pub-9363386660177184 Pensando as Escrituras

A Grande Comissão não é apenas um texto bonito para colocar em cartaz de igreja, caso você já tenha reduzido essa passagem a isso. Antes de subir aos céus, o Senhor Jesus deixou aos discípulos uma ordem que ecoaria por toda a história da Igreja: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Portanto, ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos” (Mt 28.18-20).

Costuma-se ler esse texto apenas como um mandato missionário, uma tarefa a cumprir e pronto. Mas há ali algo bem mais profundo. Há uma promessa embutida na própria estrutura da ordem. Jesus não pede aos discípulos que apenas tentem alcançar as nações, tampouco que semeiem uma mensagem cujo resultado final permaneça em aberto. Ele afirma possuir toda autoridade, no céu e na terra, e é a partir dessa autoridade absoluta que Ele envia o Seu povo para discipular, de fato, todas as nações. Neste texto, eu gostaria de mostrar como a Grande Comissão sustenta a esperança pós-milenista e como ela molda, na prática, a vida de oração e a pregação do cristão comprometido com essa visão.

 

A autoridade que garante o resultado da missão

 

Quando um rei com poder limitado envia seus súditos para conquistar um território, o resultado dessa missão é incerto, pois dependente de circunstâncias, de recursos e da força do inimigo. Mas quando Jesus declara “toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28.18), Ele elimina qualquer possibilidade de fracasso. Não existe poder algum, espiritual ou terreno, capaz de resistir à Sua soberania. E é justamente sobre esse fundamento que Ele constrói a ordem seguinte: “Portanto, ide” (Mt 28.19).

Esse “portanto” é decisivo. A ida dos discípulos, a pregação do Evangelho e o discipulado das nações, tudo isso está ancorado na autoridade absoluta de Cristo. Se Jesus tivesse dito “ide, e talvez alguns aceitem”, a missão teria caráter incerto. Mas Ele diz “ide, fazei discípulos de todas as nações”, uma ordem que pressupõe, pela própria autoridade de quem a profere, que essa tarefa será, de fato, realizada ao longo da história.

 

O alcance universal da promessa

 

A expressão “todas as nações” (Mt 28.19) não é hiperbólica. Ela retoma diretamente as promessas antigas feitas a Abraão: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12.3). O que era promessa no Antigo Testamento torna-se uma ordem explícita no Novo Testamento. Essa continuidade revela o propósito eterno de Deus, ou seja, que a Sua bênção, através do Evangelho, alcance cada povo, cada língua e cada nação da terra.

Isso não significa que cada indivíduo, sem exceção, se converterá a Cristo. A Escritura sempre reconhece a existência de rejeição e incredulidade. Mas significa que nenhuma nação ficará de fora do alcance do Evangelho, e que o discipulado, entendido como a formação de comunidades de fé fiéis a Cristo dentro dessas nações, será uma realidade histórica visível, e não apenas uma esperança espiritual restrita a poucos indivíduos.

 

Não apenas evangelizar

 

Um detalhe importante do texto grego original de Mateus 28.19 é que o verbo principal da ordem não é “ide”, mas “fazei discípulos” (o particípio “indo” acompanha a ação principal). Isso muda a perspectiva da missão, pois Jesus não ordena apenas que se proclame uma mensagem, enquanto esperamos uma decisão individual, mas que se formem discípulos, pessoas ensinadas a guardar todas as coisas que Ele ordenou (Mt 28.20).

Discipular envolve um processo bem mais amplo do que a simples conversão inicial. Envolve ensino, formação de caráter, transformação de hábitos e, ao longo do tempo, a transformação das próprias estruturas culturais e sociais influenciadas por essas pessoas discipuladas. Quando o Evangelho penetra verdadeiramente uma nação, formando discípulos fiéis em número significativo, os efeitos dessa transformação não permanecem restritos à igreja local ou à vida devocional privada. Eles alcançam também as famílias, as relações de trabalho, a arte, a educação e até as leis dessas sociedades.

 

A promessa da presença de Cristo até o fim

 

Jesus encerra a Grande Comissão com uma promessa gloriosa: “E eis que eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos” (Mt 28.20). Essa promessa é a garantia de que o próprio Cristo, através do Seu Espírito, acompanhará e sustentará essa missão durante todo o tempo necessário para que ela seja cumprida.

