pub-9363386660177184 Pensando as Escrituras

 

Muito antes do Novo Testamento revelar a Pessoa e a obra de Jesus Cristo, o Antigo Testamento já anunciava o domínio universal do Messias sobre as nações. Dois salmos, em particular, ganham destaque: o Salmo 2 e o Salmo 110. Ambos são citados repetidamente pelos apóstolos no Novo Testamento para descrever a exaltação de Cristo e o alcance do Seu reinado. E ambos oferecem um poderoso fundamento para a esperança pós-milenista, ou seja, a convicção de que o governo de Cristo se estenderá, de fato, sobre todas as nações da terra antes de Sua Segunda Vinda.

Esses salmos são profecias messiânicas, inspiradas pelo Espírito Santo, que revelam o plano eterno de Deus para o Seu Filho e para a humanidade. Compreendê-los é essencial para qualquer cristão que deseja aprofundar a sua compreensão sobre o que a Escritura ensina a respeito do futuro do Reino de Deus na história.

 

O Salmo 2 e a rebelião fracassada das nações

 

O Salmo 2 começa com uma cena de rebelião cósmica: “Por que se amotinam as nações, e os povos imaginam coisas vãs? Os reis da terra se levantam, e os príncipes juntamente se aconselham contra o SENHOR e contra o seu ungido” (Sl 2.1-2). As nações da terra, representadas por seus reis e governantes, conspiram contra Deus e contra o Seu Messias, buscando romper as amarras da Sua autoridade e livrar-se do Seu governo.

A reação de Deus a essa rebelião, porém, é de absoluta soberania e até mesmo de ironia: “Aquele que habita nos céus se rirá; o Senhor zombará deles” (Sl 2.4). A conspiração das nações contra o Senhor e o Seu ungido não representa ameaça alguma ao trono de Deus, mas apenas revela a insensatez humana diante da majestade divina.

É nesse contexto que o Senhor declara a exaltação do Seu Filho: “Eu, porém, tenho estabelecido o meu Rei sobre o meu santo monte de Sião. Publicarei o decreto: o SENHOR me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” (Sl 2.6-7). Essa mesma declaração é aplicada diretamente a Jesus no Novo Testamento, tanto em Seu batismo (Mt 3.17) quanto em Sua ressurreição (At 13.33), confirmando, assim, que o Rei prometido pelo Salmo 2 é, de fato, o próprio Cristo.

 

O domínio universal prometido ao Filho

 

O que torna o Salmo 2 particularmente relevante para a esperança pós-milenista é a promessa que Deus faz ao Seu Filho logo em seguida: “Pede-me, e eu te darei as nações por herança, e por tua possessão os fins da terra” (Sl 2.8). Essa é uma promessa de domínio real e efetivo sobre as nações da terra, até os seus confins mais distantes.

O versículo seguinte descreve a extensão desse domínio em termos de autoridade absoluta: “Tu os esmigalharás com uma vara de ferro; tu os despedaçarás como a um vaso de oleiro” (Sl 2.9). Essa imagem comunica a ideia de que nenhum poder humano será capaz de resistir permanentemente ao avanço do governo do Messias sobre as nações. Aquilo que hoje ainda se opõe ao Evangelho será, progressivamente, subjugado pelo poder de Cristo.

O salmo termina com um convite aos reis e juízes da terra, que não é de destruição imediata, mas de arrependimento e submissão: “Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos instruir, juízes da terra. Servi ao SENHOR com temor, e alegrai-vos com tremor” (Sl 2.10-11). Essa é, precisamente, a expectativa pós-milenista: as nações, uma a uma, através da pregação fiel do Evangelho, se renderão ao senhorio de Cristo, beijando o Filho em sinal de submissão e adoração (Sl 2.12), até que o Seu domínio se estenda sobre toda a terra.

 

O Salmo 110 e o reinado presente do Messias

 

Se o Salmo 2 anuncia a promessa do domínio universal do Filho, o Salmo 110 revela o processo através do qual esse domínio se realiza na história. Sem dúvida, é um dos salmos messiânicos mais citados no Novo Testamento, aplicado por Jesus a Si mesmo (Mt 22.44) e retomado por diversos autores apostólicos para explicar a exaltação de Cristo.

