de Lameque; a lógica da vingança:


“E disse Lameque a suas mulheres Ada e Zilá […] eu matei um homem por me ferir, e um jovem por me pisar.” (Gn 4.23, ACF)


Mas no Reino de Deus não é assim que as coisas funcionam. Nós agimos de acordo com a lógica de Cristo: perdoar até setenta vezes sete (Mt 18.22). Um exemplo disso foi visto em Ruanda. Em 1994, o mundo presenciou um dos genocídios mais terríveis da história moderna. Um massacre brutal motivado por razões políticas e étnicas. Mas alguns anos depois, grupos de cristãos começaram a promover encontros entre sobreviventes e os próprios assassinos de suas famílias. E o que aconteceu? Aconteceu o perdão. Várias viúvas que perderam marido e filhos decidiram perdoar os assassinos por causa de Cristo. Ao agirem dessa forma, elas estavam revertendo os efeitos do pecado e, ao mesmo tempo, promovendo a misericórdia do Reino de Deus.


2.3. A Reversão na Cultura

Qual é a cosmovisão que carregamos em nossa mente? Não existe neutralidade nesse ponto. Ou temos uma cosmovisão bíblica ou uma cosmovisão antibíblica. As escolas e universidades de hoje são uma verdadeira arena de guerra de cosmovisões anticristãs: marxismo, secularismo, relativismo moral. Mas o que acontece quando um professor universitário, um jornalista ou um político — que antes defendia essas ideologias — é convertido por Deus? A mente dele entra em um processo profundo de renovação através da Palavra.

E agora que essa pessoa se converteu, o que ela deve fazer? Abandonar a profissão e buscar algo mais “espiritual”? É claro que não. Ela deve continuar na mesma profissão, mas mudar completamente o conteúdo e a direção dos seus esforços.

Quando renovamos a nossa mente através da Palavra e promovemos a cosmovisão cristã nas instituições e nos meios de comunicação, estamos revertendo os efeitos do pecado na cultura. Um cristão que trabalha com integridade e convicção bíblica dentro de uma redação, de uma universidade ou de um parlamento é um agente do Reino de Deus na história.


2.4. A Reversão nos Lares

A família é a unidade fundamental do Reino de Deus. A mudança do mundo não começa no Palácio do Planalto. A mudança começa em nossa mesa de jantar. Lembre-se que a primeira família foi criada por Deus: Adão e Eva. Mas depois que o pecado entrou no mundo, o primeiro homicídio (fratricídio) também aconteceu dentro da primeira família: Caim contra Abel. Ainda hoje vemos casos extremos de violência familiar que revelam como o pecado destrói os lares.

Mas muitas famílias cristãs cometem outros pecados igualmente danosos a longo prazo: a ausência de comunicação e transparência entre casais, as pequenas concessões e meias-verdades, a terceirização da educação dos filhos para a escola ou para as telas, a negligência às disciplinas espirituais como a Palavra e a oração. Em muitas casas, o lar se parece mais com um hotel, pois as pessoas estão lá só para comer e dormir.

Na verdade, o lar deve ser um pedacinho do Reino de Deus aqui na terra. E trazer o Reino de Deus para dentro de casa pode ser feito de maneiras muito práticas: desligando a TV e abrindo a Palavra de Deus, resgatando a prática do culto doméstico, lendo juntos bons livros de teologia e história da Igreja, reservando tempo de qualidade exclusivo para a família. Quando essas coisas são cultivadas no lar, estamos revertendo os efeitos do pecado na família.


Conclusão

Para encerrar, faço a você um convite ao exame honesto da sua própria vida. Você tem buscado ao Senhor e trabalhado para reverter os efeitos do pecado na história? Quando foi a última vez que você pegou um recurso seu, fruto do seu trabalho, e abençoou uma pessoa em necessidade? Você tem praticado a misericórdia e o perdão para com aqueles que causaram algum dano a você ou à sua família? Você pode afirmar que a sua cosmovisão é realmente bíblica — no que diz respeito ao aborto, à prosperidade material, à criação dos filhos, à política, à sexualidade?