Note que a promessa de presença cobre todo esse longo período histórico, sugerindo que a tarefa de discipular as nações não se conclui de forma instantânea, mas se estende ao longo de muitas gerações, sob a companhia fiel e constante de Cristo. Essa é exatamente a perspectiva pós-milenista: um longo processo histórico de expansão do Evangelho, sustentado pela presença permanente do Senhor, até que as nações sejam efetivamente discipuladas.

 

A relação entre a Grande Comissão e o reinado presente de Cristo

 

A Grande Comissão deve ser lida em conexão com outras passagens que descrevem o reinado atual de Cristo, como 1 Coríntios 15.25, onde Paulo afirma que “convém que Ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo de Seus pés”. Se Cristo reina com toda autoridade, e se Ele mesmo ordena o discipulado de todas as nações prometendo a Sua presença até a consumação dos séculos, essas duas verdades se entrelaçam de maneira coerente. O reinado presente de Cristo se manifesta, historicamente, através do avanço do discipulado das nações.

Isso significa que cada vez que o Evangelho penetra uma nova cultura, cada vez que uma comunidade de fé fiel se estabelece onde antes reinava a idolatria ou a incredulidade, isso é a manifestação visível do reinado de Cristo avançando sobre a terra, exatamente como Ele prometeu.

 

A prática exclusiva do pós-milenista diante da Grande Comissão

 

Diante de uma ordem tão grandiosa quanto discipular todas as nações, seria fácil o coração humano se voltar para estratégias meramente institucionais e humanas. Mas a Escritura nos ensina que a prática do cristão comprometido com essa visão se resume em duas atitudes: orar e pregar.

Orar, porque é através da intercessão fervorosa que participamos da obra de discipular as nações, clamando ao Senhor da seara que envie obreiros (Mt 9.38) e que abra portas para o avanço do Evangelho em territórios ainda resistentes. E pregar, porque é através da proclamação fiel da Palavra que os discípulos são, de fato, formados, ensinados a guardar tudo o que Cristo ordenou, cumprindo, assim, aquilo que a Grande Comissão determina.

Não há espaço para depositarmos qualquer confiança em estratégias humanas de crescimento, por mais úteis que possam ser como ferramentas. A confiança do pós-milenista está, exclusivamente, na eficácia da oração e no poder da Palavra pregada, sustentadas pela presença constante de Cristo, que prometeu estar com a Sua Igreja todos os dias, até a consumação dos séculos.

 

Uma missão certa, sustentada por um Rei Soberano

 

A Grande Comissão é uma ordem sustentada pela autoridade absoluta de Cristo e acompanhada por Sua presença permanente. Discipular todas as nações não é uma possibilidade remota, dependente de circunstâncias favoráveis, mas uma certeza histórica, garantida pelo próprio Rei que já reina sobre o céu e a terra.

Que essa verdade não permaneça apenas no campo da reflexão teológica, mas mova o nosso coração a interceder com mais fervor pelas nações ainda distantes do Evangelho, e a proclamar, com mais coragem e convicção, as boas-novas de Jesus Cristo àqueles que ainda não O conhecem. Que sigamos, em cada geração, confiando nAquele que disse “eis que Eu estou convosco todos os dias” (Mt 28.20), sabendo que essa promessa sustenta a certeza de que todas as nações, um dia, serão efetivamente discipuladas para a glória do Senhor Jesus Cristo.

Assim, fica a certeza de que a missão nunca dependeu, e jamais dependerá, da nossa força: “Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos” (Zc 4.6).

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Não, o pós-milenismo não nasceu ontem, caso você tenha essa impressão. É, na verdade, uma esperança que atravessa séculos de reflexão cristã, embora muitos insistam em tratá-la como um otimismo ingênuo, “inventado” no século XVIII ou XIX. Tenho lido, ao longo dos anos, os Pais da Igreja, os reformadores e os puritanos. O que chama minha atenção é justamente a confiança deles na vitória histórica e progressiva do Evangelho sobre as nações. Esse é um fio que atravessa gerações, mesmo antes de alguém ter cunhado o termo “pós-milenismo”.