O salmo começa com uma declaração: “Disse o SENHOR ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés” (Sl 110.1). Trata-se de um diálogo entre duas Pessoas divinas, o Senhor (Javé) e o Senhor do salmista (o Messias), no qual o Primeiro convida o Segundo a assentar-se em posição de honra e autoridade suprema, à Sua direita, enquanto os inimigos do Messias são progressivamente sujeitados.

Assim como em 1 Coríntios 15.25, onde Paulo cita diretamente esse versículo, fica evidente que o reinado do Messias é uma realidade presente, já em pleno exercício desde a Sua exaltação à direita do Pai. Cristo está assentado e reinando. E a sujeição dos Seus inimigos é um processo em curso, e não um evento distante.

 

O cetro que se estende desde Sião

 

O salmo continua descrevendo a extensão geográfica desse reinado: “O SENHOR enviará de Sião o cetro do teu poder; domina no meio dos teus inimigos” (Sl 110.2). O cetro é um símbolo de autoridade real. Ele tem sua origem em Sião, a cidade de Jerusalém, mas não permanece restrito a ela. O cetro se estende, alcançando um território cada vez maior, dominando precisamente no meio dos inimigos, ou seja, avançando sobre os territórios ainda hostis ao Seu governo.

Essa imagem harmoniza-se perfeitamente com a visão pós-milenista da expansão progressiva do Reino de Deus. O Evangelho não avança apenas em territórios já favoráveis ou neutros, mas ele penetra justamente onde existe resistência, oposição e incredulidade, subjugando os corações endurecidos e transformando culturas inteiras através do poder do Espírito Santo.

O salmo ainda descreve o exército voluntário que acompanha o Messias em Sua conquista: “Ao dia do teu poder, o teu povo se apresentará voluntariamente em santa formosura, como orvalho nascido da madrugada; assim será a tua mocidade” (Sl 110.3). Essa multidão de voluntários, dispostos e consagrados, representa a Igreja de Cristo ao longo dos séculos, aqueles que, movidos pelo Espírito Santo, se entregam de bom grado à causa do Reino, participando do avanço do Evangelho sobre as nações.

 

O sacerdócio eterno e a vitória final

 

O Salmo 110 também revela outra dimensão da obra do Messias: “Jurou o SENHOR, e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque” (Sl 110.4). Essa profecia é amplamente desenvolvida na carta aos Hebreus, que dedica capítulos inteiros para demonstrar como Cristo é, simultaneamente, Rei e Sacerdote eterno, unindo em Si mesmo a autoridade régia e a intercessão sacerdotal.

Essa dupla função é fundamental para a esperança pós-milenista. Cristo não apenas reina com poder soberano sobre as nações, mas também intercede continuamente pelo Seu povo diante do Pai, sustentando espiritualmente aqueles que participam da missão de discipular as nações. O salmo conclui com uma imagem de vitória definitiva: “Ele beberá do ribeiro no caminho; por isso, exaltará a cabeça” (Sl 110.7). O caminho pode envolver cansaço e dificuldade, representado pela imagem de beber do ribeiro à beira do caminho, mas o desfecho é certo. A exaltação é plena e definitiva.

 

A única prática coerente diante dessas promessas

 

Diante de promessas tão grandiosas quanto as reveladas nos Salmos 2 e 110, a resposta do cristão pós-milenista se resume, exclusivamente, a duas atitudes reverentes e inegociáveis: orar e pregar.

Orar, porque é diante do trono de Deus, em intercessão fervorosa, que o crente clama pela extensão do cetro de Cristo sobre nações ainda resistentes ao Evangelho, pedindo, como o próprio salmo ensina, que o Senhor envie de Sião o poder do Seu Filho sobre os territórios de trevas. E pregar, porque é através da proclamação fiel da cruz e da ressurreição que o Espírito Santo desperta, em meio às nações, aquele povo voluntário e consagrado mencionado no salmo, disposto a servir ao Rei dos reis com alegria e reverência.

 

Adorando o Rei anunciado desde a antiguidade

 

Contemplar os Salmos 2 e 110 é contemplar o eterno plano de Deus para o seu Filho, revelado séculos antes do Seu nascimento em Belém, mas já plenamente confirmado em Sua ressurreição e exaltação à direita do Pai. Cristo é o Senhor ungido a quem foram prometidas as nações por herança, e cujo cetro de poder continua avançando, mesmo agora, sobre os territórios ainda hostis ao Seu governo.

