pub-9363386660177184 Pensando as Escrituras

Poucos textos da Bíblia geram tanta confusão e tanto medo entre os cristãos quanto Mateus 24. Lemos sobre guerras, fomes, terremotos, sinais no sol e na lua, tribulação como nunca houve, o abominável da desolação, etc. Quando lido de forma desatenta, muitos enxergam nesse capítulo uma descrição detalhada do fim do mundo, algo ainda por acontecer em nossos dias. Contudo, uma leitura mais cuidadosa do texto, atenta ao seu contexto histórico e às próprias palavras de Jesus, revela que essas profecias já se cumpriram na destruição de Jerusalém e do Templo, ocorrida no ano 70 DC.

Essa visão hermenêutica é conhecida como Preterismo Parcial, que sustenta que boa parte das profecias de Mateus 24 (ou todas elas, dependendo da linha preterista parcial defendida) se refere a eventos já cumpridos no primeiro século, sem negar, contudo, a futura e gloriosa volta de Cristo. Essa leitura do texto, unida à esperança pós-milenista, nos liberta do medo de um colapso iminente e, ao mesmo tempo, nos direciona para a certeza de que Cristo continuará reinando até que todos os Seus inimigos sejam subjugados.

 

O contexto da pergunta dos discípulos

 

Tudo começa com um diálogo aparentemente simples, porém, fundamental para a correta interpretação do capítulo. Jesus havia acabado de sair do Templo quando declarou aos discípulos algo impactante: “Não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada” (Mt 24.2). Diante dessa afirmação, os discípulos perguntaram: “Dize-nos, quando serão essas coisas, e que sinal haverá da tua vinda e do fim do mundo?” (Mt 24.3).

É importante perceber que essa pergunta foi motivada diretamente pela previsão da destruição do Templo. Os discípulos queriam saber quando aquilo aconteceria e qual seria o sinal desse evento específico. Portanto, o discurso de Jesus que se segue deve ser lido como resposta a essa pergunta sobre a destruição do Templo de Jerusalém, e não como uma descrição detalhada e distante do fim absoluto da história.

 

E não passará esta geração”: a chave interpretativa

 

O texto mais decisivo para a leitura preterista parcial está no versículo 34: “Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas essas coisas aconteçam” (Mt 24.34). Jesus não disse “aquela geração”, nem “uma geração futura e distante”. Ele afirmou que a geração à qual Ele estava falando, aquela mesma que O ouvia naquele momento, veria o cumprimento de tudo o que fora descrito anteriormente.

Ora, a geração de um homem, na linguagem bíblica e no uso comum da época, corresponde a cerca de 40 anos. E é exatamente esse o intervalo entre as palavras de Jesus, ditas por volta do ano 30 DC., e a destruição de Jerusalém pelas legiões romanas comandadas por Tito, no ano 70 DC. A história confirma, com precisão impressionante, a exatidão da profecia de Jesus, pois, de fato, o Templo foi completamente destruído, e não restou pedra sobre pedra, exatamente como Ele havia anunciado.

 

Os sinais cumpridos no primeiro século

 

Vários elementos descritos por Jesus em Mateus 24 encontram correspondência direta com os eventos documentados pela história do primeiro século, especialmente pelos registros do historiador judeu Flávio Josefo (37 DC—ca. 100 DC), que foi uma testemunha ocular do cerco de Jerusalém.

Jesus falou de guerras e rumores de guerras (Mt 24.6), e o período que antecedeu o ano 70 foi marcado por intensa instabilidade política no Império Romano e por revoltas judaicas. Ele mencionou fome e terremotos em diversos lugares (Mt 24.7) e, realmente, eventos dessa magnitude foram amplamente registrados por historiadores da época. Jesus também falou da Grande Tribulação “qual nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem tampouco há de haver” (Mt 24.21). Essa declaração do Senhor encontra um eco terrível nos relatos de Josefo sobre o cerco de Jerusalém, quando a fome implacável levou a cidade a cenas de horror indescritível.

O “abominável da desolação, predito pelo profeta Daniel” (Mt 24.15) é compreendido, por muitos estudiosos preteristas, como referência à profanação do Templo pelas tropas romanas ou pelos próprios zelotes judeus que ocuparam o santuário durante o cerco. Jesus instruiu dizendo que, ao verem esse sinal, os que estivessem na Judeia deveriam fugir para os montes (Mt 24.16). Há registros históricos de que a comunidade cristã de Jerusalém, lembrando-se dessas palavras, de fato fugiu para a cidade de Pella antes do início do cerco final, sendo, dessa forma, poupada da cruel destruição.

 

E os sinais no sol, na lua e nas estrelas?

 

Um dos pontos que mais geram dúvidas está na passagem que descreve o sol escurecendo, a lua não dando a sua claridade, e as estrelas caindo do céu (Mt 24.29). À primeira vista, esses versículos parecem indicar um evento cósmico literal, associado ao fim absoluto do Universo. É assim que muitos entendem. Contudo, essa mesma linguagem é utilizada no Antigo Testamento como figura de linguagem para descrever o julgamento do Senhor sobre nações e cidades, sem que isso implique, necessariamente, o fim literal do cosmos.