Quero, neste artigo, apresentar um panorama dessa esperança como um testemunho de que vários cristãos de diferentes épocas, movidos por uma fé genuína na intervenção sobrenatural de Deus, acreditavam em algo muito parecido com aquilo que hoje chamamos de pós-milenismo.

 

Os Pais da Igreja já enxergavam o Evangelho avançando

 

Ainda nos primeiros séculos, quando ser cristão significava arriscar a própria vida diante do Império Romano, já encontramos vestígios de uma esperança otimista quanto ao futuro do Evangelho sobre a terra. Não, não estou dizendo que os Pais da Igreja desenvolveram um sistema escatológico pós-milenista nos moldes que conhecemos hoje. Mas muitos deles expressavam algo que se aproxima bastante disso. Eles nutriam uma profunda confiança de que o Cristianismo se espalharia e prevaleceria sobre o paganismo.

Justino Mártir, ainda no segundo século, já se admirava ao ver como o Evangelho havia se espalhado por diversas nações, apesar de toda a oposição feroz do império. Irineu de Lyon enxergava a história como um processo progressivo de recapitulação em Cristo, no qual toda a Criação caminhava, sob a mão de Deus, rumo à sua restauração final.

Mas foi com Eusébio de Cesareia, historiador do quarto século, que essa esperança ganhou contornos mais explícitos. Ao testemunhar a conversão do imperador Constantino e o fim das perseguições, Eusébio enxergou ali um sinal do triunfo do Reino de Cristo sobre os poderes que antes se opunham ao Evangelho. Eu reconheço que a sua leitura foi, em certos pontos, otimista demais ao identificar o Império Romano cristianizado com o próprio Reino de Deus. Mas, apesar disso, permanece o testemunho de que já, naquele período, cristãos fiéis interpretavam os avanços históricos do Evangelho como vitórias concretas de Cristo sobre as nações.

 

Agostinho e a Cidade de Deus em marcha

 

Agostinho de Hipona merece uma atenção especial. Sua famosa obra “A Cidade de Deus” moldou praticamente toda a teologia cristã posterior. É verdade que ele costuma ser associado ao amilenismo, por interpretar o milênio de Apocalipse 20 como o reinado espiritual de Cristo exercido, hoje, através da Igreja. Mas há, em sua visão da história, algo que ressoa fortemente com a esperança pós-milenista. Para Agostinho, a Cidade de Deus avança, progressivamente, sobre a Cidade dos Homens.

A história, para ele, não é um ciclo sem sentido, nem uma decadência inevitável. Ao invés disso, é um processo conduzido pela providência divina, no qual o Reino espiritual de Cristo se expande através da pregação do Evangelho e da obra transformadora do Espírito Santo. Sua ênfase recaiu mais sobre a natureza espiritual e presente desse Reino do que sobre sua manifestação visível e triunfante nas estruturas culturais e políticas. Ainda assim, foi Agostinho quem preparou o terreno teológico para desenvolvimentos posteriores muito mais explicitamente pós-milenistas.

 

Os reformadores redescobrem a força do Evangelho

 

Chegamos ao século XVI. A Reforma Protestante trouxe de volta a centralidade das Escrituras e a suficiência da graça de Deus em Cristo. Nem Lutero nem Calvino desenvolveram sistemas escatológicos detalhados como os que discutimos hoje. Mas ambos, em diversos momentos, expressaram confiança na expansão contínua do Evangelho sobre a terra.

João Calvino, em seus comentários bíblicos, ao tratar de textos como o Salmo 2 e Isaías 11, interpretava as profecias sobre o domínio universal do Messias como referências ao avanço histórico do Evangelho entre as nações. Ele não via esse avanço como uma realidade escatológica muito distante no futuro. Ora, essa ênfase na soberania absoluta de Deus sobre a história, somada à confiança na eficácia da Palavra pregada, produziu uma cultura teológica reformada marcada pelo otimismo missionário e pela confiança no triunfo progressivo da verdade cristã.