Que essas verdades transbordem em adoração reverente diante dAquele que está assentado à direita do Pai. E também em súplicas ardentes para que o Seu Reino continue avançando sobre as nações, até que todo joelho se dobre diante do Filho, como o próprio salmo antecipa: “Beijai o Filho, para que se não ire, e não pereçais no caminho, quando em breve se acender a sua ira. Bem-aventurados todos os que nele confiam” (Sl 2.12).

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Certamente, você conhece essa porção das Escrituras. Embora seja um texto frequentemente lido como parte do grande capítulo sobre a ressurreição dos mortos, ele contém uma das mais poderosas afirmações sobre a natureza do reinado atual de Cristo. Esse precioso texto nos revela o processo pelo qual Deus está, agora mesmo, conduzindo a história rumo a esse desfecho glorioso.

Enquanto muitos cristãos associam o capítulo 15 de 1 Coríntios exclusivamente à doutrina da ressurreição corporal, é justamente dentro desse contexto que Paulo ensina a grande verdade escatológica de que Jesus reina nesse exato momento. Além disso, o reinado do Senhor tem o propósito infalível de sujeitar progressivamente todos os inimigos de Deus, até o último deles, a morte.


A ressurreição como fundamento da esperança cristã


Por que Paulo escreveu esse capítulo? Ele escreveu porque alguns da igreja de Corinto duvidavam da ressurreição dos mortos (1Co 15.12). Toda a argumentação do apóstolo serve para mostrar que a ressurreição de Cristo é o fundamento da fé cristã e a garantia da nossa própria ressurreição futura. É dentro dessa lógica que Paulo introduz uma sequência de eventos escatológicos, revelando a ordem em que Deus está conduzindo a história até a consumação final.

Ele diz: “Mas cada um por sua ordem: Cristo as primícias, depois os que são de Cristo, na sua vinda. Então virá o fim, quando tiver entregado o reino a Deus, o Pai, e quando houver aniquilado todo o império, e toda a potestade e força” (1Co 15.23,24). Note a sequência: primeiro Cristo ressuscita, depois os que são dele ressuscitarão na Sua Vinda, e só então virá o fim. Entre a ressurreição de Cristo e o fim, existe um período intermediário, no qual algo precisa acontecer.


O que acontece no período intermediário


E o que acontece nesse tempo entre a ressurreição de Cristo e o fim de todas as coisas? Paulo responde: “Porque convém que Ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo de Seus pés” (1Co 15.25). Cristo não está ausente do trono, esperando o momento de assumir o governo apenas quando Ele retornar. Desde a Sua ressurreição e ascensão, o Senhor reina. O Seu reinado tem uma finalidade específica, isto é, sujeitar totalmente todos os Seus inimigos.

Essa afirmação de Paulo é, na verdade, uma citação direta do Salmo 110, um dos textos messiânicos mais importantes de todo o Antigo Testamento: “Disse o SENHOR ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés” (Sl 110.1). O próprio Jesus aplicou esse Salmo a Si mesmo (cf. Mt 22.44). E os apóstolos também o citaram repetidamente para demonstrar que a exaltação de Cristo à direita do Pai indica um reinado ativo e conquistador.


A sujeição progressiva de todo inimigo


É muito importante perceber que o texto não fala de um evento instantâneo e único, mas de um processo. A palavra “até” (1Co 15.25) indica continuidade, ou seja, um caminho sendo percorrido, um reinado em pleno exercício, avançando sobre todo poder que se opõe a Deus. Isso inclui, segundo o próprio Paulo, “todo império, e toda a potestade e força” (1Co 15.24), ou seja, todas as estruturas de poder, sejam elas espirituais, políticas ou culturais, que resistem à soberania de Cristo.

E qual é o último desses inimigos a ser vencido? Paulo diz: “Ora, o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte” (1Co 15.26). A morte, consequência do pecado desde o Éden, será o derradeiro poder a ser subjugado, e isso se dará plenamente na ressurreição final, quando todos os que são de Cristo forem revestidos da incorruptibilidade (1Co 15.53-54). Até lá, o reinado de Cristo continuará avançando, sujeitando gradualmente outros poderes, como toda forma de pecado, idolatria e opressão.