O profeta Isaías, ao anunciar o julgamento sobre a Babilônia, usou uma expressão semelhante: “As estrelas dos céus, e as suas constelações, não deixarão brilhar a sua luz; o sol se escurecerá ao nascer, e a lua não resplandecerá com a sua luz” (Is 13.10). Ninguém interpreta essa passagem como uma descrição literal do fim do Universo físico, mas sim, como linguagem apocalíptica para anunciar a queda de um poder político e religioso. Da mesma forma, Jesus usa essa linguagem simbólica, comum aos profetas do Antigo Testamento, para anunciar o fim do sistema religioso judaico centrado no templo de Jerusalém, que até então representava, aos olhos de Israel, a própria estrutura do mundo.

 

O que continua futuro? A Segunda Vinda de Cristo

 

É importante deixar claro que a leitura preterista parcial não nega a Segunda Vinda de Cristo, nem transforma toda a escatologia bíblica em eventos já cumpridos no passado, como faz a heresia hiperpreterista. No livro de Atos, os anjos declaram aos discípulos, logo após a ascensão do Senhor: “Este Jesus, que dentre vós foi recebido em cima no céu, há de vir assim como para o céu o vistes ir” (At 1.11). Aqui há uma promessa clara acerca do Retorno físico e visível.

Paulo, em sua primeira carta aos tessalonicenses, descreve com detalhes esse acontecimento: “Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor” (1Ts 4.16,17). Esse texto não trata de julgamento sobre uma cidade específica, mas da ressurreição geral dos mortos e do encontro definitivo da Igreja com Cristo.

Portanto, a certeza da volta gloriosa de Cristo não depende de uma leitura futurista de Mateus 24, mas está ancorada em outros textos do Novo Testamento. Isso permite ao cristão preterista parcial sustentar, com igual convicção, tanto o cumprimento integral das palavras de Jesus sobre a destruição de Jerusalém quanto a esperança viva e inabalável do Retorno pessoal, visível e glorioso do Senhor Jesus Cristo, quando toda a Criação será finalmente restaurada e “Deus será tudo em todos” (1Co 15.28).

 

Por que essa leitura sustenta a esperança pós-milenista?

 

Compreender corretamente Mateus 24 traz uma liberdade espiritual muito grande. Ao entender que a Grande Tribulação já ocorreu no primeiro século, deixamos de projetar sobre o futuro um cenário inevitável de colapso e perseguição generalizada, como se isso fosse um sinal necessário e iminente do fim do mundo. O cumprimento da Grande Tribulação abre espaço para a esperança pós-milenista, pois, depois daquele evento marcante (a destruição do antigo sistema judaico), a história passa a ser vista como um longo período de avanço do Reino de Deus sobre as nações.

A destruição do Templo marcou justamente a transição definitiva entre a Antiga Aliança e a plena era do Evangelho, livre das amarras do sistema levítico. Com o véu do Templo já rasgado (Mt 27.51) e agora com o próprio Templo destruído, nada mais impede que o Evangelho avance livremente sobre toda a Terra, cumprindo, assim, a Grande Comissão e discipulando as nações, exatamente como Cristo ordenou.

 

Vivendo com discernimento e esperança

 

Mateus 24 não deveria ser uma fonte de ansiedade para o nosso coração, nem de especulações sensacionalistas sobre datas e sinais do fim do mundo. Uma leitura cuidadosa e fiel revela um cumprimento preciso e impressionante das palavras do Senhor na destruição de Jerusalém no ano 70 DC, confirmando a absoluta confiabilidade da profecia bíblica.

Essa compreensão liberta o nosso coração do medo constante e nos direciona para uma vida de oração fervorosa e pregação fiel do Evangelho, na certeza de que Cristo reina soberanamente sobre a história e que o Seu Reino continuará avançando até a plena manifestação da Sua glória sobre todas as nações. Que essa verdade fortaleça a sua fé. Que você seja motivado a interceder com mais intensidade e a anunciar, com coragem, as boas-novas de Jesus Cristo àqueles que ainda não O conhecem.

Se você gostou desse artigo e deseja aprofundar a sua compreensão sobre a escatologia bíblica e a interpretação preterista parcial de Mateus 24, recomendo a leitura do livro “Os Últimos Dias Segundo Jesus”, de R. C. Sproul. E não deixe de se inscrever em meu canal Pensando as Escrituras, no YouTube, onde você vai encontrar muitos outros vídeos sobre escatologia pós-milenista e preterista parcial.

 

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Quando o assunto é escatologia, muitos cristãos sentem um misto de curiosidade e insegurança. Afinal, o que a Bíblia realmente ensina sobre o futuro do mundo, o reinado de Cristo e o destino da Igreja na história? Entre as diversas respostas que a tradição cristã oferece a essas perguntas, existe uma visão que, embora antiga, tem sido redescoberta por muitos crentes sedentos por uma esperança mais robusta. Essa visão se chama Pós-Milenismo.