 

Os puritanos e a esperança da glória vindoura

 

Foi, contudo, entre os puritanos ingleses e escoceses, nos séculos XVII e XVIII, que essa esperança encontrou uma expressão mais sistemática e explícita. Teólogos como John Owen, Thomas Brooks e, mais tarde, os teólogos escoceses envolvidos nos chamados “pactos de oração” pela efusão do Espírito Santo, nutriam fervorosa expectativa de que Deus derramaria o Seu Espírito de maneira extraordinária sobre as nações, trazendo conversões em massa e estendendo, visivelmente, o Reino de Cristo sobre a terra.

Esses movimentos de oração unida (os “concertos de oração”) nasciam justamente da convicção de que as promessas bíblicas sobre a plenitude das nações teriam cumprimento histórico, e não somente escatológico e distante. Não era um otimismo humano desconectado da Escritura. Era fervor espiritual fundamentado na certeza de que Deus responde à oração perseverante e intervém sobrenaturalmente na história para o avanço do Seu Reino.

 

Jonathan Edwards: o avivamento como sinal do Reino

 

Nenhuma figura histórica está tão associada à consolidação teológica do pós-milenismo quanto Jonathan Edwards, pastor e teólogo americano do século XVIII, protagonista dos avivamentos conhecidos como o Grande Despertamento. Edwards não apenas pregou com fervor, mas também refletiu profundamente sobre o significado teológico daqueles movimentos extraordinários do Espírito Santo que testemunhava, com os próprios olhos, em sua congregação e em outras regiões da Nova Inglaterra.

Em sua belíssima obra “Uma História da Obra da Redenção”, Edwards descreve a história humana como um processo contínuo pelo qual Deus edifica o Seu Reino, através de sucessivas ondas de avivamento espiritual, até a plena manifestação da glória de Cristo sobre todas as nações. Para ele, os avivamentos que testemunhava eram sinais concretos de que Deus estava fazendo avançar o Seu propósito redentor na história, exatamente como as Escrituras haviam prometido.

Edwards também se envolveu profundamente em movimentos de oração unida em busca de avivamento. Em seu tratado sobre o “Concerto de Oração”, ele defendia que os cristãos ao redor do mundo deveriam se unir em súplica fervorosa, pedindo a Deus que derramasse o Seu Espírito e trouxesse a plenitude das nações ao conhecimento de Cristo. Essa combinação de fervor na oração e confiança na intervenção soberana de Deus é precisamente o coração da prática pós-milenista. Uma esperança que não se apoia no esforço humano, mas na certeza de que Deus responde a quem clama pelo Seu poder e pela manifestação do Seu Reino.

 

Diante disso, o que fica para a Igreja hoje?

 

Esse breve percurso histórico nos ensina que a esperança de que o Evangelho triunfará sobre as nações, transformando culturas e sociedades inteiras antes da volta de Cristo, não é “modinha teológica”. É uma convicção que atravessou séculos de reflexão cristã piedosa. Dos Pais da Igreja que testemunhavam a expansão do Cristianismo em meio à perseguição, passando pelos Reformadores que redescobriram a centralidade da Palavra, até os puritanos e Jonathan Edwards, que uniram fervor na oração com confiança no avivamento, encontramos um testemunho histórico consistente de que Deus tem trabalhado, e continuará trabalhando, para estabelecer o Seu Reino sobre toda a terra.

Sigamos o exemplo desses homens. Podemos orar como os puritanos oravam, pedindo a Deus que derrame o Seu Espírito sobre as nações. E podemos pregar como os reformadores pregavam, confiando na suficiência e no poder transformador da Palavra, pois é através dessa proclamação fiel que Cristo continua sujeitando os corações e as nações ao Seu Senhorio.

 

Uma esperança testada pelo tempo

 

Como é importante estudarmos a história da Igreja! Ela é muito mais do que um registro de fatos passados. Ela é um testemunho vivo da fidelidade de Deus e da coerência de Suas promessas. Ao contemplarmos como diferentes gerações de cristãos, em contextos tão distintos, expressaram esperança na expansão progressiva do Reino de Cristo sobre as nações, sinto-me fortalecido em minha própria fé, pois descubro que não estou sozinho nessa convicção. Estou unido a uma longa e rica tradição de homens de Deus que confiavam na soberania de Deus sobre a história.