A entrega do Reino ao Pai


Paulo conclui essa sequência com uma imagem belíssima: “E, quando todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então também o mesmo Filho se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos” (1Co 15.28). Quando a obra de sujeição estiver completa, quando o último inimigo, a morte, for aniquilado, o Filho entregará o Reino ao Pai. Isso acontecerá para que a glória de Deus seja plena e definitivamente estabelecida, sem qualquer resquício de rebelião ou oposição em toda a Criação.

Esse é o alvo final da história: Deus sendo tudo em todos. E o caminho até esse alvo não é uma decadência progressiva do mundo, mas exatamente o oposto, um avanço contínuo do reinado de Cristo, sujeitando, passo a passo, tudo aquilo que ainda resiste à Sua imbatível soberania.


Por que esse texto sustenta a esperança pós-milenista?


A visão pós-milenista encontra em 1 Coríntios 15.24-28 uma de suas bases mais firmes, justamente porque o texto descreve o reinado de Cristo como algo presente e progressivamente vitorioso, e não como algo reservado para um futuro reinado milenar literal, após a Segunda Vinda. Se o reinado do Senhor Jesus avança, hoje, sujeitando inimigo após inimigo, então a história não caminha para um colapso generalizado antes do Seu glorioso Retorno, mas sim, para uma vitória cada vez mais evidente do Seu governo sobre as nações, até que, no fim, a morte seja definitivamente aniquilada na ressurreição.

Isso, é claro, não significa o fim da resistência ou do sofrimento ao longo do caminho. A Escritura não promete uma história isenta de dificuldades. Mas significa, sim, que a direção da história é a vitória, e não a derrota, e que cada avanço do Evangelho (em genuínas conversões e transformações), é parte visível desse reinado que já começou e que continuará avançando até a consumação final.


A prática do pós-milenista diante dessa verdade


Diante de uma verdade tão grandiosa quanto essa, alguns podem ser tomados por diversas reações, seja pelo entusiasmo, pela curiosidade teológica, ou até mesmo, por especulações sobre tempos e estratégias humanas. Mas a resposta a essa esperança se resume, na verdade, a apenas duas atitudes simples, porém, inegociáveis: orar e pregar.

Orar, porque é diante do trono de Deus, em intercessão fervorosa, que participamos dessa obra de sujeição dos inimigos, clamando pelo avanço do Reino sobre as famílias, cidades e nações. E pregar, porque é através da proclamação fiel do Evangelho que Cristo continua exercendo o Seu domínio sobre os corações, arrancando-os do poder das trevas e transferindo-os para o seu Reino de luz. Saiba que não há espaço para estratégias humanas de conquista. Existe, sim, um chamado para orar com fé e pregar com coragem, confiando que é o próprio Cristo, assentado à direita do Pai, quem está sujeitando os Seus próprios inimigos.


Adorando o Rei que já reina


Diante de tudo o que Paulo disse em 1 Coríntios 15.24-28, a melhor resposta que podemos dar não é somente entender isso intelectualmente, mas adorar o Senhor com todo o nosso ser. Precisamos contemplar o Cristo que está, nesse exato momento, assentado em glória, reinando soberanamente e conduzindo a história rumo à sujeição total de todo mal. Isso deve encher a nossa alma de sincera reverência e confiança.

Que essa verdade transborde em joelhos dobrados diante do Senhor e em lábios que anunciam o Evangelho de Jesus Cristo. Aquele que já venceu a morte na cruz e ressuscitou ao terceiro dia continua, hoje, reinando até que todo joelho se dobre e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai (Fp 2.10-11).

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Nenhum texto escatológico é tão debatido quanto Apocalipse 20. É dele que veio o termo técnico “Milênio”. É também sobre a interpretação dessa passagem que surgiram as principais divergências entre pré-milenistas, amilenistas e pós-milenistas. Algumas perguntas brotam em nossa mente a partir da leitura desse capítulo, como, por exemplo: “Os mil anos são literais ou simbólicos?”, “Esse reinado já começou ou ainda virá?”, “Quem está reinando e onde?”. Assim, esse artigo pretende caminhar com cuidado por esse texto, buscando responder a essas perguntas à luz do contexto do próprio livro do Apocalipse e da analogia da Escritura.