O que pensamos sobre essas questões revela se temos de fato uma cosmovisão bíblica ou não. E a escatologia tem tudo a ver com isso. Uma escatologia verdadeiramente bíblica não nos paralisa com pessimismo, mas nos põe em movimento com esperança. O Rei está no trono. O Reino está avançando. E nós somos chamados a ser agentes ativos dessa transformação histórica.


* Este artigo é uma expansão do material apresentado na aula do Instituto Teológico John Bunyan (30 de março de 2026). Para um estudo mais aprofundado, recomenda-se a obra Vivendo como um Pós-Milenista, que aborda a aplicação da escatologia otimista nas diversas áreas práticas da vida cristã. Você pode comprar aqui:

 

https://hotmart.com/pt-br/marketplace/produtos/vivendo-como-um-pos-milenista-transformando-a-escatologia-em-acoes-que-impactam-o-mundo/X100819374T


Quando lemos 2 Pedro 3 em muitas Bíblias de estudo ou ouvimos certas pregações, quase sempre o texto é colocado dentro da seguinte moldura: “o fim do universo físico”, “explosão cósmica final”, “o mundo vai virar pó e Deus vai começar tudo do zero”. No entanto, o objetivo do apóstolo Pedro não é falar acerca do fim do cosmos, e sim do fim de um mundo específico. Ele escreveu sobre o fim do mundo do Antigo Pacto, centrado no Templo de Jerusalém que, de fato, foi destruído em 70 d.C.

A seguir, vamos resumir e aplicar o argumento do apóstolo Pedro, de modo que qualquer cristão consiga acompanhar com facilidade.


Quem são os “escarnecedores dos últimos dias”?

Pedro diz que nos últimos dias surgiriam escarnecedores (2Pe 3.3-4). Muita gente, ao ouvir a expressão “últimos dias”, pensa automaticamente em “nossos dias” ou no “fim do mundo”. Mas a boa notícia é que o próprio Novo Testamento define o significado dessa expressão. Textos como Atos 2.16-17, Hebreus 1.1-2, 9.26; Tiago 5.7-9 e 1 João 2.18 mostram que os “últimos dias” são o período entre a ascensão do Senhor Jesus aos céus e a destruição do Templo em 70 d.C. Eram os últimos dias não da criação física, mas da ordem do Antigo Pacto.

Ademais, os escarnecedores de 2 Pedro 3 são judeus que conheciam bem as Escrituras, mas que rejeitaram o Messias. Eles sabiam bem das advertências dos profetas sobre um grande dia de juízo, mas mesmo assim zombavam dizendo: “Onde está a promessa da sua vinda?” (2Pe 3.4). Jesus havia dito repetidas vezes que um juízo terrível viria sobre “esta geração” (Mt 23.36; 24.34). Esse juízo foi a queda de Jerusalém, juntamente com a destruição do Templo e do sistema sacrificial. É isso que Pedro tem em mente.

 

Céus e terra: linguagem de Criação e de Aliança

Quando Pedro fala da destruição dos “céus e terra que agora existem” (2Pe 3.7), muita gente já imagina a galáxia explodindo, não é mesmo? Mas a Bíblia usa a expressão “céus e terra” com um alcance mais amplo do que simplesmente matéria + espaço. Em Isaías 51.15-16, Deus fala do êxodo (saída do Egito) e diz que, ao libertar Israel, Ele “plantou os céus” e “fundou a terra”, para dizer a Sião: “Tu és o meu povo”. A formação de Israel como povo, com sua lei, culto e governo, é descrita como uma espécie de criação. Deus organizou um mundo; uma ordem civil e religiosa.

Por isso, quando os profetas falam da queda de um império ou de um sistema, eles usam exatamente essa linguagem do universo em colapso:

 

·        Isaías 34.4 fala dos céus se enrolando como um livro e astros caindo. Mas o contexto é o juízo sobre Edom.