Que esse legado nos inspire, hoje, a seguir o exemplo daqueles que nos precederam. Fica, portanto, a certeza de que essa não é uma esperança recente, mas uma convicção provada pelo tempo, sustentada por gerações que dobraram os joelhos e abriram a boca antes de nós: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura (Mc 16.15).

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Muito antes do Novo Testamento revelar a Pessoa e a obra de Jesus Cristo, o Antigo Testamento já anunciava o domínio universal do Messias sobre as nações. Dois salmos, em particular, ganham destaque: o Salmo 2 e o Salmo 110. Ambos são citados repetidamente pelos apóstolos no Novo Testamento para descrever a exaltação de Cristo e o alcance do Seu reinado. E ambos oferecem um poderoso fundamento para a esperança pós-milenista, ou seja, a convicção de que o governo de Cristo se estenderá, de fato, sobre todas as nações da terra antes de Sua Segunda Vinda.

Esses salmos são profecias messiânicas, inspiradas pelo Espírito Santo, que revelam o plano eterno de Deus para o Seu Filho e para a humanidade. Compreendê-los é essencial para qualquer cristão que deseja aprofundar a sua compreensão sobre o que a Escritura ensina a respeito do futuro do Reino de Deus na história.

 

O Salmo 2 e a rebelião fracassada das nações

 

O Salmo 2 começa com uma cena de rebelião cósmica: “Por que se amotinam as nações, e os povos imaginam coisas vãs? Os reis da terra se levantam, e os príncipes juntamente se aconselham contra o SENHOR e contra o seu ungido” (Sl 2.1-2). As nações da terra, representadas por seus reis e governantes, conspiram contra Deus e contra o Seu Messias, buscando romper as amarras da Sua autoridade e livrar-se do Seu governo.

A reação de Deus a essa rebelião, porém, é de absoluta soberania e até mesmo de ironia: “Aquele que habita nos céus se rirá; o Senhor zombará deles” (Sl 2.4). A conspiração das nações contra o Senhor e o Seu ungido não representa ameaça alguma ao trono de Deus, mas apenas revela a insensatez humana diante da majestade divina.

É nesse contexto que o Senhor declara a exaltação do Seu Filho: “Eu, porém, tenho estabelecido o meu Rei sobre o meu santo monte de Sião. Publicarei o decreto: o SENHOR me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” (Sl 2.6-7). Essa mesma declaração é aplicada diretamente a Jesus no Novo Testamento, tanto em Seu batismo (Mt 3.17) quanto em Sua ressurreição (At 13.33), confirmando, assim, que o Rei prometido pelo Salmo 2 é, de fato, o próprio Cristo.

 

O domínio universal prometido ao Filho

 

O que torna o Salmo 2 particularmente relevante para a esperança pós-milenista é a promessa que Deus faz ao Seu Filho logo em seguida: “Pede-me, e eu te darei as nações por herança, e por tua possessão os fins da terra” (Sl 2.8). Essa é uma promessa de domínio real e efetivo sobre as nações da terra, até os seus confins mais distantes.

O versículo seguinte descreve a extensão desse domínio em termos de autoridade absoluta: “Tu os esmigalharás com uma vara de ferro; tu os despedaçarás como a um vaso de oleiro” (Sl 2.9). Essa imagem comunica a ideia de que nenhum poder humano será capaz de resistir permanentemente ao avanço do governo do Messias sobre as nações. Aquilo que hoje ainda se opõe ao Evangelho será, progressivamente, subjugado pelo poder de Cristo.

O salmo termina com um convite aos reis e juízes da terra, que não é de destruição imediata, mas de arrependimento e submissão: “Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos instruir, juízes da terra. Servi ao SENHOR com temor, e alegrai-vos com tremor” (Sl 2.10-11). Essa é, precisamente, a expectativa pós-milenista: as nações, uma a uma, através da pregação fiel do Evangelho, se renderão ao senhorio de Cristo, beijando o Filho em sinal de submissão e adoração (Sl 2.12), até que o Seu domínio se estenda sobre toda a terra.