O gênero literário de Apocalipse

 

Antes de interpretar qualquer parte de Apocalipse 20, precisamos lembrar que o livro de Apocalipse pertence ao gênero literário apocalíptico, o que significa que se trata de uma obra repleta de símbolos, números e visões que raramente devem ser lidos de forma estritamente literal. O próprio livro se autodenomina “revelação” dada “por sinais” (cf. Ap 1.1. No grego, esēmanen [εσημανεν] carrega a ideia de comunicação simbólica). Isso não significa que o Apocalipse não fale de realidades concretas, mas que a linguagem usada para descrevê-las é, com frequência, figurada.

Basta observar o restante do livro para perceber isso: um cordeiro com sete chifres e sete olhos (Ap 5.6), uma mulher vestida do sol com a lua debaixo dos pés (Ap 12.1), uma besta com dez chifres e sete cabeças (Ap 13.1), etc. Ninguém interpreta esses elementos de forma literal. Por que, então, insistir em uma leitura estritamente literal apenas quando o texto menciona “mil anos” (Ap 20.2-7)? A coerência interpretativa exige que também esse número seja lido dentro do mesmo padrão simbólico que caracteriza todo o livro.


O contexto imediato: a visão da vitória sobre Satanás


Apocalipse 20 começa com a seguinte cena: “Vi descer do céu um anjo, que tinha a chave do abismo, e uma grande cadeia na sua mão. Ele prendeu o dragão, a antiga serpente, que é o Diabo e Satanás, e o amarrou por mil anos” (Ap 20.1-2). O propósito dessa prisão é explicado logo em seguida: “Para que não mais engane as nações, até que os mil anos se acabem” (Ap 20.3).

Note que o texto não fala de Satanás sendo totalmente destruído, mas de ter sua capacidade de “enganar as nações” restringida durante esse período. Essa limitação encontra eco em outra passagem do Novo Testamento, quando Jesus, respondendo aos que O acusavam de expulsar demônios pelo poder do próprio Satanás, explica: “Como pode alguém entrar na casa do valente, e roubar-lhe os bens, se primeiro não amarrar o valente?” (Mc 3.27). O próprio ministério de Jesus, especialmente os exorcismos, já demonstrava esse amarrar de Satanás, restringindo o seu poder de dominar as nações através da idolatria e da escravidão espiritual.


Quando começa o Milênio?


Se a prisão de Satanás está relacionada à obra de Cristo, a pergunta que surge é: “Quando ela ocorre?” A resposta mais coerente aponta para a Primeira Vinda de Cristo, especificamente para a Sua morte, ressurreição e ascensão. O próprio Jesus disse, ao ver os setenta discípulos retornando com relatos de vitória sobre os demônios: “Eu via Satanás, como raio, cair do céu” (Lc 10.18). E momentos antes da crucificação, Jesus afirmou: “Agora é o juízo deste mundo; agora será expulso o príncipe deste mundo” (Jo 12.31).

Esses textos indicam que a derrota decisiva de Satanás não é um evento futuro, mas algo já realizado através da obra redentora de Cristo na cruz e confirmado em Sua ressurreição. O Milênio de Apocalipse 20, portanto, descreve um período longo de tempo que se estende desde a Primeira Vinda de Cristo até a Segunda Vinda, durante o qual o poder de Satanás para impedir o avanço do Evangelho entre as nações está restringido.


Quem reina durante o Milênio?


Apocalipse 20.4 menciona as almas que reinaram com Cristo durante mil anos: “Vi tronos; e assentaram-se sobre eles, e foi-lhes dado o poder de julgar; e vi as almas daqueles que foram degolados pelo testemunho de Jesus e pela palavra de Deus, e que não adoraram a besta, nem a sua imagem, e não receberam o sinal em suas testas, nem em suas mãos; e viveram, e reinaram com Cristo durante mil anos”.

Observe que o texto fala de almas, e não de corpos ressuscitados vivendo sobre a terra. Isso sugere que essa cena descreve a condição presente dos crentes que já morreram, especialmente os mártires, reinando com Cristo no estado intermediário, no céu, enquanto aguardam a ressurreição final. Paulo confirma essa mesma ideia ao afirmar que os crentes já foram feitos assentar “nos lugares celestiais em Cristo Jesus” (Ef 2.6).