Diferente das outras perspectivas que, lamentavelmente, enxergam um mundo cada vez pior até a volta de Cristo, o pós-milenismo apresenta uma visão de vitória. O Evangelho, pregado fielmente e acompanhado por vidas dedicadas à oração, transformará progressivamente as nações, até que a Terra seja repleta do conhecimento do Senhor “como as águas cobrem o mar” (Hc 2.14; cf. Is 11.9). Esse artigo tem como objetivo apresentar, de forma simples e acessível, o que é o pós-milenismo, quais são seus fundamentos bíblicos e por que essa visão desperta fervor espiritual e confiança na intervenção sobrenatural de Deus na história.

 

O significado do termo “Pós-Milenismo”

A palavra “pós-milenismo” vem da combinação entre o prefixo “pós”, que significa “depois”, e “milênio”, termo derivado de Apocalipse 20, que descreve um período simbólico de mil anos de reinado de Cristo. De acordo com essa visão, a Segunda Vinda de Jesus ocorrerá depois (pós) desse período de expansão e triunfo do Reino de Deus sobre a Terra. Isso não significa, necessariamente, que o período equivale a mil anos literais no calendário, mas sim, a um longo período histórico em que o Evangelho avançará, as nações serão discipuladas e a justiça de Deus se manifestará cada vez mais profundamente nas estruturas humanas. E isso até que Cristo retorne para consumar definitivamente o Seu Reino e entregá-lo ao Pai.

É importante deixar claro que o pós-milenismo não é uma invenção moderna, nem uma ideologia otimista desconectada das Escrituras. Ele está enraizado em textos bíblicos e foi defendido por teólogos e pregadores de grande fervor espiritual ao longo da história, como Jonathan Edwards (1703-1758), que via nos avivamentos de sua época sinais do avanço progressivo do Reino de Deus sobre as nações.

 

O fundamento bíblico da esperança pós-milenista

O coração do pós-milenismo está na convicção de que Cristo já reina agora, e que esse reinado não é passivo, mas ativo e conquistador. O apóstolo Paulo declara que “convém que Ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo de Seus pés” (1 Co 15.25). Note que o texto não fala de um reinado futuro que começará quando Jesus voltar, mas de um reinado presente, que continuará avançando até a sujeição total de todo poder contrário a Deus, incluindo a própria morte.

Essa mesma ideia aparece no Salmo 110, um dos textos messiânicos mais citados no Novo Testamento: “Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os Teus inimigos por escabelo dos Teus pés” (Sl 110.1). O Senhor Jesus está assentado, reinando, e a história caminha na direção da sujeição de todos os Seus inimigos. Não se trata de um evento instantâneo, mas de um processo histórico conduzido pela providência e pelo poder de Deus.

A Grande Comissão reforça essa mesma esperança. Jesus não pediu aos discípulos que apenas anunciassem uma mensagem de sobrevivência espiritual em meio a um mundo caótico. Ele afirmou: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Portanto, ide, fazei discípulos de todas as nações” (Mt 28.18-19). A ordem de discipular as nações pressupõe que essa missão será, de fato, bem-sucedida. Um Rei que possui toda autoridade não enviaria o Seu povo a uma missão fadada ao fracasso.

 

O crescimento do Reino como uma semente

Jesus utilizou parábolas para descrever a natureza do Reino de Deus, e muitas delas apontam para um crescimento gradual, quase imperceptível no início, mas com um resultado grandioso no final. A parábola do grão de mostarda ilustra bem esse princípio, ao afirmar que “o Reino dos céus é como um grão de mostarda que um homem, tomando-o, semeou no seu campo; o qual é, na verdade, a menor de todas as sementes, mas, crescendo, é a maior das hortaliças” (Mt 13.31-32). O Reino de Deus começou bem pequeno, muitas vezes, inclusive, desprezado, porém, ele está crescendo até se tornar algo grandioso, capaz de abrigar todas as nações.

Da mesma forma, a parábola do fermento (Mt 13.33) descreve como o Reino de Deus penetra silenciosamente em toda a massa até que a massa seja completamente transformada. Essas imagens não combinam com uma escatologia pessimista, mas com um processo de expansão progressiva, exatamente aquilo que o pós-milenismo defende. O Evangelho, como um fermento espiritual, vai penetrando as famílias, as culturas, as estruturas sociais e as nações, transformando-as pelo poder do Espírito Santo.

 

A prática concreta do cristão pós-milenista

Diante dessa esperança, é natural que nos perguntemos: “Mas como o cristão que abraça essa visão deve viver na prática?” A resposta é simples e profundamente espiritual. A vida espiritual e prática do pós-milenista se concentra, essencialmente, em dois pilares inegociáveis: (1) a oração fervorosa e (2) a pregação fiel do Evangelho.