 

O Salmo 110 e o reinado presente do Messias

 

Se o Salmo 2 anuncia a promessa do domínio universal do Filho, o Salmo 110 revela o processo através do qual esse domínio se realiza na história. Sem dúvida, é um dos salmos messiânicos mais citados no Novo Testamento, aplicado por Jesus a Si mesmo (Mt 22.44) e retomado por diversos autores apostólicos para explicar a exaltação de Cristo.

O salmo começa com uma declaração: “Disse o SENHOR ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés” (Sl 110.1). Trata-se de um diálogo entre duas Pessoas divinas, o Senhor (Javé) e o Senhor do salmista (o Messias), no qual o Primeiro convida o Segundo a assentar-se em posição de honra e autoridade suprema, à Sua direita, enquanto os inimigos do Messias são progressivamente sujeitados.

Assim como em 1 Coríntios 15.25, onde Paulo cita diretamente esse versículo, fica evidente que o reinado do Messias é uma realidade presente, já em pleno exercício desde a Sua exaltação à direita do Pai. Cristo está assentado e reinando. E a sujeição dos Seus inimigos é um processo em curso, e não um evento distante.

 

O cetro que se estende desde Sião

 

O salmo continua descrevendo a extensão geográfica desse reinado: “O SENHOR enviará de Sião o cetro do teu poder; domina no meio dos teus inimigos” (Sl 110.2). O cetro é um símbolo de autoridade real. Ele tem sua origem em Sião, a cidade de Jerusalém, mas não permanece restrito a ela. O cetro se estende, alcançando um território cada vez maior, dominando precisamente no meio dos inimigos, ou seja, avançando sobre os territórios ainda hostis ao Seu governo.

Essa imagem harmoniza-se perfeitamente com a visão pós-milenista da expansão progressiva do Reino de Deus. O Evangelho não avança apenas em territórios já favoráveis ou neutros, mas ele penetra justamente onde existe resistência, oposição e incredulidade, subjugando os corações endurecidos e transformando culturas inteiras através do poder do Espírito Santo.

O salmo ainda descreve o exército voluntário que acompanha o Messias em Sua conquista: “Ao dia do teu poder, o teu povo se apresentará voluntariamente em santa formosura, como orvalho nascido da madrugada; assim será a tua mocidade” (Sl 110.3). Essa multidão de voluntários, dispostos e consagrados, representa a Igreja de Cristo ao longo dos séculos, aqueles que, movidos pelo Espírito Santo, se entregam de bom grado à causa do Reino, participando do avanço do Evangelho sobre as nações.

 

O sacerdócio eterno e a vitória final

 

O Salmo 110 também revela outra dimensão da obra do Messias: “Jurou o SENHOR, e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque” (Sl 110.4). Essa profecia é amplamente desenvolvida na carta aos Hebreus, que dedica capítulos inteiros para demonstrar como Cristo é, simultaneamente, Rei e Sacerdote eterno, unindo em Si mesmo a autoridade régia e a intercessão sacerdotal.

Essa dupla função é fundamental para a esperança pós-milenista. Cristo não apenas reina com poder soberano sobre as nações, mas também intercede continuamente pelo Seu povo diante do Pai, sustentando espiritualmente aqueles que participam da missão de discipular as nações. O salmo conclui com uma imagem de vitória definitiva: “Ele beberá do ribeiro no caminho; por isso, exaltará a cabeça” (Sl 110.7). O caminho pode envolver cansaço e dificuldade, representado pela imagem de beber do ribeiro à beira do caminho, mas o desfecho é certo. A exaltação é plena e definitiva.

 

A única prática coerente diante dessas promessas

 

Diante de promessas tão grandiosas quanto as reveladas nos Salmos 2 e 110, a resposta do cristão pós-milenista se resume, exclusivamente, a duas atitudes reverentes e inegociáveis: orar e pregar.

Orar, porque é diante do trono de Deus, em intercessão fervorosa, que o crente clama pela extensão do cetro de Cristo sobre nações ainda resistentes ao Evangelho, pedindo, como o próprio salmo ensina, que o Senhor envie de Sião o poder do Seu Filho sobre os territórios de trevas. E pregar, porque é através da proclamação fiel da cruz e da ressurreição que o Espírito Santo desperta, em meio às nações, aquele povo voluntário e consagrado mencionado no salmo, disposto a servir ao Rei dos reis com alegria e reverência.