Isso significa que o reinado descrito em Apocalipse 20 não é exclusivo de uma futura era terrena, mas abrange tanto o reinado espiritual de Cristo exercido na terra através da Igreja, quanto o reinado dos santos já falecidos junto a Cristo no céu, ambos ocorrendo simultaneamente durante esse mesmo período simbólico chamado de “mil anos”.


A primeira e a segunda ressurreição


O texto menciona também uma “primeira ressurreição” (Ap 20.5-6), afirmando que “bem-aventurado e santo é aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre estes não tem poder a segunda morte”. Muitos interpretam essa primeira ressurreição como corporal e futura, mas o próprio Evangelho de João já havia preparado o terreno para uma leitura diferente: “Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus e os que a ouvirem viverão” (Jo 5.25).

Essa ressurreição que já está acontecendo é a ressurreição espiritual, a passagem da morte para a vida através da fé em Cristo (Ef 2.1-5). A primeira ressurreição de Apocalipse 20 pode ser entendida como essa mesma realidade espiritual, a regeneração e a entrada na vida eterna concedida a todo aquele que crê, enquanto a segunda ressurreição seria a ressurreição corporal final, no último dia.


O que isso significa para a esperança pós-milenista


Compreender que o Milênio, como um longo período simbólico já em curso desde a primeira vinda de Cristo, marcado pela restrição do poder de Satanás sobre as nações e pelo reinado presente de Cristo tanto na terra quanto no céu, fortalece a nossa convicção de que Cristo não está esperando um momento futuro para começar a reinar. O Senhor está reinando e o “amarrar” de Satanás já permite que o Evangelho avance livremente entre as nações, como o próprio Jesus prometeu ao dizer que a casa do valente já pode ser saqueada (Mc 3.27).

Diante de um texto tão debatido, a atitude mais sábia não é o orgulho intelectual de quem julga ter resolvido todo o mistério, mas sim, a humildade de quem reconhece que já está reinando com Cristo, ainda que de forma parcial e velada, aguardando a plena manifestação dessa vitória.

Além disso, orar e pregar são práticas que resultam dessa esperança. Orar, pedindo que o Senhor continue restringindo o poder do inimigo sobre as nações ainda enganadas pela idolatria e pela incredulidade. E pregar, pois é através da proclamação fiel do Evangelho que a casa do valente continua sendo saqueada, e almas continuam sendo arrancadas do domínio das trevas para o Reino do Filho amado de Deus (Cl 1.13). Que essa verdade gere adoração. Bendito seja Aquele que já amarrou o valente e que continua, hoje, libertando os cativos através do Evangelho pregado com fé.

Se esse texto despertou em você o desejo de estudar um pouco mais, convido você a conhecer meu livro “Vivendo Como um Pós-Milenista”. E não deixe de se inscrever no canal Pensando as Escrituras, no YouTube, onde continuamos, juntos, contemplando a Palavra de Deus e exaltando o nome glorioso do nosso Senhor Jesus Cristo.


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Poucos textos da Bíblia geram tanta confusão e tanto medo entre os cristãos quanto Mateus 24. Lemos sobre guerras, fomes, terremotos, sinais no sol e na lua, tribulação como nunca houve, o abominável da desolação, etc. Quando lido de forma desatenta, muitos enxergam nesse capítulo uma descrição detalhada do fim do mundo, algo ainda por acontecer em nossos dias. Contudo, uma leitura mais cuidadosa do texto, atenta ao seu contexto histórico e às próprias palavras de Jesus, revela que essas profecias já se cumpriram na destruição de Jerusalém e do Templo, ocorrida no ano 70 DC.

Essa visão hermenêutica é conhecida como Preterismo Parcial, que sustenta que boa parte das profecias de Mateus 24 (ou todas elas, dependendo da linha preterista parcial defendida) se refere a eventos já cumpridos no primeiro século, sem negar, contudo, a futura e gloriosa volta de Cristo. Essa leitura do texto, unida à esperança pós-milenista, nos liberta do medo de um colapso iminente e, ao mesmo tempo, nos direciona para a certeza de que Cristo continuará reinando até que todos os Seus inimigos sejam subjugados.

