pub-9363386660177184 Pensando as Escrituras


Quando lemos 2 Pedro 3 em muitas Bíblias de estudo ou ouvimos certas pregações, quase sempre o texto é colocado dentro da seguinte moldura: “o fim do universo físico”, “explosão cósmica final”, “o mundo vai virar pó e Deus vai começar tudo do zero”. No entanto, o objetivo do apóstolo Pedro não é falar acerca do fim do cosmos, e sim do fim de um mundo específico. Ele escreveu sobre o fim do mundo do Antigo Pacto, centrado no Templo de Jerusalém que, de fato, foi destruído em 70 d.C.

A seguir, vamos resumir e aplicar o argumento do apóstolo Pedro, de modo que qualquer cristão consiga acompanhar com facilidade.


Quem são os “escarnecedores dos últimos dias”?

Pedro diz que nos últimos dias surgiriam escarnecedores (2Pe 3.3-4). Muita gente, ao ouvir a expressão “últimos dias”, pensa automaticamente em “nossos dias” ou no “fim do mundo”. Mas a boa notícia é que o próprio Novo Testamento define o significado dessa expressão. Textos como Atos 2.16-17, Hebreus 1.1-2, 9.26; Tiago 5.7-9 e 1 João 2.18 mostram que os “últimos dias” são o período entre a ascensão do Senhor Jesus aos céus e a destruição do Templo em 70 d.C. Eram os últimos dias não da criação física, mas da ordem do Antigo Pacto.

Ademais, os escarnecedores de 2 Pedro 3 são judeus que conheciam bem as Escrituras, mas que rejeitaram o Messias. Eles sabiam bem das advertências dos profetas sobre um grande dia de juízo, mas mesmo assim zombavam dizendo: “Onde está a promessa da sua vinda?” (2Pe 3.4). Jesus havia dito repetidas vezes que um juízo terrível viria sobre “esta geração” (Mt 23.36; 24.34). Esse juízo foi a queda de Jerusalém, juntamente com a destruição do Templo e do sistema sacrificial. É isso que Pedro tem em mente.

 

Céus e terra: linguagem de Criação e de Aliança

Quando Pedro fala da destruição dos “céus e terra que agora existem” (2Pe 3.7), muita gente já imagina a galáxia explodindo, não é mesmo? Mas a Bíblia usa a expressão “céus e terra” com um alcance mais amplo do que simplesmente matéria + espaço. Em Isaías 51.15-16, Deus fala do êxodo (saída do Egito) e diz que, ao libertar Israel, Ele “plantou os céus” e “fundou a terra”, para dizer a Sião: “Tu és o meu povo”. A formação de Israel como povo, com sua lei, culto e governo, é descrita como uma espécie de criação. Deus organizou um mundo; uma ordem civil e religiosa.

Por isso, quando os profetas falam da queda de um império ou de um sistema, eles usam exatamente essa linguagem do universo em colapso:

 

·        Isaías 34.4 fala dos céus se enrolando como um livro e astros caindo. Mas o contexto é o juízo sobre Edom.


·        Jeremias 4.23-26 descreve a destruição iminente de Jerusalém (em 587 a.C.) como se fosse uma “des-criação”. Ele fala da terra assolada e vazia e os céus sem luz.

 

Assim, os “céus e terra” podem significar uma ordem de mundo, uma estrutura de aliança. Deus criou, por assim dizer, o “mundo de Israel” na aliança mosaica. Esse “mundo” tinha seu centro no Templo, nos sacrifícios, nos sacerdotes e nas festas. Quando Pedro fala dos “céus e terra que agora existem” sendo destruídos, ele está falando dessa ordem antiga, do mundo do Antigo Pacto. E quando ele fala de “novos céus e nova terra” (2Pe 3.13), está falando da Nova Ordem do Evangelho, isto é, da Nova Aliança em Cristo.

 

O que são os “elementos” que se desfazem?

O apóstolo Pedro, nos versículos 10 e 12, afirma que “os elementos, ardendo, se desfarão”. Muitos supõem que isso seja linguagem de física: átomos, prótons, elétrons. Mas o Novo Testamento nunca usa o termo grego stoicheia (elementos) para falar da matéria do universo. Na verdade, a palavra sempre se refere aos “rudimentos” e “princípios” religiosos da antiga ordem. Vejamos alguns exemplos:

 

·        Gálatas 4.3, 9-10: antes de Cristo, estávamos “sob os rudimentos (stoicheia) do mundo”. Paulo relaciona isso com guardar dias, meses, tempos e anos. É uma linguagem do calendário religioso.


·        Colossenses 2.8, 20-21: Paulo fala dos “rudimentos (stoicheia) do mundo” ligados a ordenanças como “não toques, não proves, não manuseies”.


·     Hebreus 5.12: o autor fala dos “primeiros rudimentos (stoicheia) das palavras de Deus”, referindo-se às verdades básicas do Antigo Pacto, ligadas à revelação anterior.

 

Em todos esses textos, os “elementos” são estruturas religiosas provisórias, ou seja, sombras que apontavam para Cristo, mas que não podiam permanecer após a vinda dEle. Então, quando Pedro diz que os “elementos” vão se desfazer em fogo, ele está falando da total dissolução do sistema mosaico: sacrifícios, rituais, calendário. Tudo aquilo que era sombra e deveria ceder lugar à realidade em Cristo.