 

Adorando o Rei anunciado desde a antiguidade

 

Contemplar os Salmos 2 e 110 é contemplar o eterno plano de Deus para o seu Filho, revelado séculos antes do Seu nascimento em Belém, mas já plenamente confirmado em Sua ressurreição e exaltação à direita do Pai. Cristo é o Senhor ungido a quem foram prometidas as nações por herança, e cujo cetro de poder continua avançando, mesmo agora, sobre os territórios ainda hostis ao Seu governo.

Que essas verdades transbordem em adoração reverente diante dAquele que está assentado à direita do Pai. E também em súplicas ardentes para que o Seu Reino continue avançando sobre as nações, até que todo joelho se dobre diante do Filho, como o próprio salmo antecipa: “Beijai o Filho, para que se não ire, e não pereçais no caminho, quando em breve se acender a sua ira. Bem-aventurados todos os que nele confiam” (Sl 2.12).

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Certamente, você conhece essa porção das Escrituras. Embora seja um texto frequentemente lido como parte do grande capítulo sobre a ressurreição dos mortos, ele contém uma das mais poderosas afirmações sobre a natureza do reinado atual de Cristo. Esse precioso texto nos revela o processo pelo qual Deus está, agora mesmo, conduzindo a história rumo a esse desfecho glorioso.

Enquanto muitos cristãos associam o capítulo 15 de 1 Coríntios exclusivamente à doutrina da ressurreição corporal, é justamente dentro desse contexto que Paulo ensina a grande verdade escatológica de que Jesus reina nesse exato momento. Além disso, o reinado do Senhor tem o propósito infalível de sujeitar progressivamente todos os inimigos de Deus, até o último deles, a morte.


A ressurreição como fundamento da esperança cristã


Por que Paulo escreveu esse capítulo? Ele escreveu porque alguns da igreja de Corinto duvidavam da ressurreição dos mortos (1Co 15.12). Toda a argumentação do apóstolo serve para mostrar que a ressurreição de Cristo é o fundamento da fé cristã e a garantia da nossa própria ressurreição futura. É dentro dessa lógica que Paulo introduz uma sequência de eventos escatológicos, revelando a ordem em que Deus está conduzindo a história até a consumação final.

Ele diz: “Mas cada um por sua ordem: Cristo as primícias, depois os que são de Cristo, na sua vinda. Então virá o fim, quando tiver entregado o reino a Deus, o Pai, e quando houver aniquilado todo o império, e toda a potestade e força” (1Co 15.23,24). Note a sequência: primeiro Cristo ressuscita, depois os que são dele ressuscitarão na Sua Vinda, e só então virá o fim. Entre a ressurreição de Cristo e o fim, existe um período intermediário, no qual algo precisa acontecer.


O que acontece no período intermediário


E o que acontece nesse tempo entre a ressurreição de Cristo e o fim de todas as coisas? Paulo responde: “Porque convém que Ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo de Seus pés” (1Co 15.25). Cristo não está ausente do trono, esperando o momento de assumir o governo apenas quando Ele retornar. Desde a Sua ressurreição e ascensão, o Senhor reina. O Seu reinado tem uma finalidade específica, isto é, sujeitar totalmente todos os Seus inimigos.

Essa afirmação de Paulo é, na verdade, uma citação direta do Salmo 110, um dos textos messiânicos mais importantes de todo o Antigo Testamento: “Disse o SENHOR ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés” (Sl 110.1). O próprio Jesus aplicou esse Salmo a Si mesmo (cf. Mt 22.44). E os apóstolos também o citaram repetidamente para demonstrar que a exaltação de Cristo à direita do Pai indica um reinado ativo e conquistador.


A sujeição progressiva de todo inimigo


É muito importante perceber que o texto não fala de um evento instantâneo e único, mas de um processo. A palavra “até” (1Co 15.25) indica continuidade, ou seja, um caminho sendo percorrido, um reinado em pleno exercício, avançando sobre todo poder que se opõe a Deus. Isso inclui, segundo o próprio Paulo, “todo império, e toda a potestade e força” (1Co 15.24), ou seja, todas as estruturas de poder, sejam elas espirituais, políticas ou culturais, que resistem à soberania de Cristo.