O pós-milenista ora porque crê que somente Deus responde e intervém sobrenaturalmente na história, trazendo avivamentos, despertando igrejas adormecidas e mudando os corações endurecidos. E ele prega porque confia que a Palavra de Deus não retorna vazia, mas ela cumpre os desígnios do Senhor (cf. Is 55.11). Não há espaço, nessa visão, para um ativismo político carnal, nem para uma fé passiva que apenas espera o fim do mundo acontecer. Existe, sim, um chamado urgente e alegre para interceder diante do trono de Deus e para anunciar as boas-novas de Jesus Cristo a toda criatura, na certeza de que essas duas práticas (oração e pregação) são os meios pelos quais o Senhor está edificando o Seu Reino sobre a Terra.

 

Uma esperança diferente das demais visões escatológicas

É importante esclarecer que o pós-milenismo não é a única perspectiva escatológica dentro do Cristianismo evangélico. De fato, cristãos sinceros e piedosos discordam entre si sobre esse tema. Enquanto o Pré-Milenismo geralmente enxerga um cenário de crescente apostasia e tribulação antes da volta de Cristo, e o Amilenismo entende o Milênio como algo simbólico já presente entre a Primeira e a Segunda Vinda, sem necessariamente esperar um triunfo visível do Evangelho na história, o pós-milenismo se distingue justamente por sua ênfase na vitória progressiva e histórica do Reino antes do Retorno glorioso de Cristo.

Essas diferenças não devem gerar hostilidade entre os irmãos, mas sim, um diálogo respeitoso, fundamentado nas Escrituras e movido pelo amor fraternal. Ainda assim, é legítimo e saudável que cada cristão busque compreender profundamente aquilo que a Bíblia ensina, formando suas convicções com humildade e temor ao Senhor.

 

Vivendo hoje a esperança do amanhã

Assim, compreender o pós-milenismo é uma oportunidade para viver uma fé cristã corajosa e cheia de expectativa diante das promessas de Deus. Se Cristo já reina, e se esse reinado está avançando até a sujeição de todos os Seus inimigos, então cada crente deve participar dessa obra através da oração perseverante e da pregação fiel do Evangelho, confiando que o Senhor está, sim, intervindo sobrenaturalmente na história e transformando nações inteiras pelo poder do Seu Espírito.

Que essa verdade não fique no campo teórico, mas mova o nosso coração à oração fervorosa pela nossa família, pela nossa igreja e pelas nações do mundo. E também nos impulsione a pregar com mais coragem o nome de Jesus, na certeza de que o Reino de Deus, como o grão de mostarda, continuará crescendo até encher toda a Terra.

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Jesus disse: “Ele [o Pai] lhes fará justiça e depressa. Contudo, quando o Filho do homem vier, encontrará fé na terra?” (Lc 18.8). Com essa afirmação, Jesus desperta de imediato a nossa atenção. Será que a fé vai desaparecer antes de Seu Retorno? Será que essa pergunta é uma profecia sombria sobre o futuro do Cristianismo? Antes de qualquer comentário, quero falar sobre a natureza do debate em torno desse texto. A passagem tem sido o epicentro de uma tensão entre dois campos interpretativos: o pessimismo fatalista, de um lado, e o otimismo contextual, do outro. O cerne do problema é determinar se a pergunta de Jesus é uma profecia de fracasso institucional ou um desafio à nossa fidelidade.

Posto isso, vamos falar do conteúdo do debate. Como você notou, o propósito principal desse texto não é apenas apresentar as posições divergentes, mas criticar a posição que está errada. E por que criticá-la? Porque a interpretação pessimista contém erros exegéticos sérios que não podemos aceitar sem questionamento.

Os teólogos dispensacionalistas H. Wayne House e Thomas D. Ice representam a ala pessimista. Para esses autores, a estrutura da pergunta de Jesus exige uma conclusão negativa sobre o estado futuro da Igreja. Nas palavras deles, trata-se de uma questão de inferência para a qual se espera uma resposta negativa. Assim, em Seu retorno, Jesus não encontraria, de forma literal, fé na Terra.

Infelizmente, o propósito dessa interpretação é invalidar o otimismo cristão, especialmente o pós-milenismo. Se a fé está profeticamente destinada a desaparecer, qualquer esforço de expansão do Reino seria inútil. Todavia, essa visão carrega uma inconsistência lógica que seus próprios proponentes não conseguem resolver. Nem mesmo os sistemas teológicos defendidos por House e Ice admitem que o Cristianismo estará totalmente morto na volta de Cristo, pois isso anularia a própria existência de um remanescente ou de santos tribulacionais. A posição deles se contradiz antes mesmo de chegarmos ao texto grego.

Para uma exegese rigorosa, é necessário confrontar essa premissa pessimista com quatro evidências que, juntas, a desmantelam completamente.