 

“Já está acontecendo”

Um detalhe que costuma sumir em muitas traduções é o tempo verbal dos verbos em 2 Pedro 3.11-12. No grego, Pedro fala de coisas que “estão sendo dissolvidas” e “estão sendo fundidas”. Em outras palavras, o colapso daquele “mundo” já havia começado. O Antigo Pacto já estava “envelhecido” e “perto de acabar” (Hb 8.13). Com a morte e ressurreição de Cristo, o Templo de pedra tinha os dias contados, porque o verdadeiro Templo – o corpo físico de Cristo e agora a Igreja – já havia sido levantado.

Por isso, Pedro exorta os seus leitores a viverem de maneira santa, justamente porque estavam diante de um juízo iminente: “Aguardando e apressando a vinda do dia de Deus [...]” (2Pe 3.12). Essa urgência é dirigida a eles, àquela geração. Seria estranho usar essa linguagem para falar de algo que só aconteceria dois mil anos depois.

 

“Um dia como mil anos”: Deus anulando o tempo?

Pedro diz ainda: “Um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia” (2Pe 3.8). Muita gente usa esse versículo para dizer o seguinte: “Quando a Bíblia fala ‘em breve’, isso pode significar alguns milênios, pois Deus conta o tempo diferente de nós”. E agora? O que pensar?

A verdade é que isso destrói o argumento de Pedro. Ele está justamente dizendo que Deus não retarda a Sua promessa (2Pe 3.9). A citação do Salmo 90.4 não serve para esvaziar as palavras de tempo (“próximo”, “às portas”, “em breve”), mas para mostrar que o aparente atraso não significa esquecimento ou infidelidade da parte do Senhor. O sentido é que Deus não é limitado pelo tempo. Se Ele promete algo, pode parecer demorado para nós, mas Ele é absolutamente fiel para cumprir. Portanto, o que o Senhor disse que estava perto, estava perto, de fato. Não podemos transformar “perto” em “talvez daqui a alguns milênios”.

 

Onde a Bíblia promete “Novos Céus e Nova Terra”?

Pedro diz: “Nós, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra, em que habita a justiça” (2Pe 3.13). De onde vem essa promessa? Ela vem do Antigo Testamento, especificamente de Isaías 65.17 e 66.22. E o contexto de Isaías 65–66 é muito revelador. Ali Deus promete criar “Novos Céus e Nova Terra”. Nessa realidade ainda há nascimento e morte (Is 65.20); há construção de casas, plantação de vinhas e trabalho frutífero (65.21-23); e há nações vindo adorar ao Senhor (66.18-23).

Diferente do que muitos pensam, Isaías não está descrevendo o estado eterno depois da ressurreição final, mas sim, a era do Evangelho, a Nova Ordem inaugurada por Cristo que está avançando na história. É a Nova Criação acontecendo agora, enquanto o Reino de Deus cresce no mundo, enquanto o Evangelho se espalha e as nações se rendem a Jesus.

Os Novos Céus e a Nova Terra não quer dizer que Deus jogou fora o universo antigo e fez outro do zero. Na verdade, indica uma renovação de aliança, um novo arranjo de mundo, agora centrado em Cristo, e não mais no Templo de Jerusalém.

 

E o que tudo isso tem a ver com a nossa vida?

Se 2 Pedro 3 fala primariamente da Queda de Jerusalém e do fim da ordem do Antigo Pacto, o que isso tem a ver conosco? Muita coisa.


(1) Confirma que Deus é fiel e julga na história: O Senhor cumpriu exatamente o que prometeu sobre “esta geração”. Isso nos dá segurança para crer em todas as Suas demais promessas.


(2) Mostra que já vivemos nos “Novos Céus e Nova Terra”: Paulo disse: “Se alguém está em Cristo, é nova criação” (2Co 5.17). Hebreus afirma que já chegamos à “Jerusalém celestial” (Hb 12.22). João, em Apocalipse 21.5, vê um “novo céu e nova terra” e, logo em seguida, ouve: “Eis que faço novas todas as coisas”. Tempo presente! A Nova Criação já começou com Cristo e se manifesta na Igreja.


(3) Alimenta um otimismo cristão sobre a história: Pedro diz que nessa Nova Ordem é onde “habita a justiça” (2Pe 3.13). Isso não significa que não haja pecado, mas que a justiça de Cristo está agora em processo de conquistar o mundo. O Reino recebido é “inabalável” (Hb 12.28). Em vez de um Cristianismo derrotista, esperando o mundo piorar até colapsar, somos chamados a crer que o Evangelho avança no mundo, derrubando os ídolos e convertendo as nações.


(4) Nos chama a uma vida santa e engajada: Se vivemos na era da Nova Criação, a nossa vida deve ser um sinal dessa realidade. Santidade, justiça, misericórdia, trabalho, cultura cristã, famílias fortes, igrejas fiéis, tudo isso deve ser nítido em nosso meio. É isso que Pedro diz: “Havendo, pois, de perecer todas estas coisas, que pessoas vos convém ser em santo trato e piedade” (2Pe 3.11).