 

O contexto da pergunta dos discípulos

 

Tudo começa com um diálogo aparentemente simples, porém, fundamental para a correta interpretação do capítulo. Jesus havia acabado de sair do Templo quando declarou aos discípulos algo impactante: “Não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada” (Mt 24.2). Diante dessa afirmação, os discípulos perguntaram: “Dize-nos, quando serão essas coisas, e que sinal haverá da tua vinda e do fim do mundo?” (Mt 24.3).

É importante perceber que essa pergunta foi motivada diretamente pela previsão da destruição do Templo. Os discípulos queriam saber quando aquilo aconteceria e qual seria o sinal desse evento específico. Portanto, o discurso de Jesus que se segue deve ser lido como resposta a essa pergunta sobre a destruição do Templo de Jerusalém, e não como uma descrição detalhada e distante do fim absoluto da história.

 

E não passará esta geração”: a chave interpretativa

 

O texto mais decisivo para a leitura preterista parcial está no versículo 34: “Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas essas coisas aconteçam” (Mt 24.34). Jesus não disse “aquela geração”, nem “uma geração futura e distante”. Ele afirmou que a geração à qual Ele estava falando, aquela mesma que O ouvia naquele momento, veria o cumprimento de tudo o que fora descrito anteriormente.

Ora, a geração de um homem, na linguagem bíblica e no uso comum da época, corresponde a cerca de 40 anos. E é exatamente esse o intervalo entre as palavras de Jesus, ditas por volta do ano 30 DC., e a destruição de Jerusalém pelas legiões romanas comandadas por Tito, no ano 70 DC. A história confirma, com precisão impressionante, a exatidão da profecia de Jesus, pois, de fato, o Templo foi completamente destruído, e não restou pedra sobre pedra, exatamente como Ele havia anunciado.

 

Os sinais cumpridos no primeiro século

 

Vários elementos descritos por Jesus em Mateus 24 encontram correspondência direta com os eventos documentados pela história do primeiro século, especialmente pelos registros do historiador judeu Flávio Josefo (37 DC—ca. 100 DC), que foi uma testemunha ocular do cerco de Jerusalém.

Jesus falou de guerras e rumores de guerras (Mt 24.6), e o período que antecedeu o ano 70 foi marcado por intensa instabilidade política no Império Romano e por revoltas judaicas. Ele mencionou fome e terremotos em diversos lugares (Mt 24.7) e, realmente, eventos dessa magnitude foram amplamente registrados por historiadores da época. Jesus também falou da Grande Tribulação “qual nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem tampouco há de haver” (Mt 24.21). Essa declaração do Senhor encontra um eco terrível nos relatos de Josefo sobre o cerco de Jerusalém, quando a fome implacável levou a cidade a cenas de horror indescritível.

O “abominável da desolação, predito pelo profeta Daniel” (Mt 24.15) é compreendido, por muitos estudiosos preteristas, como referência à profanação do Templo pelas tropas romanas ou pelos próprios zelotes judeus que ocuparam o santuário durante o cerco. Jesus instruiu dizendo que, ao verem esse sinal, os que estivessem na Judeia deveriam fugir para os montes (Mt 24.16). Há registros históricos de que a comunidade cristã de Jerusalém, lembrando-se dessas palavras, de fato fugiu para a cidade de Pella antes do início do cerco final, sendo, dessa forma, poupada da cruel destruição.

 

E os sinais no sol, na lua e nas estrelas?

 

Um dos pontos que mais geram dúvidas está na passagem que descreve o sol escurecendo, a lua não dando a sua claridade, e as estrelas caindo do céu (Mt 24.29). À primeira vista, esses versículos parecem indicar um evento cósmico literal, associado ao fim absoluto do Universo. É assim que muitos entendem. Contudo, essa mesma linguagem é utilizada no Antigo Testamento como figura de linguagem para descrever o julgamento do Senhor sobre nações e cidades, sem que isso implique, necessariamente, o fim literal do cosmos.