·        Jeremias 4.23-26 descreve a destruição iminente de Jerusalém (em 587 a.C.) como se fosse uma “des-criação”. Ele fala da terra assolada e vazia e os céus sem luz.

 

Assim, os “céus e terra” podem significar uma ordem de mundo, uma estrutura de aliança. Deus criou, por assim dizer, o “mundo de Israel” na aliança mosaica. Esse “mundo” tinha seu centro no Templo, nos sacrifícios, nos sacerdotes e nas festas. Quando Pedro fala dos “céus e terra que agora existem” sendo destruídos, ele está falando dessa ordem antiga, do mundo do Antigo Pacto. E quando ele fala de “novos céus e nova terra” (2Pe 3.13), está falando da Nova Ordem do Evangelho, isto é, da Nova Aliança em Cristo.

 

O que são os “elementos” que se desfazem?

O apóstolo Pedro, nos versículos 10 e 12, afirma que “os elementos, ardendo, se desfarão”. Muitos supõem que isso seja linguagem de física: átomos, prótons, elétrons. Mas o Novo Testamento nunca usa o termo grego stoicheia (elementos) para falar da matéria do universo. Na verdade, a palavra sempre se refere aos “rudimentos” e “princípios” religiosos da antiga ordem. Vejamos alguns exemplos:

 

·        Gálatas 4.3, 9-10: antes de Cristo, estávamos “sob os rudimentos (stoicheia) do mundo”. Paulo relaciona isso com guardar dias, meses, tempos e anos. É uma linguagem do calendário religioso.


·        Colossenses 2.8, 20-21: Paulo fala dos “rudimentos (stoicheia) do mundo” ligados a ordenanças como “não toques, não proves, não manuseies”.


·     Hebreus 5.12: o autor fala dos “primeiros rudimentos (stoicheia) das palavras de Deus”, referindo-se às verdades básicas do Antigo Pacto, ligadas à revelação anterior.

 

Em todos esses textos, os “elementos” são estruturas religiosas provisórias, ou seja, sombras que apontavam para Cristo, mas que não podiam permanecer após a vinda dEle. Então, quando Pedro diz que os “elementos” vão se desfazer em fogo, ele está falando da total dissolução do sistema mosaico: sacrifícios, rituais, calendário. Tudo aquilo que era sombra e deveria ceder lugar à realidade em Cristo.

 

“Já está acontecendo”

Um detalhe que costuma sumir em muitas traduções é o tempo verbal dos verbos em 2 Pedro 3.11-12. No grego, Pedro fala de coisas que “estão sendo dissolvidas” e “estão sendo fundidas”. Em outras palavras, o colapso daquele “mundo” já havia começado. O Antigo Pacto já estava “envelhecido” e “perto de acabar” (Hb 8.13). Com a morte e ressurreição de Cristo, o Templo de pedra tinha os dias contados, porque o verdadeiro Templo – o corpo físico de Cristo e agora a Igreja – já havia sido levantado.

Por isso, Pedro exorta os seus leitores a viverem de maneira santa, justamente porque estavam diante de um juízo iminente: “Aguardando e apressando a vinda do dia de Deus [...]” (2Pe 3.12). Essa urgência é dirigida a eles, àquela geração. Seria estranho usar essa linguagem para falar de algo que só aconteceria dois mil anos depois.

 

“Um dia como mil anos”: Deus anulando o tempo?

Pedro diz ainda: “Um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia” (2Pe 3.8). Muita gente usa esse versículo para dizer o seguinte: “Quando a Bíblia fala ‘em breve’, isso pode significar alguns milênios, pois Deus conta o tempo diferente de nós”. E agora? O que pensar?