Portanto, 2 Pedro 3 nos fornece uma esperança histórica. Deus já abalou os velhos céus e a velha terra da Antiga Aliança. O Reino de Cristo já foi inaugurado e não pode ser abalado. Vivemos, pela graça, dentro dos “Novos Céus e Nova Terra” da era do Evangelho. A nossa tarefa é cooperar, em obediência, para que a justiça que já habita nessa Nova Criação se manifeste cada vez mais “até que a terra se encha do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar” (Is 11.9).


Quando falamos de vida cristã saudável, geralmente pensamos em três pilares: oração, leitura da Palavra e comunhão com a igreja. Porém, há uma disciplina espiritual bíblica, amplamente praticada pelo povo de Deus ao longo da história, que foi quase esquecida em muitos contextos: o jejum. O jejum não é algo opcional, reservado aos crentes “mais espirituais”. É, na verdade, uma prática normal da vida cristã, assim como orar e ler a Bíblia. Aliás, podemos dizer que um cristão que ora, lê a Palavra, mas nunca jejua, está negligenciando uma disciplina espiritual de imensa importância.

Nesse texto, eu gostaria de refletir sobre o jejum à luz das Escrituras. Pretendo responder algumas perguntas, como: O que é o jejum bíblico? Por que devemos jejuar regularmente? Quais são os tipos de jejum? Quais lutas espirituais enfrentamos ao jejuar e como vencê-las? O que devemos fazer espiritualmente no tempo em que estaríamos comendo? Quanto tempo jejuar? Quais são os propósitos certos e errados do jejum? O que Deus faz, em Sua graça, em resposta ao jejum?


1. O QUE É O JEJUM BÍBLICO?

O primeiro ponto importante é que jejum é abstenção de alimento, e não de entretenimento. Na Bíblia, o jejum é sempre relacionado a deixar de comer (total ou parcialmente) por um período, visando um propósito espiritual. Jesus falou sobre “jejuar” (Mt 6.16-18), Moisés jejuou (Êx 34.28), Daniel jejuou (Dn 10.2-3), a igreja de Atos jejuou (At 13.2-3; 14.23). Em todos esses casos, estamos falando de comida.

Hoje em dia, é comum ouvirmos as pessoas dizerem que estão fazendo jejum de rede social, jejum de celular, jejum de séries da Netflix, etc. Ora, privar-se dessas coisas pode até ser proveitoso e necessário em alguns casos, mas biblicamente isso não é jejum. Isso é, no máximo, disciplina e renúncia de algo agradável que pode roubar o nosso tempo. São atitudes boas, mas não são jejum no sentido bíblico. O jejum bíblico é abster-se de alimento por causa de Deus, para buscar mais intensamente a face do Senhor.

Em segundo lugar, o jejum é uma expressão de fome por Deus. Jejum não é simplesmente ficar sem comer. É trocar a fome física por uma busca mais intensa pela presença de Deus. É dizer com o corpo o que o salmista disse com palavras:

Como a corça anseia por águas correntes, assim minha alma anseia por Ti, ó Deus!” (Salmos 42.1). Além disso, o jejum também não é punição ou penitência. É amor. É fome de Deus.


2. JEJUM COMO PRÁTICA REGULAR NA VIDA CRISTÃ

A Palavra de Deus pressupõe a prática do jejum. Jesus não disse “se jejuardes”, mas “quando jejuardes” (Mt 6.16). Isso mostra que Ele considerava o jejum algo normal na vida dos discípulos. Assim como orar e ler a Palavra são práticas regulares, o jejum também deveria ocupar um lugar regular em nossa vida. Não se trata de um legalismo (“se eu não jejuar, Deus vai me castigar”), mas de uma disciplina abençoadora (“eu quero mais de Deus, e o jejum é um meio de graça para buscá-lo”).

Uma sugestão saudável para muitos cristãos é separar pelo menos um dia na semana para jejuar, na medida de sua condição física e rotina. Por exemplo, você pode fazer jejum de uma refeição (o almoço de quarta-feira). Pode também jejuar até certa hora do dia (até às 15h). Ou ainda, pode jejuar por um período maior em ocasiões específicas, como decisões importantes, crises e consagração.

O ponto central é que, assim como ninguém diz que ora somente uma vez por ano, o jejum também não deveria ser algo esporádico, mas parte de um estilo de vida cristã que busca ao Senhor com todos os recursos espirituais disponíveis.


3. TIPOS DE JEJUM BÍBLICO

A Bíblia nos apresenta, basicamente, dois tipos de jejum de alimento.


(1) Jejum parcial: É quando a pessoa não se abstém de todo alimento, mas restringe o tipo ou a quantidade de alimento. Temos o exemplo clássico de Daniel:


“Naqueles dias eu, Daniel, pranteei durante três semanas. Não comi nada que fosse saboroso; carne e vinho não entraram na minha boca, nem me ungi com óleo algum, até que tenham se passado as três semanas.” (Daniel 10.2-3)


Daniel tinha uma alimentação simples, sem muitas delícias, como expressão de humilhação e busca diante de Deus. O jejum parcial pode ser reduzir a quantidade de alimento, comer de forma simples (sem “delícias”) para focar na oração, e retirar apenas um tipo de alimento por um período (por exemplo, doces, carnes, etc.), desde que o propósito seja espiritual.