O profeta Isaías, ao anunciar o julgamento sobre a Babilônia, usou uma expressão semelhante: “As estrelas dos céus, e as suas constelações, não deixarão brilhar a sua luz; o sol se escurecerá ao nascer, e a lua não resplandecerá com a sua luz” (Is 13.10). Ninguém interpreta essa passagem como uma descrição literal do fim do Universo físico, mas sim, como linguagem apocalíptica para anunciar a queda de um poder político e religioso. Da mesma forma, Jesus usa essa linguagem simbólica, comum aos profetas do Antigo Testamento, para anunciar o fim do sistema religioso judaico centrado no templo de Jerusalém, que até então representava, aos olhos de Israel, a própria estrutura do mundo.

 

O que continua futuro? A Segunda Vinda de Cristo

 

É importante deixar claro que a leitura preterista parcial não nega a Segunda Vinda de Cristo, nem transforma toda a escatologia bíblica em eventos já cumpridos no passado, como faz a heresia hiperpreterista. No livro de Atos, os anjos declaram aos discípulos, logo após a ascensão do Senhor: “Este Jesus, que dentre vós foi recebido em cima no céu, há de vir assim como para o céu o vistes ir” (At 1.11). Aqui há uma promessa clara acerca do Retorno físico e visível.

Paulo, em sua primeira carta aos tessalonicenses, descreve com detalhes esse acontecimento: “Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor” (1Ts 4.16,17). Esse texto não trata de julgamento sobre uma cidade específica, mas da ressurreição geral dos mortos e do encontro definitivo da Igreja com Cristo.

Portanto, a certeza da volta gloriosa de Cristo não depende de uma leitura futurista de Mateus 24, mas está ancorada em outros textos do Novo Testamento. Isso permite ao cristão preterista parcial sustentar, com igual convicção, tanto o cumprimento integral das palavras de Jesus sobre a destruição de Jerusalém quanto a esperança viva e inabalável do Retorno pessoal, visível e glorioso do Senhor Jesus Cristo, quando toda a Criação será finalmente restaurada e “Deus será tudo em todos” (1Co 15.28).

 

Por que essa leitura sustenta a esperança pós-milenista?

 

Compreender corretamente Mateus 24 traz uma liberdade espiritual muito grande. Ao entender que a Grande Tribulação já ocorreu no primeiro século, deixamos de projetar sobre o futuro um cenário inevitável de colapso e perseguição generalizada, como se isso fosse um sinal necessário e iminente do fim do mundo. O cumprimento da Grande Tribulação abre espaço para a esperança pós-milenista, pois, depois daquele evento marcante (a destruição do antigo sistema judaico), a história passa a ser vista como um longo período de avanço do Reino de Deus sobre as nações.

A destruição do Templo marcou justamente a transição definitiva entre a Antiga Aliança e a plena era do Evangelho, livre das amarras do sistema levítico. Com o véu do Templo já rasgado (Mt 27.51) e agora com o próprio Templo destruído, nada mais impede que o Evangelho avance livremente sobre toda a Terra, cumprindo, assim, a Grande Comissão e discipulando as nações, exatamente como Cristo ordenou.

 

Vivendo com discernimento e esperança

 

Mateus 24 não deveria ser uma fonte de ansiedade para o nosso coração, nem de especulações sensacionalistas sobre datas e sinais do fim do mundo. Uma leitura cuidadosa e fiel revela um cumprimento preciso e impressionante das palavras do Senhor na destruição de Jerusalém no ano 70 DC, confirmando a absoluta confiabilidade da profecia bíblica.

Essa compreensão liberta o nosso coração do medo constante e nos direciona para uma vida de oração fervorosa e pregação fiel do Evangelho, na certeza de que Cristo reina soberanamente sobre a história e que o Seu Reino continuará avançando até a plena manifestação da Sua glória sobre todas as nações. Que essa verdade fortaleça a sua fé. Que você seja motivado a interceder com mais intensidade e a anunciar, com coragem, as boas-novas de Jesus Cristo àqueles que ainda não O conhecem.

Se você gostou desse artigo e deseja aprofundar a sua compreensão sobre a escatologia bíblica e a interpretação preterista parcial de Mateus 24, recomendo a leitura do livro “Os Últimos Dias Segundo Jesus”, de R. C. Sproul. E não deixe de se inscrever em meu canal Pensando as Escrituras, no YouTube, onde você vai encontrar muitos outros vídeos sobre escatologia pós-milenista e preterista parcial.

 

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