A primeira diz respeito ao foco da pergunta. Jesus não está falando da existência global do Cristianismo como religião. Ele está falando de oração fervorosa e persistência dos eleitos de Deus em tempos de profunda pressão. O uso do artigo definido no grego, tēn pistin, é o fator determinante para a correta interpretação. O artigo definido exerce uma função anafórica, isto é, remete o leitor diretamente ao contexto anterior, a parábola da viúva persistente. Jesus não está falando de fé em sentido soteriológico geral, mas daquela qualidade específica de fé que se recusa a desistir. Aliás, o próprio Lucas deixou o propósito explícito desde o versículo 1 do mesmo capítulo. Ele disse que Jesus ensinou a parábola para que os discípulos “orassem sempre e não desanimassem”. A pergunta do versículo 8 é, portanto, o fechamento lógico desse ensino.

A segunda evidência está na gramática grega. Ao contrário do que afirmam House e Ice, a gramática não sustenta uma resposta negativa obrigatória. Segundo os renomados gramáticos Funk, Blass e Debrunner, a construção de perguntas no grego segue regras claras. A partícula ou é empregada quando se espera uma resposta afirmativa. Já as partículas ou mēti são usadas para sugerir uma resposta negativa. Em Lucas 18.8, nenhuma dessas partículas ocorre. Ao invés disso, encontramos a expressão ara, que, conforme as autoridades citadas, indica um tom de suspense ou impaciência. Portanto, a resposta à pergunta de Jesus é gramaticalmente ambígua, deixada em aberto de propósito para provocar um autoexame no ouvinte. Sinceramente, não sei como House e Ice sustentam a afirmação de que a gramática exige um não, quando as próprias autoridades do grego que deveriam consultar dizem o contrário.

A terceira evidência é o contexto histórico de iminência. Jesus afirma categoricamente que Deus fará justiça “depressa”. Essa linguagem de prontidão, em grego en tachei, aparece em passagens como Apocalipse 1.1, onde João diz que as coisas devem acontecer “em breve”. A promessa de que Deus responderia depressa não se sustenta se o seu cumprimento estivesse a milênios de distância. O contexto precedente, em Lucas 17.22-37, aponta para a destruição de Jerusalém. Jesus estava preparando os discípulos para a Grande Tribulação daquela geração. A “vinda” em questão é a visitação de Deus em juízo contra Israel que culminou no ano 70 DC.

A quarta evidência é de pura lógica. Nenhuma tradição cristã coerente defende a extinção completa da fé antes do retorno de Cristo. Trata-se de uma reductio ad absurdum que os próprios pessimistas não conseguem sustentar dentro de seus próprios sistemas teológicos.

Quase toda interpretação pessimista que se faz desse versículo é feita fora do contexto literário e histórico imediato, lançando mão de uma leitura tendenciosa, para dizer o mínimo. A falha central reside no isolamento do versículo de seu arcabouço literário e histórico, o que os hermeneutas chamam de negligência da vizinhança hermenêutica.

Assim, considero a interpretação pessimista de Lucas 18.8 um equívoco exegético grave e um grande perigo, especialmente para os novos na fé. Nada é mais prejudicial do que transformar um chamado à perseverança em uma profecia de derrota. A convicção que fica é que interpretar Lucas 18.8 como o fim do Cristianismo é ignorar tanto a gramática de Blass e Debrunner quanto o próprio propósito consolador de Cristo. O texto não é um obituário da fé. É um tônico para a perseverança.

 

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Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que a interpretação que vou expor aqui não é nova, pelo menos dentro do universo dos estudos teológicos. Ela pode ser nova, é claro, para aqueles que estão lendo sobre isso pela primeira vez. Apesar disso, saiba que esse entendimento está enraizado no próprio vocabulário grego do Novo Testamento e na lógica interna das Escrituras. E, ao contrário do que pode parecer, não tem nada a ver com sensacionalismo profético.

O ponto de partida é uma inversão de expectativa. Quando a maioria das pessoas ouve a palavra Apocalipse, o instinto automático é montar um roteiro catastrófico na cabeça. As pessoas imaginam bestas saindo do mar, asteroides, oceanos em fúria e um caos cinematográfico de proporções bíblicas. Essa atitude é até compreensível. Todavia, a cena mais icônica do livro, aquela do anjo descendo do céu com uma grande corrente para prender o dragão por mil anos (Ap 20.1-3), não é uma profecia aterrorizante sobre o que acontecerá no futuro. Na verdade, temos aqui o relato simbólico de uma virada jurídica que já aconteceu.

Para entender isso, é preciso voltar ao Evangelho de Mateus capítulo 12. Ali, os fariseus acusam Jesus de expulsar demônios usando o poder de Belzebu. Jesus aponta a falha lógica dessa acusação de imediato. Ele diz que um reino dividido contra si mesmo não pode subsistir. E então, no meio dessa resposta, Ele introduz uma parábola que funciona como a pedra de roseta para decodificar o Apocalipse. Ele pergunta: “Como pode alguém entrar na casa do valente e roubar os seus bens sem primeiro amarrá-lo?” (Mt 12.29). A palavra grega usada ali para “amarrar” é deô. Tempos depois, em Apocalipse 20, João usa a mesma palavra para descrever o anjo que prende o dragão. Você acha que isso é uma coincidência de vocabulário? Claro que não. Isso é uma ponte intencionalmente construída. Jesus, em Mateus 12, estava antecipando em linguagem parabólica o que João descreveria de forma visionária profética. O ponto é que a prisão de Satanás é uma condição prévia para o saque da casa, ou seja, para o resgate da humanidade mantida em cativeiro espiritual.