(2) Jejum total: É a abstenção total de alimento por um determinado período. Por exemplo, a rainha Ester pediu que todo o povo jejuasse por três dias, sem comer nem beber nada (Et 4.16). Paulo, após o seu encontro com Cristo, ficou três dias sem comer nem beber (At 9.9).

Esse tipo de jejum exige sabedoria, especialmente quanto à saúde da pessoa. Nem sempre o jejum total inclui abstenção de água. Na prática cristã comum, é mais frequente fazer jejum de comida, mas não de água.


4. BATALHAS ESPIRITUAIS DURANTE O JEJUM E COMO VENCÊ-LAS

Quem jejua com seriedade logo percebe que o jejum não é apenas uma batalha contra o estômago, mas contra o coração, isto é, uma batalha contra a nossa carne (natureza pecaminosa). A nossa carne gosta muito de conforto e satisfação imediata. Ao jejuar, você está dizendo “não” à carne para dizer “sim” a Deus. É por isso que ela reage.

Algumas possíveis lutas envolvem irritação, mau humor, preguiça espiritual (vontade de dormir em vez de orar), fuga para distrações (celular, TV, conversas vazias), etc. Como vencer essa batalha? Primeiro, entenda que isso faz parte da luta da carne contra o espírito (Gl 5.17). Segundo, comece o jejum decidido a resistir, pedindo graça ao Senhor. E terceiro, lembre-se que o propósito não é o sofrimento, mas a comunhão com Deus.

Durante o jejum, também pode haver uma batalha contra a hipocrisia. Há uma tentação sutil de usar o jejum como vitrine espiritual. Jesus condenou isso: “Quando jejuarem, não façam como os hipócritas, que se esforçam para parecer tristes e desarrumados, a fim de que as pessoas percebam que estão jejuando” (Mateus 6.16). Como vencemos isso? Vencemos jejuando em secreto quando possível, não fazendo do jejum um assunto de autopromoção, e mantendo o nosso foco em Deus, e não na opinião dos outros.

Por fim, também pode haver uma batalha contra a incredulidade. Você pode ser tentado a pensar: “Isso não vai adiantar nada”. Saiba que o inimigo quer esvaziar a sua fé e gerar incredulidade quanto à eficácia desse meio de graça. Como você pode vencer isso? Primeiro, alimente a sua mente com textos bíblicos sobre jejum (Jl 2.12-13; Jn 3.5-10; At 13.2-3). E segundo, lembre-se de que o jejum não é poderoso em si. Quem é poderoso é o Senhor, que se agrada da nossa humilhação sincera.


5. O QUE FAZER NO TEMPO EM QUE EU ESTARIA COMENDO?

Se apenas ficarmos sem comer, mas não substituirmos esse tempo por práticas espirituais, teremos feito somente uma dieta irrelevante. No lugar de comer, devemos: 1) Orar. Separe tempo de oração mais focada. Apresente a sua própria santificação, a sua família, a sua igreja, a conversão de pessoas específicas, e a direção de Deus para decisões importantes. 2) Meditar na Palavra. Leia a Bíblia com calma, sem pressa nenhuma. Demore-se na Palavra e busque aplicar o texto à sua realidade. A Palavra é alimento (Mt 4.4), e o jejum é um tempo para experimentar isso de forma concreta. 3) Confessar pecados. O jejum frequentemente está ligado à humilhação pelos pecados (Ne 1.4-7; Dn 9.3-5). Use esse tempo para examinar o seu coração, confessar os seus pecados e clamar pela misericórdia de Jesus. 4) Interceder. Jejum é arma de intercessão. Ore pelos irmãos que estão fracos e caídos, pelos líderes da sua igreja, pelas missões locais e mundiais, e por situações críticas (enfermidades, crises, decisões da igreja).


6. O TEMPO DE JEJUM

Por quanto tempo devemos jejuar? Não existe um modelo que seja obrigatório. A duração do jejum deve considerar a nossa saúde (problemas como diabetes, gastrite, anemia, etc.), a profissão e o esforço físico que exercemos, e a rotina familiar.

Algumas possibilidades de prática incluem jejuar apenas uma refeição (por exemplo, deixar de tomar o café da manhã ou de almoçar), jejuar até determinado horário (como da meia-noite até às 15h), jejuar por 24 horas (do jantar de um dia até o jantar do dia seguinte) ou realizar jejuns mais longos em períodos específicos, mas sempre com responsabilidade e cautela. O ponto principal não é conseguir ficar mais tempo sem comer, mas jejuar com fé e com o coração focado em Deus.