E qual é o último desses inimigos a ser vencido? Paulo diz: “Ora, o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte” (1Co 15.26). A morte, consequência do pecado desde o Éden, será o derradeiro poder a ser subjugado, e isso se dará plenamente na ressurreição final, quando todos os que são de Cristo forem revestidos da incorruptibilidade (1Co 15.53-54). Até lá, o reinado de Cristo continuará avançando, sujeitando gradualmente outros poderes, como toda forma de pecado, idolatria e opressão.


A entrega do Reino ao Pai


Paulo conclui essa sequência com uma imagem belíssima: “E, quando todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então também o mesmo Filho se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos” (1Co 15.28). Quando a obra de sujeição estiver completa, quando o último inimigo, a morte, for aniquilado, o Filho entregará o Reino ao Pai. Isso acontecerá para que a glória de Deus seja plena e definitivamente estabelecida, sem qualquer resquício de rebelião ou oposição em toda a Criação.

Esse é o alvo final da história: Deus sendo tudo em todos. E o caminho até esse alvo não é uma decadência progressiva do mundo, mas exatamente o oposto, um avanço contínuo do reinado de Cristo, sujeitando, passo a passo, tudo aquilo que ainda resiste à Sua imbatível soberania.


Por que esse texto sustenta a esperança pós-milenista?


A visão pós-milenista encontra em 1 Coríntios 15.24-28 uma de suas bases mais firmes, justamente porque o texto descreve o reinado de Cristo como algo presente e progressivamente vitorioso, e não como algo reservado para um futuro reinado milenar literal, após a Segunda Vinda. Se o reinado do Senhor Jesus avança, hoje, sujeitando inimigo após inimigo, então a história não caminha para um colapso generalizado antes do Seu glorioso Retorno, mas sim, para uma vitória cada vez mais evidente do Seu governo sobre as nações, até que, no fim, a morte seja definitivamente aniquilada na ressurreição.

Isso, é claro, não significa o fim da resistência ou do sofrimento ao longo do caminho. A Escritura não promete uma história isenta de dificuldades. Mas significa, sim, que a direção da história é a vitória, e não a derrota, e que cada avanço do Evangelho (em genuínas conversões e transformações), é parte visível desse reinado que já começou e que continuará avançando até a consumação final.


A prática do pós-milenista diante dessa verdade


Diante de uma verdade tão grandiosa quanto essa, alguns podem ser tomados por diversas reações, seja pelo entusiasmo, pela curiosidade teológica, ou até mesmo, por especulações sobre tempos e estratégias humanas. Mas a resposta a essa esperança se resume, na verdade, a apenas duas atitudes simples, porém, inegociáveis: orar e pregar.

Orar, porque é diante do trono de Deus, em intercessão fervorosa, que participamos dessa obra de sujeição dos inimigos, clamando pelo avanço do Reino sobre as famílias, cidades e nações. E pregar, porque é através da proclamação fiel do Evangelho que Cristo continua exercendo o Seu domínio sobre os corações, arrancando-os do poder das trevas e transferindo-os para o seu Reino de luz. Saiba que não há espaço para estratégias humanas de conquista. Existe, sim, um chamado para orar com fé e pregar com coragem, confiando que é o próprio Cristo, assentado à direita do Pai, quem está sujeitando os Seus próprios inimigos.


Adorando o Rei que já reina


Diante de tudo o que Paulo disse em 1 Coríntios 15.24-28, a melhor resposta que podemos dar não é somente entender isso intelectualmente, mas adorar o Senhor com todo o nosso ser. Precisamos contemplar o Cristo que está, nesse exato momento, assentado em glória, reinando soberanamente e conduzindo a história rumo à sujeição total de todo mal. Isso deve encher a nossa alma de sincera reverência e confiança.

Que essa verdade transborde em joelhos dobrados diante do Senhor e em lábios que anunciam o Evangelho de Jesus Cristo. Aquele que já venceu a morte na cruz e ressuscitou ao terceiro dia continua, hoje, reinando até que todo joelho se dobre e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai (Fp 2.10-11).

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