Posto isso, surge uma objeção bastante comum. Se Satanás já foi amarrado, por que o apóstolo Pedro nos alerta dizendo que o diabo anda como leão rugindo em busca de alguém para devorar (1Pe 5.8)? Por que Paulo gasta capítulos inteiros descrevendo as ciladas do inimigo e falando de armaduras espirituais (Ef 6.10-17)? Aqui está o erro que faz muita gente tropeçar. As pessoas tentam aplicar uma lógica física e espacial a uma realidade que é, acima de tudo, jurídica. Ora, a prisão relatada em Apocalipse 20 nunca teve intenção de ser compreendida como uma paralisação motora absoluta, como se o inimigo virasse uma estátua de sal. O que foi destruído foi a base legal de sua autoridade.

O texto de Colossenses 2.14-15 explica a mecânica disso com precisão cirúrgica. Paulo fala sobre o cancelamento do “escrito de dívida” que existia contra nós, o documento que foi encravado na cruz. Ao pagar essa dívida, Cristo despojou os principados e as potestades, expondo-os publicamente ao desprezo. Sem a nota promissória da culpa humana nas mãos, o acusador foi destituído no tribunal cósmico. Isso significa que a influência satânica continua operando. O pai da mentira continua mentindo. O leão continua rugindo. No entanto, ele faz tudo isso sem a jurisdição oficial. A assinatura dele não vale mais nada.

Mas há ainda uma dimensão geopolítica nessa prisão que passa completamente despercebida numa leitura individualista das Escrituras. Apocalipse 20.3 é bem específico ao dizer que o dragão foi preso para não mais enganar as nações. A corrente não o impede de lançar tentações cotidianas sobre nós. A prisão ocorreu para quebrar um monopólio que durava milênios. No Antigo Testamento, o modelo de atuação de Deus era geograficamente concentrado em Israel. Por exemplo, o Salmo 147.20 diz: “Não fez assim a nenhuma outra nação”. O restante do globo estava entregue às entidades espirituais do mal, aos deuses nacionais do mundo antigo, que a cosmovisão bíblica trata como principados que mantinham civilizações inteiras na cegueira espiritual. É o que Lucas 4 deixa claro quando o diabo oferece a Jesus todos os reinos do mundo, alegando que a autoridade sobre eles “me foi entregue”. E Jesus não contesta a premissa. A omissão de um contra-argumento legal ali é ensurdecedora.

No entanto, a cruz de Cristo mudou tudo isso. Quando Jesus, após a ressurreição, declara que “toda autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28.18), Ele está descartando juridicamente o argumento que o diabo havia usado no deserto. O monopólio sobre as nações acabou. E é por isso que a ordem seguinte, “vão e façam discípulos de todas as nações” (Mt 28.19), não é uma campanha de conscientização. É uma operação de retomada de território. Os apóstolos não estavam abrindo mais um templo num mercado religioso saturado. Eles estavam entregando as notificações de despejo aos antigos ocupantes. Paulo resume isso ao detalhar sua tarefa missionária: “Para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres à luz, e do poder de Satanás a Deus [...]” (Atos 26.18).

Finalmente, considero que a maior evidência histórica de que essa prisão de Satanás já aconteceu somos nós mesmos. Qualquer pessoa que hoje, vivendo fora de Israel, tendo origem gentílica, compreende e debate livremente sobre o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, é a prova viva de que aquela muralha espiritual geopolítica foi demolida. O mundo ocidental parou de oferecer sacrifícios humanos para apaziguar deuses de rios e tempestades. Isso é o resultado de uma sentença proferida há dois mil anos num tribunal que a maioria das pessoas sequer sabe que existe.

Assim, considero que ler Apocalipse 20 como sendo uma profecia futurista é perder completamente o ponto central da história. O texto nos chama a reconhecer que o martelo do Juiz já bateu, que as algemas já foram colocadas no inimigo e que a missão da Igreja consiste em anunciar, nas filiais mais remotas do planeta, que o antigo contrato foi rasgado em praça pública.

 

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Com esse título um pouco técnico, você pode estar se perguntando o que é esse tal de “mandato cultural” e o que significa “domínio cristão”. Antes de responder, preciso dizer que essas são, na verdade, ideias muito antigas na história da teologia. Tão antigas quanto as primeiras páginas da Bíblia. E, ao contrário do que pode parecer, essas expressões não têm nada a ver com autoritarismo ou com arrogância religiosa.