7. PROPÓSITOS CERTOS E ERRADOS DO JEJUM


Propósitos errados

a) Jejum como barganha com Deus. Pensar: “Vou jejuar para Deus ser obrigado a me dar aquilo”. Isso é transformar o jejum em moeda de troca. Isso é paganismo, e não cristianismo. Deus não pode ser manipulado, pois Ele é o Senhor.


b) Jejum como mérito espiritual. Imaginar: “Se eu jejuar bastante, serei mais aceito por Deus”. Isso é negar o Evangelho da graça, pois a nossa aceitação diante de Deus é somente pela obra de Cristo (Ef 2.8-9), e não pelo nosso jejum. O jejum é fruto de quem já foi aceito em Cristo, e não o caminho para conquistar essa aceitação.


c) Jejum como meio de se aparecer. Usar o jejum para construir uma imagem de “espiritualidade” diante dos outros é esvaziar o seu sentido. Jejum não é palco para o ego espiritual. É exatamente o oposto. É humilhação genuína diante do Senhor Soberano.


Propósitos certos

a) Humilhação e arrependimento. O jejum bíblico está ligado à volta sincera para Deus: “‘Ainda agora’, diz o Senhor, ‘convertei-vos a mim de todo o vosso coração; e isso com jejuns, e com choro, e com pranto’” (Jl 2.12). Jejuamos para nos humilhar, para reconhecer o nosso terrível pecado e buscar restauração.


b) Clamor por direção de Deus. Em Atos, vemos a igreja jejuando para discernir a vontade do Senhor: “Enquanto eles adoravam o Senhor e jejuavam, o Espírito Santo disse: ‘Separem Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado’” (At 13.2). Jejuamos porque queremos entender com mais clareza a direção do Senhor, obedecer com mais prontidão à Sua Palavra e alinhar a nossa agenda à agenda dEle.


c) Fortalecimento espiritual e consagração. O jejum é uma forma de dizer: “Senhor, quero estar mais sensível à Tua voz, mais entregue à Tua perfeita vontade”. Ao negar a comida por um tempo, treinamos o nosso coração para dizer “não” à carne e “sim” ao Senhor, oferecendo a Ele o nosso corpo e o nosso tempo como culto (Rm 12.1).


d) Intercessão em tempos de crise. Em momentos de deserto, crises profundas ou grandes decisões, o povo de Deus sempre recorreu ao jejum. Ester e os judeus jejuaram diante do decreto de morte (Et 4.16). O jejum, portanto, é uma expressão de clamor intenso por livramento, misericórdia e intervenção de Deus em situações humanamente impossíveis.


8. O JEJUM É UM MEIO DE GRAÇA

É muito importante entender que o jejum não tem o poder de comprar o favor de Deus. O Senhor não faz “comércio” com o nosso sacrifício. O Senhor é Deus gracioso, que age por amor soberano, e não por pressão humana. O jejum é o meio pelo qual nós nos colocamos na posição de depender mais profundamente dEle. Podemos dizer que o jejum não muda Deus, mas certamente ele muda quem jejua. O jejum não torna Deus mais favorável a nós, mas torna o nosso coração mais quebrantado e sensível à vontade do Senhor.


9. RESULTADOS GRANDIOSOS DO JEJUM NA BÍBLIA

Vejamos alguns exemplos de como Deus respondeu ao jejum do Seu povo nas Escrituras. Em todos os casos, o protagonista é sempre Deus, e não a prática do jejum em si.


1) Nínive: arrependimento e livramento do juízo. Quando Jonas anunciou o juízo divino, o povo, do maior ao menor, respondeu com jejum e quebrantamento: “Os ninivitas creram em Deus, proclamaram um jejum, e vestiram-se de pano de saco, desde o maior até o menor” (Jn 3.5). O resultado dessa humilhação diante de Deus foi extraordinário: “Quando Deus viu o que fizeram, como se converteram do seu mau caminho, Deus se arrependeu do mal que tinha dito lhes faria e não o fez” (Jn 3.10). O jejum, aqui, foi uma expressão visível de fé e arrependimento, e Deus respondeu com misericórdia.


2) Ester e o povo: livramento da morte. Diante de um decreto de extermínio, Ester conclama o povo ao jejum: “Vai, ajunta a todos os judeus que se acharem em Susã, e jejuai por mim; e não comais nem bebais por três dias, nem de noite nem de dia” (Ester 4.16). Enquanto o povo jejuava e clamava, Deus, em Sua soberania, dirigiu cada detalhe: a insônia do rei, a leitura dos registros, a exaltação de Mardoqueu, a queda de Hamã. O jejum foi parte desse mover gracioso em que Deus livrou o Seu povo da morte certa.


3) A igreja em Atos: direção clara do Espírito. Na igreja de Antioquia, os líderes estavam adorando e jejuando quando o Espírito Santo falou claramente sobre o envio missionário: “Enquanto eles adoravam o Senhor e jejuavam, o Espírito Santo disse: ‘Separem Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado’.” (At 13.2). A partir desse momento, inicia-se uma grande obra missionária de Paulo e Barnabé entre as nações. O jejum, aqui, aparece em um contexto de adoração intensa e disposição de ouvir e obedecer à voz do Espírito.