A verdade é que isso destrói o argumento de Pedro. Ele está justamente dizendo que Deus não retarda a Sua promessa (2Pe 3.9). A citação do Salmo 90.4 não serve para esvaziar as palavras de tempo (“próximo”, “às portas”, “em breve”), mas para mostrar que o aparente atraso não significa esquecimento ou infidelidade da parte do Senhor. O sentido é que Deus não é limitado pelo tempo. Se Ele promete algo, pode parecer demorado para nós, mas Ele é absolutamente fiel para cumprir. Portanto, o que o Senhor disse que estava perto, estava perto, de fato. Não podemos transformar “perto” em “talvez daqui a alguns milênios”.

 

Onde a Bíblia promete “Novos Céus e Nova Terra”?

Pedro diz: “Nós, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra, em que habita a justiça” (2Pe 3.13). De onde vem essa promessa? Ela vem do Antigo Testamento, especificamente de Isaías 65.17 e 66.22. E o contexto de Isaías 65–66 é muito revelador. Ali Deus promete criar “Novos Céus e Nova Terra”. Nessa realidade ainda há nascimento e morte (Is 65.20); há construção de casas, plantação de vinhas e trabalho frutífero (65.21-23); e há nações vindo adorar ao Senhor (66.18-23).

Diferente do que muitos pensam, Isaías não está descrevendo o estado eterno depois da ressurreição final, mas sim, a era do Evangelho, a Nova Ordem inaugurada por Cristo que está avançando na história. É a Nova Criação acontecendo agora, enquanto o Reino de Deus cresce no mundo, enquanto o Evangelho se espalha e as nações se rendem a Jesus.

Os Novos Céus e a Nova Terra não quer dizer que Deus jogou fora o universo antigo e fez outro do zero. Na verdade, indica uma renovação de aliança, um novo arranjo de mundo, agora centrado em Cristo, e não mais no Templo de Jerusalém.

 

E o que tudo isso tem a ver com a nossa vida?

Se 2 Pedro 3 fala primariamente da Queda de Jerusalém e do fim da ordem do Antigo Pacto, o que isso tem a ver conosco? Muita coisa.


(1) Confirma que Deus é fiel e julga na história: O Senhor cumpriu exatamente o que prometeu sobre “esta geração”. Isso nos dá segurança para crer em todas as Suas demais promessas.


(2) Mostra que já vivemos nos “Novos Céus e Nova Terra”: Paulo disse: “Se alguém está em Cristo, é nova criação” (2Co 5.17). Hebreus afirma que já chegamos à “Jerusalém celestial” (Hb 12.22). João, em Apocalipse 21.5, vê um “novo céu e nova terra” e, logo em seguida, ouve: “Eis que faço novas todas as coisas”. Tempo presente! A Nova Criação já começou com Cristo e se manifesta na Igreja.


(3) Alimenta um otimismo cristão sobre a história: Pedro diz que nessa Nova Ordem é onde “habita a justiça” (2Pe 3.13). Isso não significa que não haja pecado, mas que a justiça de Cristo está agora em processo de conquistar o mundo. O Reino recebido é “inabalável” (Hb 12.28). Em vez de um Cristianismo derrotista, esperando o mundo piorar até colapsar, somos chamados a crer que o Evangelho avança no mundo, derrubando os ídolos e convertendo as nações.


(4) Nos chama a uma vida santa e engajada: Se vivemos na era da Nova Criação, a nossa vida deve ser um sinal dessa realidade. Santidade, justiça, misericórdia, trabalho, cultura cristã, famílias fortes, igrejas fiéis, tudo isso deve ser nítido em nosso meio. É isso que Pedro diz: “Havendo, pois, de perecer todas estas coisas, que pessoas vos convém ser em santo trato e piedade” (2Pe 3.11).


Portanto, 2 Pedro 3 nos fornece uma esperança histórica. Deus já abalou os velhos céus e a velha terra da Antiga Aliança. O Reino de Cristo já foi inaugurado e não pode ser abalado. Vivemos, pela graça, dentro dos “Novos Céus e Nova Terra” da era do Evangelho. A nossa tarefa é cooperar, em obediência, para que a justiça que já habita nessa Nova Criação se manifeste cada vez mais “até que a terra se encha do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar” (Is 11.9).