O ponto de partida é a nossa própria identidade. A Bíblia diz que Deus criou o ser humano à Sua imagem e semelhança (Gn 1.26-27). Isso não é um detalhe pequeno e insignificante. Ser imagem de Deus não é uma medalha que recebemos por termos um bom comportamento, mas é a nossa própria natureza. E parte dessa imagem é justamente refletir, no nível humano, a autoridade e o poder criativo de Deus. No mesmo versículo, o Senhor declara que o homem deve dominar sobre toda a Criação: peixes, aves, gado e toda a terra. Isso é o mandato cultural.

Muita gente acredita que, depois que Adão pecou, esse mandato teria sido cancelado. Mas as Escrituras mostram o contrário. Mesmo após a queda, o homem continua sendo tratado como imagem de Deus (Gn 9.6). O Salmo 8 reafirma isso, dizendo que Deus coroou o ser humano de glória e lhe deu domínio sobre as obras de Suas mãos. Percebe? O chamado permanece. Deus não desistiu do mundo físico nem da história humana. Tanto que, na plenitude dos tempos, Deus enviou o Seu próprio Filho em um corpo humano real para redimir a humanidade inteira e o próprio processo histórico.

É nesse ponto que a redenção entra em cena de forma poderosa. Logo depois da queda, em Gênesis 3.15, Deus já providencia a solução para o problema. Ele afirma que a descendência da mulher esmagaria a cabeça da serpente. Esse esmagamento de Satanás acontece dentro da história, produzindo consequências reais e concretas. Essa mesma promessa é ampliada na aliança com Abraão quando Deus garante que “todas as famílias da terra serão abençoadas” por meio dEle. O apóstolo Paulo explica que isso significa que Abraão — e, por extensão, todos os que pertencem a Cristo — seria o “herdeiro do mundo” (Rm 4.13). Isso quer dizer que o domínio cristão não é imposto à força. O domínio acontece por meio da conversão gradual das nações e pela disseminação do evangelho, transformando a cultura de dentro para fora.

O que tudo isso significa na prática? Significa que o seu trabalho, a sua arte, a sua influência no bairro, na escola ou no escritório não são atividades neutras. Elas são, na verdade, o cumprimento de um chamado que começou no Jardim do Éden. O mandato cultural nos ensina que o mundo pertence ao Senhor e que Ele quer ver a Sua glória enchendo toda a terra. Essa é uma visão profundamente otimista. A redenção de Cristo é mais poderosa do que a queda de Adão. E o cristão que entende isso para de ver a sua rotina como algo comum e passa a encará-la como parte de um plano soberano que, no final, triunfará na história.

 

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Durante séculos, o livro de Apocalipse foi lido como um mapa do futuro. A imaginação popular sempre projetou suas imagens perturbadoras para algum ponto distante no horizonte da história humana. Mas e se essa leitura estiver errada? E se os eventos descritos por João não fossem uma previsão, mas um registro simbólico de algo que já ocorreu há quase dois mil anos?

Essa é a proposta do preterismo parcial, uma abordagem confiável que interpreta a maior parte das profecias do Novo Testamento como cumpridas no século I, especificamente durante o cerco e a destruição de Jerusalém pelo exército romano em 70 d.C. É uma perspectiva intelectualmente séria e merece ser compreendida com atenção.

 

O que o próprio texto diz

O ponto de partida mais honesto é o próprio Apocalipse. Logo no primeiro capítulo, João afirma que as visões que recebeu dizem respeito a “coisas que em breve devem acontecer” e reforça que “o tempo está próximo”. Para o leitor moderno, essas expressões parecem detalhes menores. Mas para qualquer pessoa do século I que tivesse recebido esse texto, elas seriam urgentes e imediatas. Não havia qualquer referência a eventos dois ou três milênios no futuro.

Esse argumento é levado a sério por teólogos de diferentes tradições. Se João escrevia para comunidades cristãs que sofriam perseguição e precisavam de esperança, faz sentido que ele estivesse anunciando algo que elas veriam acontecer em sua própria geração, não em uma geração que nem sequer poderia imaginar.


Dois textos, uma história?

A análise preterista parcial se apoia na comparação entre dois documentos do século I: o Apocalipse de João e A Guerra dos Judeus, do historiador Flávio Josefo. Josefo foi um general judeu que se rendeu aos romanos e se tornou cronista da guerra. Ele estava presente na guerra, viu os eventos com os próprios olhos e registrou tudo com riqueza de detalhes. A pergunta que o preterismo coloca é provocadora: e se esses dois textos estiverem descrevendo o mesmo acontecimento, um em linguagem profética e simbólica, e o outro em linguagem histórica e factual? As correspondências são, no mínimo, dignas de reflexão.


Montanhas movidas e pessoas nas cavernas

O Apocalipse descreve um cataclisma cósmico em que “todos os montes e ilhas foram removidos dos seus lugares” (Ap 6.14) e as pessoas correm apavoradas para se esconder em cavernas (v. 15). Lido de forma literal, isso parece impossível. Mas Josefo relata que as legiões romanas, para avançar com seu imenso equipamento de guerra, empregavam equipes de engenharia que literalmente nivelavam o terreno, demolindo rochedos, aplainando estradas e reorganizando a paisagem para abrir caminho ao exército.