4) Esdras: proteção na jornada. Ao conduzir um grupo de exilados de volta a Jerusalém, Esdras reconhece sua total dependência de Deus e proclama um jejum: “Proclamei ali um jejum junto ao rio Aava, para nos humilharmos perante o nosso Deus, para lhe pedirmos jornada feliz para nós, para nossos filhos e para todos os nossos bens” (Ed 8.21). A resposta é resumida de forma simples, porém, motivadora: “Assim jejuamos e pedimos isto ao nosso Deus, e Ele nos atendeu” (Ed 8.23). O Senhor guardou o povo no caminho. O jejum deles foi a forma de confessarem: “Senhor, nós não confiamos em escoltas humanas, mas no Senhor da aliança”.


Em todos esses casos apresentados, o jejum aparece como expressão visível de humilhação, fé e dependência do Senhor. De fato, o jejum não é o centro da história, mas ele acompanha o coração que se volta com sinceridade para Deus. O Senhor é quem vê, quem ouve e quem responde ao nosso jejum.

 

UM CHAMADO PRÁTICO

Portanto, o jejum bíblico é abstenção de comida por um tempo, visando propósitos espirituais; é uma disciplina que deveria ser parte regular da vida cristã; é um meio de graça para aprofundar a oração, a meditação na Palavra, o arrependimento e a consagração; é um ato de fé por meio do qual buscamos a Deus com mais intensidade; e é uma prática à qual Deus, em Sua graça, tem respondido ao longo da história.

Se você reconhece que precisa começar a praticar o jejum, deixo aqui algumas sugestões práticas e pastorais para você. Primeiro, escolha um dia da semana para jejuar. Você pode escolher sempre o mesmo dia da semana, durante o almoço, por exemplo. Segundo, defina, com sabedoria, se será um jejum parcial ou total. Somente você conhece os limites do seu corpo e o peso dos seus esforços diários com o trabalho. Terceiro, use o tempo da refeição para oração e leitura bíblica. Elimine as distrações da rotina e procure um lugar silencioso, longe das pessoas. Quarto, apresente alvos específicos diante de Deus (santidade pessoal, família, igreja, missões, decisões importantes). Você pode se concentrar somente em um alvo, fazendo um jejum para cada alvo. Mas pode também focar em todos esses alvos.

Por fim, faça tudo isso como um privilégio de buscar mais profundamente ao Senhor. Que o Espírito Santo acenda em nossos corações uma fome santa e sobrenatural por Deus, a ponto de dizermos como o salmista: 


A quem tenho eu no céu senão a Ti? E na terra nada mais desejo além de estar junto a Ti” (Salmos 73.25)

Introdução

Quando se fala em escatologia dispensacionalismo, muitos pensam apenas no arrebatamento secreto ou numa Grande Tribulação de sete anos. Mas o dispensacionalismo é um sistema mais amplo, que organiza toda a história bíblica, a relação entre Israel e a Igreja, e a leitura das profecias. Ao longo dos anos, esse sistema não permaneceu o mesmo. Ele foi sendo ajustado e revisado. Hoje, podemos falar, de forma geral, de três tipos ou faces (rostos): dispensacionalismo clássico, revisado e progressivoNeste texto, quero apresentar essas três formas de maneira simples e didática, mencionando alguns dos seus principais representantes e, ao final, mostrar como esse tipo de escatologia traz implicações práticas (infelizmente, problemáticas) para a vida cristã, especialmente na forma como vemos a Igreja, o Reino de Deus e a nossa responsabilidade nesse mundo.

 

1. Dispensacionalismo Clássico


O dispensacionalismo nasce no século XIX, principalmente por meio de John Nelson Darby (1800–1882), ligado aos Irmãos de Plymouth. Depois, é popularizado pelo trabalho de C. I. Scofield (1843–1921) através de sua famosa Bíblia de Referência e, então, sistematizado academicamente por Lewis Sperry Chafer (1871–1952), fundador do Dallas Theological Seminary.

O dispensacionalismo clássico organiza a história bíblica em dispensações, períodos em que Deus administra a revelação e as responsabilidades humanas de forma distinta. O esquema mais conhecido fala de sete dispensações: Inocência, Consciência, Governo Humano, Promessa, Lei, Graça e Reino. Cada uma delas é vista como uma economia específica, com testes e falhas humanas sucessivas.

Mas o ponto realmente distintivo do sistema clássico é a sua visão de dois povos de Deus:


·       Israel: povo terreno, com promessas de terra, Templo e um reino político sob o governo do Messias em Jerusalém.


·        Igreja: povo celestial, com promessas ligadas ao céu, ao arrebatamento e à glória celestial.


Nesse esquema profético, a Igreja não é a continuidade histórica de Israel, mas um “mistério” revelado no Novo Testamento, um parêntese no plano de Deus para Israel. Assim, Deus teria um plano central com Israel, mas Israel rejeita o Messias, e então Deus introduz a Igreja. No fim, quando a Igreja for arrebatada, Deus retoma o Seu tratamento direto com Israel. Na escatologia cristã, o dispensacionalismo clássico é pré-milenista e, via de regra, pré‑tribulacionista também. O cronograma é, em linhas gerais, o seguinte:

 

ð Cristo volta secretamente para arrebatar a Igreja antes da Grande Tribulação (arrebatamento pré‑tribulacional).

 

ð Seguem-se sete anos de Grande Tribulação na terra, com a manifestação do Anticristo e juízos divinos.

 

ð Ao fim da Grande Tribulação, Cristo volta visivelmente com a Igreja, derrota o Anticristo na Batalha do Armagedom e inaugura o milênio.

 

ð No milênio, Cristo reina literalmente na terra, a partir de Jerusalém. Israel é restaurado e ocupa uma posição de destaque entre as nações.

 

ð Após os mil anos, Satanás é solto por um breve período, lidera uma última rebelião, é derrotado, e então ocorre o Juízo Final dos ímpios.

 

Tudo isso é sustentado por uma hermenêutica literalista rígida. Israel significa o Israel étnico. As promessas de terra significam literalmente a terra. O Templo é um Templo físico futuro, etc.


2. Dispensacionalismo Revisado


Com o passar dos anos, especialmente na primeira metade e meados do século XX, surgem críticas internas e externas ao dispensacionalismo clássico. Alguns pontos, sobretudo na doutrina da salvação e na leitura da história bíblica, precisavam de correção. É nesse contexto que aparecem nomes como Charles C. Ryrie (1925–2016), John Walvoord (1910–2002) e J. Dwight Pentecost (1915–2014), que representam o chamado dispensacionalismo revisado.

O revisado continua plenamente dispensacionalista em sua essência. Isso significa que ele mantém a distinção forte entre Israel e Igreja, o arrebatamento pré-tribulacional como marca importante, o milênio futuro literal com Cristo reinando na terra, e a leitura literal das profecias para Israel no Antigo Testamento. O que muda são alguns ajustes teológicos importantes.

O primeiro ajuste é na soteriologia (doutrina da salvação). Alguns textos clássicos foram escritos de maneira que sugeriam, ou pelo menos deixavam a impressão, de haver quase que formas diferentes de salvação em cada dispensação. Debaixo da Lei, a ênfase parecia recair na obediência. Na dispensação da Graça, na fé. E na Grande Tribulação, numa combinação de fé e certas obras (como, por exemplo, não receber a marca da besta).

O revisado reage a isso e sublinha que, em todas as épocas, a salvação é somente pela graça, mediante a fé, com base na obra de Cristo. O que muda entre as dispensações é a forma como Deus administra a revelação e as responsabilidades externas, e não o caminho da salvação em si.

O segundo ajuste é na visão do plano de Deus. A teologia reformada fala em um pacto da graça que abrange toda a história bíblica, desde o pós-queda até a consumação, tendo Cristo como o centro de tudo. O dispensacionalismo clássico, na prática, dava a impressão de “fatiar” a Bíblia em blocos bem separados. O revisado não adere à terminologia reformada de pacto da graça, mas faz questão de afirmar que a Bíblia conta uma grande história de redenção, que há um único plano global de Deus, e que as dispensações são etapas dentro desse plano, e não planos independentes.

Assim, o dispensacionalismo revisado é, em essência, o clássico mais polido, pois ele corrige uma soteriologia problemática, reconhece melhor a unidade do plano redentivo, mas preserva os pilares clássicos, isto é, a crença em dois povos (Israel e Igreja), o arrebatamento pré‑tribulacional, o milênio literal e uma hermenêutica literalista das profecias.


3. Dispensacionalismo Progressivo


A partir das décadas de 1980 e 1990, surge uma terceira perspectiva: o dispensacionalismo progressivo. Os principais nomes associados a essa forma são Craig A. Blaising (1949), Darrell L. Bock (1953) e Robert L. Saucy (1930–2015). Aqui não se trata apenas de corrigir alguns detalhes, mas de uma tentativa de repensar o sistema, trazendo um diálogo mais estreito com a teologia bíblica, especialmente com a doutrina do Reino de Deus.

O progressivo ainda se identifica como dispensacionalista e ainda é pré‑milenista, mas ele promove mudanças decisivas em alguns pontos. Primeiro, a forma de entender Israel e Igreja. O progressivo abandona a ideia de dois povos de Deus separados com dois planos paralelos eternos. Em vez disso, ele enfatiza a existência de um só povo de Deus em Cristo, formado por judeus e gentios. Israel não é uma comunidade redimida à parte, correndo em trilho paralelo à Igreja. Antes, a Igreja é vista como a comunidade do povo de Deus na Nova Aliança, e Israel, como povo étnico, tem sua importância compreendida dentro desse único povo. Muitos progressivos ainda esperam um despertamento futuro de Israel étnico (por exemplo, com base em Romanos 11), mas isso é entendido como parte da história de um único povo redimido, e não como um “segundo povo” ao lado da Igreja.

A segunda grande mudança é quanto à doutrina do Reino de Deus. O progressivo assume explicitamente o esquema teológico do “já e ainda não”. O Reino de Deus já foi inaugurado na Primeira Vinda de Cristo. Ele já está entronizado à direita do Pai. O Espírito Santo já foi derramado. A Igreja já é a expressão do Reino na história. O milênio, então, não é o início do Reino, mas um desdobramento futuro desse Reino já presente, isto é, uma fase histórica específica depois do Retorno de Cristo. Nesse ponto, o progressivo se aproxima bastante da teologia do Reino de George Eldon Ladd (1911–1982), um pré‑milenista histórico que não era dispensacionalista, mas que também via o Reino como já presente e ainda futuro.