Em relação à tentativa de esconder-se em cavernas, Josefo confirma que essa era uma estratégia desesperada dos judeus durante o cerco. Eles fugiram para as grutas e para os túneis subterrâneos na esperança de escapar da violência romana. O historiador ainda registra, em uma frase que ecoa quase palavra por palavra o clamor descrito em Apocalipse, que essa esperança foi vã: “[Eles] não puderam ficar escondidos nem de Deus nem dos romanos” (War 6.7.3).


Uma cidade dividida em três

O Apocalipse profetiza que “a grande cidade fendeu-se em três partes” (Ap 16.19). Para quem interpreta a Grande Cidade como Jerusalém, a pergunta natural é se isso realmente aconteceu historicamente. Josefo responde que sim, com uma precisão desconcertante. Ele descreve como Jerusalém, em vez de se unir contra o inimigo externo, foi destruída por dentro por uma feroz guerra civil entre três facções rivais que disputavam o controle da cidade. Três grupos. Três partes. A cidade que deveria se defender do exército mais poderoso do mundo estava ocupada se destruindo por conta própria.


A chuva de pedras de trinta quilos

Uma das correspondências mais específicas envolve uma imagem do Apocalipse que costuma ser lida como fantástica demais. Trata-se de uma chuva de granizo com pedras pesando cerca de um talento cada, ou seja, aproximadamente 30 quilos. O detalhe do peso parece quase técnico demais para ser puramente simbólico. Mas Josefo, ao descrever o bombardeio das catapultas romanas sobre Jerusalém, informa que as pedras lançadas por essas máquinas pesavam exatamente um talento. E, em uma coincidência linguística impressionante, ele usa a mesma raiz grega que João emprega em Apocalipse [gr., talantiaia]. O granizo profético e as pedras das catapultas romanas convergem não apenas em significado, mas também em vocabulário.


Rios de sangue

A imagem final e mais visceral é a do sangue fluindo como vinho de uma grande prensa, atingindo a altura dos freios dos cavalos e se espalhando por uma vasta extensão. Literalmente, isso é impossível, pois o sangue coagula. Mas como hipérbole poética para um massacre de proporções inimagináveis, a imagem ganha outra dimensão quando lida ao lado do registro de Josefo.

O historiador descreve o Rio Jordão bloqueado por corpos, o mar avermelhado de sangue, e até mesmo o fogo sendo apagado pelo volume de sangue que escorria pelas ruas de Jerusalém: “Vertia sangue de toda a cidade em tal nível que o incêndio de muitas casas foi apagado com o sangue desses homens” (War 6.8.5). São imagens de horror extremo, registradas por uma testemunha ocular. Podemos acreditar que João e Josefo estão descrevendo, cada um em sua linguagem, a mesma catástrofe histórica.


A lógica teológica

Assim, para além das correspondências históricas, o preterismo parcial propõe uma narrativa teológica coerente. A destruição de Jerusalém em 70 d.C. não seria apenas um evento político ou militar, mas o encerramento formal de uma era. Com a rejeição do Messias e a crucificação de Jesus, a Antiga Aliança entre Deus e Israel teria chegado ao seu limite. O Templo de Jerusalém, símbolo central desse sistema religioso, seria então destruído, encerrando definitivamente o sistema de sacrifícios e sinalizando que a presença de Deus não mais habitava em um edifício ou em uma cidade específica.

O exército romano teria agido como instrumento involuntário de um julgamento divino, da mesma forma que o Antigo Testamento apresenta impérios pagãos como a Babilônia e a Assíria como instrumentos da ira de Deus contra Israel. O resultado histórico confirma essa interpretação. Após o ano 70 d.C., o Judaísmo nunca mais voltou a ter um Templo. E o Cristianismo se expandiu rapidamente como uma fé universal, desvinculada de um território ou de uma liturgia sacrificial específica.


Uma pergunta que fica

O preterismo parcial não é uma interpretação nova. Também não é, infelizmente, unanimidade entre os teólogos. Muitos lançam objeções do tipo: o que fazer com as passagens proféticas que parecem descrever eventos ainda futuros? Como devemos interpretar a ressurreição e o Juízo Final dentro dessa abordagem? Essas são questões legítimas que o preterismo parcial também responde biblicamente.

O valor da abordagem preterista está em nos fazer repensar aqueles textos que sempre foram bem “familiares” a nós. Se o Apocalipse era, antes de tudo, uma mensagem de esperança para os cristãos perseguidos do século I, então a sua leitura muda radicalmente. A nossa compreensão deixa de ser um roteiro de filme de terror profético, e passa a ser uma declaração do poder e da graça do nosso Deus.

Quantas outras profecias bíblicas que consideramos puramente futuristas têm raízes em eventos históricos que já aconteceram? Se você nunca parou para pensar nisso, reflita com seriedade e honestidade. A resposta está bem perto de você e ela pode te surpreender.



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