Terceiro, há uma mudança na hermenêutica. O progressivo continua afirmando que Deus é fiel às Suas promessas, mas reconhece que essas promessas se cumprem de forma cristocêntrica e muitas vezes tipológica. Ele está disposto a admitir o sensus plenior (sentido pleno) das profecias, ou seja, a ideia de que o cumprimento em Cristo pode revelar dimensões mais profundas do que os escritores do Antigo Testamento poderiam enxergar. Ao invés de insistir que toda promessa a Israel só pode ser cumprida em um reino nacional político futuro, o progressivo vê grande parte dessas promessas se realizando em Cristo e na Igreja, sem excluir necessariamente algum papel futuro para Israel.

Por fim, o lugar do arrebatamento dentro do sistema progressivo muda de status. O sistema continua pré-milenista, mas o arrebatamento pré-tribulacional deixa de ser o coração do sistema. No progressivo, há mais abertura para diferentes entendimentos do momento do arrebatamento, e o foco desloca-se para a unidade do povo de Deus, para a progressividade da revelação e para o Reino de Deus.


4. Implicações Práticas Negativas


Entender essas três perspectivas não é um exercício meramente teórico. Há implicações pastorais e práticas importantes, sobretudo no caso do dispensacionalismo clássico e revisado, e em menor medida, ainda presentes no progressivoUma das primeiras consequências é a desvalorização da Igreja. Quando a Igreja é vista como um parêntese no plano de Deus, como algo provisório e secundário em relação a Israel, isso tende a enfraquecer a visão bíblica da Igreja como centro da obra de Cristo na Nova Aliança. Os crentes podem se empolgar com Israel, com as notícias do Oriente Médio, com aqueles gráficos proféticos, mas tratar a igreja local como algo quase irrelevante. O culto público, as ordenanças, a disciplina eclesiástica, a comunhão dos santos e a vida de corpo perdem peso na prática.

Outra consequência é a promoção de uma espécie de espiritualidade de fuga. Se a leitura da história é essencialmente pessimista (“o mundo só piora a cada dia, não existe qualquer esperança de uma transformação real”) e, ao mesmo tempo, se acredita num arrebatamento a qualquer momento que retirará a Igreja do cenário, então o impulso natural é abandonar qualquer visão de engajamento mais profundo com o mundo. Dessa forma, educação, cultura, política, arte, ciência, etc., tudo isso é visto como quase inútil, porque “o navio vai afundar de qualquer jeito”. A missão da Igreja é reduzida a empilhar o máximo de pessoas nos botes salva-vidas antes de tudo explodir. O resultado é um evangelismo focado apenas em “escapar da Grande Tribulação” e um discipulado raso, sem formação de cosmovisão cristã e sem vocação de servir a Cristo em todas as esferas da vida.

Outro ponto negativo é que há um efeito sobre a forma de ler a Bíblia. O dispensacionalismo clássico, principalmente em sua forma popularizada, fragmenta a Escritura. O Antigo Testamento é apenas para Israel, muitas palavras de Cristo são empurradas para o milênio, e as cartas de Paulo se tornam quase o único manual para a Igreja. Isso enfraquece a percepção da unidade da história da redenção, dificulta uma leitura cristocêntrica da Bíblia como um todo e, na prática, faz com que partes inteiras da Escritura sejam vistas como pouco relevantes para a vida cristã hoje.

Por fim, é comum que uma escatologia dispensacionalista mal digerida gere obsessão por sinais, teorias conspiratórias e curiosidade doentia, em vez de santidade e missão. Ao invés de olhar para o Retorno de Cristo como motivo de esperança, consolo e seriedade na santificação, muitos ficam presos em especulações sobre o Anticristo, chip, ONU, Rússia, China, Israel moderno, etc. A escatologia deixa de ser combustível para uma vida de obediência e passa a alimentar o medo e uma postura defensiva em relação ao mundo.


Conclusão


As três formas de dispensacionalismo podem ser resumidas assim: o clássico é a forma original, que separa rigidamente Israel e Igreja, faz da Igreja um parêntese, insiste no arrebatamento pré-tribulacional e num milênio judaico literal. O revisado mantém esse esqueleto, mas corrige a doutrina da salvação e reconhece melhor que existe um plano global de Deus que atravessa as dispensações. E o progressivo tenta aproximar o sistema da teologia bíblica do Reino, fala de um só povo de Deus em Cristo, assume o Reino “já e ainda não”, e usa uma hermenêutica mais cristocêntrica e tipológica; porém, permanece pré-milenista.

Compreender essas diferenças ajuda você não apenas a identificar de onde vêm certas pregações e livros de escatologia, mas também a perceber como essas visões moldam, para o bem ou para o mal, a prática da Igreja. Uma escatologia que diminui a Igreja, despreza a história, estimula a fuga do mundo e fragmenta a Bíblia é, no mínimo, perigosa. Em contraste, a escatologia bíblica deve nos levar a amar mais a Igreja, a enxergar o senhorio de Cristo sobre todas as áreas da vida, a ler toda a Escritura à luz de Cristo e a viver com esperança e responsabilidade, sabendo que o mesmo Jesus que reina agora voltará para consumar aquilo que já começou.